
Símbolo de conforto emocional e presença constante em momentos marcantes, o café resiste ao tempo e à alta dos insumos, configurando-se como um hábito que atravessa gerações e se mantém parte da tradição pelotense. O Dia Mundial do Café, celebrado na terça-feira (14), reflete sobre o papel do produto na sociedade e as novas alternativas de consumo no município.
De acordo com o economista Vinicius de Armas, o consumidor sentiu um baque real ao adquirir o produto nos últimos anos, que pode ser explicado por fatores ambientais. “Isso é evidenciado pelos dados do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que registraram uma alta expressiva: o café moído acumulou elevações de quase 33% no final de 2024, um patamar de preço que acabou se fixando no mercado. Esse salto tem explicações claras baseadas na oferta e na demanda globais, especialmente porque o campo brasileiro enfrentou secas severas e ondas de calor atípicas, que prejudicaram o desenvolvimento dos grãos e reduziram drasticamente os nossos estoques”, explica.
Simultaneamente, países produtores na Ásia também registraram perdas em suas lavouras. Assim, o café passou a ser menos disponível no mundo, mas se tornou rentável para o produtor brasileiro, que bateu recordes de exportação. A consequência de exportar mais e colher menos para o próprio país, no entanto, é a escassez do produto no mercado interno, aumentando o preço cobrado do consumidor no Brasil.
Segundo ele, o café faz parte da tradição pelotense principalmente devido ao clima úmido em dias frios. Além disso, a bebida possui demanda inelástica, pois se configura como um hábito tão essencial na rotina que o consumidor resiste ao máximo antes de cortá-la da sua lista de compras. “Em tempos de crise financeira, cortar esse pequeno conforto diário gera um desgaste emocional muito maior do que a economia no bolso. Quando a inflação aperta o orçamento, a família não abandona a bebida, mas adapta o consumo, trocando por marcas mais acessíveis no supermercado”, diz.
Perda do hábito impacta ambientes tradicionais
Alguns acontecimentos históricos, como crises sanitárias globais, também trouxeram impactos a estabelecimentos de Pelotas. Tradicional na cidade desde 1942, o Café Nacional, que em 1970 sob a direção de Ramiro Rodrigues passou a se chamar Café Aquários, se tornou patrimônio cultural do estado em 2025. Localizado na Rua Quinze de Novembro, esquina Sete de Setembro, o local sentiu os efeitos da pandemia da Covid-19, em 2020.
Conforme Lidia Silveira, gerente do café e funcionária há 24 anos, a quantidade de pessoas atendidas e até mesmo os horários de funcionamento sofreram alterações. “Perdeu-se um pouco desse hábito depois da pandemia, alguns clientes ficaram debilitados pela Covid e nunca mais os vimos. Não trabalhamos mais nos domingos e feriados e não ficamos abertos mais até as 21h, é até 20h30, e dependendo fechamos até um pouco antes”, relata.
Mesmo com a alta dos ingredientes e a mudança de hábitos, o Aquários passou a contar com novos perfis de clientes, segundo a gerente. “A clientela mudou bastante também depois da pandemia. Vieram clientes que não eram nossos antes, agora tem mais jovens e mulheres. Tem gente que até hoje acha que aqui não entra mulher, e diz que nunca veio porque só têm homens”, afirma.
Lugar de eventos marcantes na vida dos clientes, como pedidos de casamento, despedidas de solteiro e negociações comerciais, o Aquários tem um significado especial na vida de Gabriel Brandti, de 80 anos. Ele conta que frequenta o café desde a juventude, onde teve a oportunidade de fazer muitas amizades. “Eu venho quase diariamente, quando eu não venho sinto falta. É praticamente uma família antiga”
Novas perspectivas
De acordo com o economista, as novas gerações estão diminuindo o consumo de álcool e priorizando o bem-estar e a socialização diurna, fazendo do café uma bebida de entretenimento. Dessa forma, como Pelotas é um polo acadêmico, cafés voltados ao público jovem e universitário tem ganhado espaço, bem como ambientes focados em promover atividades culturais.
A Díade Café, fundada em 2021 com o objetivo de oferecer um ambiente novo a juventude que contenha um bom custo-benefício, está localizada no centro da cidade e no Parque Una. “Nós temos todos os públicos, desde crianças até idosos, mas atingimos mais o público universitário. Como sabíamos que iríamos acabar atingindo esse grupo, procuramos fazer algo com uma qualidade excelente e preço justo. Já existiam muitas cafeterias na cidade, mas sentimos de trazer uma proposta diferente em alguns âmbitos”, conta a proprietária do local, Etienne de Oliveira.

Etienne afirma que os cookies são o carro-chefe do local, mas as bebidas frias também obtêm destaque. Para manter o padrão dos produtos, ela relata que a equipe busca manter ao máximo as receitas originais, mas algumas adaptações precisaram ser feitas diante do preço dos ingredientes. “Principalmente o café e o cacau tiveram uma suba absurda. Precisamos adaptar algumas coisas, infelizmente esses ajustes são necessários, mas tentamos segurar o máximo possível”, comenta.
Alguns ambientes surgem com a proposta de unir cultura e gastronomia no centro de Pelotas. Inspirado no romance de José de Alencar, o Lucíola Café e Bistrô tem como objetivo ser um espaço cultural na cidade, segundo Kelen Rosa, proprietária do lugar. “É uma casa centenária, ela toda é uma obra de arte, então é muito mais a experiência do que simplesmente tomar um café. Aqui é um espaço de convivência, de trocas, de networking. Fazemos encontros de concentração familiar também, então as pessoas começam a ver no café uma possibilidade de desenvolver essas experiências”, ressalta.

Karen destaca que não sentiu o impacto negativo do aumento dos insumos: “Simplesmente quem consome café, continua consumindo, assim como a gasolina subiu e ninguém parou de andar de carro. Adaptamos o custo, seguimos com a qualidade e quem é amante de café vai continuar tomando a bebida”.
Inovação e fortalecimento
Iniciativas recentes foram criadas para estimular a circulação em cafeterias e fortalecer a economia local. O Passaporte do Café foi pela Differ, torrefação que trabalha com mais de 40 empresas locais. De acordo com Victor Antoniazzi, sócio da empresa e idealizador do produto, mais de 90 cafeterias são mapeadas pela Differ, sendo que 35 destas participam do passaporte, com brindes exclusivos para quem adquire. “As primeiras pessoas já conseguiram completar o passaporte – o que é incrível, já que em menos de 5 meses elas já veem o benefício total dele”, destaca.
Consumidora de cafeterias semanalmente, a psicóloga Cristina Prestes, de 32 anos, adquiriu o passaporte, que ajudou a reforçar o hábito já existente. “Conheci o passaporte pelo Instagram, e na mesma hora já corri pra adquirir. Pude conhecer novos locais com ele, alguns eu nem sabia que existiam”, conta.
O economista detalha que os novos espaços de consumo refletem uma maneira inovadora de valorizar o café, onde o cliente busca mais que qualidade e experiência, mas, principalmente, conforto emocional. “O café se encaixa perfeitamente como um pequeno conforto essencial. O ganho emocional e social que uma xícara entrega é muito maior do que o seu custo financeiro por dose. Por isso, a bebida continua firme no orçamento familiar, mesmo quando a economia não vai bem”, finaliza.



