Inicialmente, vamos discorrer um pouco sobre as belezas desta valorosa cidade do sul do hinterland gaúcho, denominada Morro Redondo. Se você quer refrescar a sua mente com o sabor pampeano de chimarrões de paz, vá até lá.
Aí, caros leitores, é só começar o passeio. Que tal se deliciar com as águas da Cachoeira do Imigrante, caminhar, assobiando uma rancheira, pelas trilhas do Morro de Amores?
E, na volta, se recostar na grama que rodeia a cancha de futebol de salão, na Praça da Emancipação, esperando a chegada de uma figura ímpar na cidade. Quem, quem? Ele, o Pensador de Morro Redondo.
Seu Siguimundo Freire, assim, no primeiro olhar, parece um pacato cidadão, somente. Alto? Sim, um metro e sessenta e nove. Cabelos cor de neve, no desabrochar dos 70+.
Porém, ao ouvi-lo falar, a coisa muda de figura. Só sabedoria e filosofia profunda saem de sua boca. Todos ficam maravilhados à sua volta. Falando nisso, lá vem ele com a mesma calma de sempre.
— Boa tarde, mestre — diz alguém.
— Seja bem-vindo — diz outro.
— Estamos todos ansiosos — diz uma menina, universitária, talvez.
Siguimundo respira fundo, senta-se no lugar de sempre, e logo todos os trinta espectadores o cercam. Tem gente que vem de longe para conhecê-lo. Quem não precisa ouvir palavras certeiras que acertem em cheio o nosso desesperançoso coração?
Uma brisa sopra. São seis horas da tarde. O pipoqueiro já está a postos. Ele vende muito nestas ocasiões. Alguém pede silêncio e avisa que desliguem os celulares e que não façam perguntas idiotas. Siguimundo começa sua pregação:
“Que Heráclito nos ilumine” — ele brada. Os olhares se voltam para ele. “Hoje vamos falar de poesia, poema, quadrinha, qualquer forma de manifestação poética que nos leve ao âmago e que nos faça abrir nossas enferrujadas comportas, possuídas por malignos preceitos, para o bem que bons ventos trazem e que nos confortam, fazendo-nos almejar o ápice do cúmulo.”
Palmas uníssonas interrompem seu relato. “Sigamos com esperança e bons fluidos, como bem diz nosso guru da pedagogia comercial, Augusto Cury, plagiando Leandro Karnal. E sigamos in memoriam os memorialistas das rimas: Gregório de Barros, Rubem Alves, Castro Alves e Gervásio Alves.”
Alguém, insistentemente, levanta a mão.
— Pois não? — diz o mestre.
— Mas Gervásio Alves é meu vizinho aqui em Morro Redondo — diz o apartante.
— Só queria saber se estavas prestando atenção — responde, sabiamente, o mestre Siguimundo.
Aplausos novamente tomam conta da praça. Anoitece. A brisa ainda sopra. A secretária do mestre recolhe contribuições espontâneas.
Siguimundo, o Pensador de Morro Redondo, acena para seus novos discípulos.
— Eu não entendi nada — diz uma senhora de Piratini.
— Nós tampouco — fazem coro, ao responder, três freiras de Pedras Altas.
Siguimundo está que está, tranquilo no mais, pegando o rumo da sua Mercedes, sabendo que está por cima da carne seca.




