
A água é um dos recursos naturais essenciais para a sobrevivência da vida no planeta. Além de colaborar com os ciclos naturais, é fundamental para a produção de alimentos. Embora a superfície terrestre seja formada aproximadamente de 70% de água, grande parte dela é salgada, restando cerca de 3% de água doce (dos rios), e apenas 0,01% é considerada apropriada para consumo. Por isso, ganhou como “dia especial”, o dia 22 de março, para lembrar a importância do seu uso sustentável e a urgência de conservação dos ambientes aquáticos, evitando a sua poluição e contaminação.
Conforme a Organização das Nações Unidas (ONU), a cada 20 anos o consumo mundial de água duplica. Isso pode gerar uma enorme crise de abastecimento que atingirá cerca de 2,8 bilhões de pessoas. Atualmente, cerca de 20 países — o correspondente a 40% da população mundial — já sofrem com a escassez de água, o que gera problemas sociais e de saúde pública. Estatísticas mostram que 25% da população do planeta não tem acesso à água potável e cerca de 58% dos municípios no Brasil não possuem água tratada. O país detém cerca de 12% da água doce do planeta, o que aumenta a responsabilidade dos brasileiros pela preservação.
De acordo com o ecólogo e ambientalista Marcelo Dutra da Silva, professor de Ecologia da Universidade Federal do Rio Grande (FURG), a situação dos recursos hídricos no mundo evidencia um paradoxo crescente. “Embora o planeta possua grandes volumes de água, apenas uma pequena fração é doce e acessível ao uso humano, enquanto o aumento da demanda, as mudanças climáticas e a degradação ambiental intensificam pressões sobre rios, lagos e aquíferos”, ressalta. Segundo ele, em várias regiões, a escassez já se tornou realidade e a água passou a assumir também dimensão geopolítica, sendo motivo de tensões e até instrumento de pressão em conflitos, como se observa no contexto do Oriente Médio.
Nesse cenário, o Brasil ocupa uma posição estratégica, pois além da concentração de água doce, tem como destaque a Bacia Amazônica, a maior do mundo em volume hídrico, e o Pantanal, a maior área úmida contínua do planeta. “Ainda assim, a disponibilidade hídrica nacional é marcada por desigualdades regionais, com abundância no Norte e episódios recorrentes de escassez em outras áreas do país”, salienta.
Silva afirma que a disponibilidade de água é fortemente influenciada pelo contexto. “Desmatamento, alterações no regime de chuvas, pressões econômicas e déficits de saneamento reforçam a necessidade de gestão responsável desse patrimônio estratégico para o desenvolvimento e para a segurança hídrica futura”, alerta.
O ecólogo destaca que as perspectivas apontam para um cenário de pressão crescente sobre a água doce disponível. “O aumento da população mundial, a expansão da produção de alimentos, a intensificação das atividades econômicas e os efeitos das mudanças climáticas tendem a ampliar a demanda e a agravar desequilíbrios entre disponibilidade e consumo”, observa.
Ele lembra que em muitas regiões, eventos extremos — como secas mais prolongadas e cheias mais intensas — devem tornar a gestão da água ainda mais complexa, exigindo planejamento, infraestrutura adequada e mecanismos eficazes de governança. “Nesse contexto, a água tende a assumir papel cada vez mais estratégico para a segurança alimentar, energética e econômica, reforçando a necessidade de uso racional, conservação dos ecossistemas aquáticos e cooperação entre diferentes setores e territórios para garantir disponibilidade e qualidade desse recurso essencial nas próximas décadas”, destaca.
Silva cita diversas iniciativas ao redor do mundo, demonstrando que a preservação e a recuperação de recursos hídricos dependem de políticas integradas de saneamento, controle da poluição e gestão territorial. “Um exemplo emblemático é o processo de recuperação do Rio Tâmisa, no Reino Unido, que ao longo do século 20 deixou de receber grandes volumes de esgoto sem tratamento e passou por fortes investimentos em saneamento, tornando-se novamente um rio com elevada biodiversidade”, exemplifica.
Experiência semelhante ocorre com o Rio Sena, na França, que vem sendo alvo de programas de despoluição, desde o final do século 20, e recebeu investimentos superiores a 1,4 bilhão de euros para melhorar a qualidade da água, com obras para retenção e tratamento de águas pluviais e esgoto urbano. No Brasil, iniciativas institucionais como a gestão de recursos hídricos coordenada pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico e programas de conservação de nascentes — como o Conservador das Águas, em Extrema, Minas Gerais — ilustram estratégias de proteção hídrica em escala local, cita. “Ao mesmo tempo, desafios persistem em grandes áreas urbanas, como demonstra a longa tentativa de recuperação ambiental da Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro, evidenciando que a combinação entre saneamento, governança e continuidade de políticas públicas é determinante para garantir a qualidade e a disponibilidade da água no longo prazo”, observa.
A preservação dos recursos hídricos também depende de atitudes cotidianas adotadas por cidadãos, famílias e empresas, alerta. Entre as medidas mais relevantes estão o uso racional da água — evitando desperdícios, consertando vazamentos e adotando equipamentos economizadores —, a captação e o reaproveitamento de água da chuva para usos não potáveis, além da redução da poluição doméstica por meio do descarte adequado de resíduos, óleos e produtos químicos que podem contaminar rios e sistemas de drenagem, diz. No ambiente empresarial e institucional, práticas como o reuso de água em processos produtivos, a melhoria da eficiência hídrica, o tratamento adequado de efluentes e a adoção de práticas de consumo responsável contribuem para reduzir a pressão sobre mananciais, reflete.
Em 2026, data aborda a conexão entre água e equidade de gênero
A Organização das Nações Unidas (ONU) determinou como tema do Dia Mundial da Água para o ano de 2026, “Água e Gênero”. O objetivo é debater sobre a conexão entre água e a equidade de gênero, uma vez que a falta de acesso a fontes de água doce, saneamento e higiene apropriada nas casas afetam muito mais as mulheres do que os homens.
A ONU quer chamar a atenção esse ano para o papel das mulheres e meninas que coletam e gerenciam água, muitas vezes em condições de alta vulnerabilidade, como ao cuidar de pessoas doentes devido ao consumo em mananciais contaminados, o que ocasiona a elas perdas de tempo, saúde, segurança e oportunidades. Além disso, frequentemente, são excluídas dos processos de tomada de decisão. Por isso, é necessário colocar as mulheres no centro da busca por soluções, envolvendo a gestão de recursos hídricos no âmbito global. Pensando nisso a ONU realiza a campanha “Onde a água flui, a equidade de gênero cresce”. Para impulsionar o tema foi disponibilizado Kit de Ativação, com explicações sobre a temática do ano e propostas de atividades para serem aplicadas em escolas, organizações e sociedade em geral, entre crianças, jovens e adultos.
Sobre a data
A data criada pela ONU, em 1993, foi instituída pela Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente, por meio da Resolução A/RES/64/292, pela qual ficou pactuado que a água limpa e segura e o saneamento básico são Direitos Humanos. O objetivo do Dia Mundial da Água é promover conscientização sobre a relevância da água para a sobrevivência de todos os seres vivos.



