Dia do Pajador Gaúcho resgata tradição de que o tempo é alguém que permanece

Cristiano Quevedo é um grande nome da música nativista. (Foto: Divulgação)

Celebrado nesta sexta-feira (30), o Dia do Pajador Gaúcho rompe as fronteiras de mera data comemorativa e se apresenta como convite à memória, à identidade e à continuidade de uma das expressões mais autênticas da cultura rio-grandense: a pajada, arte essencialmente latino-americana, de verso improvisado que transforma o cotidiano do povo gaúcho – e principalmente fronteiriço – em poesia cantada.

Para o cantor nativista Cristiano Quevedo, além de uma simples técnica, a pajada é emoção, identidade e responsabilidade cultural, e a data cumpre um papel essencial de preservação de legado: “É muito importante que o verso que nos inspire e nos faz viajar por outros tempos entre pelo ouvido, mas vá ao coração. Porque isso nos dá, por minutos ou por horas, o olhar de um pajador, de um poeta que enxerga a vida mais bonita do que ela é”.

Despertando reflexões e chamando atenção para o leque de tradições gaúcho, muitas vezes deixado de lado quando se pauta a etnografia do Rio Grande do Sul, a pajada – ou payada – é popular na Argentina, no Uruguai e também no Chile.

“A importância de nós referenciarmos uma data que homenageia o pajador gaúcho é referenciarmos nossa história, nossa tradição, nossa cultura. Para mim, é um pilar de educação. Desde que referenciamos nossos personagens e aqueles que deixaram um legado, é nós respeitarmos e trazer essa reflexão para os novos tempos”, destacou Quevedo.

Segundo o artista, natural de Piratini, o olhar poético dos versos tem impacto direto na forma como as pessoas se relacionam com o mundo, esclarecendo que ao enxergar a vida com mais beleza, também se constrói, na prática, um caminho para relações mais humanas e solidárias.

O legado de Jayme Caetano Braun
Considerado unanimemente como o grande nome da pajada gaúcha, Jayme Caetano Braun não apenas dominava o improviso em décima, como também transformou a arte em repertório gravado, difundido e estudado. Detentor de pajadas que foram musicadas, declamadas e são até hoje recantadas por gerações de intérpretes e poetas, o legado de Braun se mantém vivo. Neste sentido, o próprio Quevedo relata que muitas de suas canções nasceram diretamente da obra de Braun.

“Eu utilizo muitas vezes versos em décima, acabo musicando alguma décima. Uma que me acompanha há muito tempo é ‘Destinos’, do Jaime com o Luiz Marenco. Foi o nome do meu segundo disco”, contou.

Para ele, a pajada não é apenas uma forma poética, mas uma fonte permanente de inspiração para músicos, intérpretes e compositores nativistas, que encontram nos versos o retrato dos ideais, da querência e das angústias do povo gaúcho.

Arte difícil, dom lapidado
Apesar do romantismo que envolve a figura do pajador, Quevedo ressalta se tratar de uma arte exigente: “Eu acho que nasce com a gente, é um dom, mas todo dom precisa ser lapidado. Exige inspiração, conhecimento do que está dizendo e muita concentração para colocar a ideia em décima”.

Diferente do intérprete, o pajador cria tudo no momento do canto: tema, rima, métrica e sentido. Assim, historicamente, os grandes pajadores também foram vistos como pensadores populares, capazes de traduzir conflitos sociais, valores morais e acontecimentos do cotidiano em versos.

Resistência cultural
Atualmente, segundo Quevedo, os espaços dedicados especificamente à pajada são cada vez mais raros. Mesmo em festivais nativistas, muitas vezes o pajador aparece como apresentador, improvisando versos para anunciar músicas e intérpretes, mas sem um palco exclusivo. Ainda assim, o cantor vê os pajadores e artistas tradicionais como uma frente de resistência cultural, que ocupa espaços para manter viva a arte do verso improvisado, reconhecendo nisso que as novas plataformas ajudam em sua difusão.

Quevedo defende ainda que a arte esteja presente nas escolas, nos CTGs, nos festivais e dentro das famílias, cultivando um elo entre cultura e educação, dois pontos que destaca como inseparáveis: “A cultura é o grande pilar da educação. Trazer os versos, a poesia, a pajada para os filhos é uma maneira de renovar. Hoje existe o rap, a embolada, tantas formas de verso improvisado. A pajada gaúcha é o nosso rap, com a característica de ser em décima”, concluiu.