
Empresária, nascida e criada em Pelotas, Melissa Julio construiu ao longo de quase cinco décadas uma relação íntima com a Praia do Laranjal, principal balneário de água doce do município, às margens da Lagoa dos Patos. Mais do que um destino de veraneio, o Laranjal se tornou para ela um espaço de memória afetiva, convivência familiar e rotina cotidiana, atravessando diferentes fases da vida.
Melissa frequenta o Laranjal desde bebê. Filha de pais que mantinham casa na praia, passou ali as férias escolares de verão e inverno, numa época em que o deslocamento entre o centro urbano e a orla já fazia parte da cultura local. “Minhas férias foram sempre por lá”, relembrou. A familiaridade com o balneário se aprofundou com o tempo. Aos seis anos, iniciou o que chama de veraneio contínuo, que hoje soma 48 anos. Primeiro na casa dos pais, depois, já adulta, na residência construída com o marido para a própria família. Em determinado período, chegou a morar no Laranjal de forma permanente.
A trajetória pessoal de Melissa se confunde com a história recente da praia, que desde o início do século XX se consolidou como espaço de lazer dos pelotenses. Originalmente habitada por pescadores e frequentada de forma esporádica, a região ganhou infraestrutura com o crescimento da cidade e a valorização da orla. O calçadão, as áreas arborizadas e os acessos facilitados ajudaram a transformar o Laranjal em um dos principais pontos de encontro da população local, especialmente durante o verão.
Para Melissa, o grande diferencial da praia está justamente na diversidade de usos e públicos. “É uma praia para toda a família”, afirmou. Segundo ela, o Laranjal reúne, em um mesmo ambiente, opções para quem busca banho de lagoa, descanso à sombra das árvores, prática de exercícios físicos ou simplesmente contemplação da paisagem. “Tem a praia para bronzear, as árvores para o mate na sombra, o calçadão para exercícios, tudo no mesmo ambiente lindo da lagoa”, disse.

A empresária destaca a possibilidade de transitar entre diferentes atividades ao longo do dia. Pela manhã, caminhadas no calçadão; à tarde, encontros com amigos e familiares; em outros momentos, o simples ato de levar uma cadeira até a areia e aproveitar a proximidade da água. Seu ponto preferido fica em frente à rua Mostardas, esquina próxima à sua casa, localizada na região central da praia. A escolha é prática, mas também simbólica: representa a integração entre vida doméstica e espaço público, característica comum entre moradores e veranistas antigos do Laranjal.
Apesar do vínculo afetivo, Melissa não ignora os problemas enfrentados pela praia, especialmente nos meses de maior movimento. Ela demonstra preocupação com os pontos que, em determinados períodos do verão, se tornam impróprios para banho. Para a empresária, a questão envolve tanto falhas na administração pública quanto a falta de consciência ambiental da população. “Isso depende diretamente da gestão, mas também do comportamento de todos nós”, afirmou, ao defender maior cuidado coletivo com a lagoa e seu entorno.

Ainda assim, Melissa mantém uma visão otimista e até defensora do balneário diante de críticas recorrentes. Para ela, a rejeição ao Laranjal muitas vezes está ligada ao desconhecimento. “Eu sempre digo que só não gosta quem não conhece”, afirmou. Em sua argumentação, há espaço para diferentes perfis: quem não quer entrar na água pode ficar na areia; quem prefere sombra encontra árvores; quem busca tranquilidade pode escolher horários e trechos mais calmos. “Duvido que não tenha algo que agrade”, disse.
Ao definir o Laranjal como “a praia de água doce mais linda” que conhece, Melissa reforça um sentimento compartilhado por muitos moradores de Pelotas, para quem a praia não é apenas um ponto turístico, mas parte da identidade local. Em meio às transformações urbanas e ambientais, histórias como a dela ajudam a explicar por que o Laranjal segue sendo, geração após geração, um espaço de pertencimento, lazer e memória.



