Rio Grande volta ao centro da indústria naval com aporte de US$ 6 bilhões para os próximos 4 anos

Presidente anuncia investimentos de R$ 4,3 bilhões na indústria naval gaúcha e no porto; iniciativas devem gerar mais de 10 mil empregos. (Foto: Rafaela Stark/JTR)

Com um aporte de R$ 4,3 bilhões em investimentos na indústria naval e no complexo portuário gaúcho, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) assinou, na terça-
feira (20) em Rio Grande (RS), três contratos em evento no estaleiro municipal. As iniciativas têm potencial para gerar mais de 10 mil empregos diretos e indiretos nos próximos anos, segundo estimativas do governo federal e das empresas envolvidas.

A agenda oficial incluiu dois eventos principais: a formalização de um contrato de concessão para a construção de um terminal portuário da CMPC Celulose, com investimento de R$ 1,5 bilhão, e a assinatura de contratos para a construção de 41 embarcações pelo Sistema Petrobras, totalizando R$ 2,8 bilhões.

“A Petrobras é a empresa brasileira mais extraordinariamente importante. A melhor coisa que nós criamos foi a Petrobras”, declarou Lula durante a cerimônia no Estaleiro Ecovix de Rio Grande. O presidente destacou que a estatal vem se transformando em uma empresa de energia e defendeu a necessidade de o país construir “uma soberania energética” para não depender de outros países.

Retomada da indústria naval

Os contratos assinados pela Petrobras e sua subsidiária Transpetro integram o Programa Mar Aberto, iniciativa voltada à renovação e ampliação da frota nacional. As encomendas preveem a construção de cinco navios gaseiros, 18 barcaças e 18 empurradores, distribuídos entre estaleiros do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Amazonas.

O Estaleiro Rio Grande ficará responsável pela construção dos cinco navios gaseiros pressurizados destinados ao transporte de Gás Liquefeito de Petróleo (GLP) e derivados — três com capacidade de 7 mil m³ e dois com 14 mil m³. O investimento total nessas embarcações chega a R$ 2,2 bilhões, com previsão de gerar até 3.200 empregos diretos e indiretos. A entrega da primeira unidade está programada para até 33 meses após o início das obras, com novas entregas a cada seis meses.

As 18 barcaças serão construídas pelo Estaleiro Bertolini, em Manaus (AM), enquanto os 18 empurradores ficarão a cargo do Estaleiro Indústria Naval Catarinense, em Navegantes (SC). Essas embarcações, com investimento de R$ 628,8 milhões, devem gerar cerca de 6.100 empregos durante a fase de construção.

“Hoje estamos dando mais um passo importante na retomada forte da indústria naval brasileira, sobretudo em Rio Grande”, afirmou Lula. “Fico muito feliz em ver essa estrutura voltando a dar retorno positivo para a cidade e para o Brasil.”

Ampliação da frota

Com os novos gaseiros, a frota da Transpetro passará de seis para 14 embarcações desse tipo, triplicando a capacidade de transporte de GLP e derivados. Os navios serão até 20% mais eficientes no consumo de energia e reduzirão em 30% as emissões de gases de efeito estufa, além de estarem aptos para operar em portos eletrificados.

A aquisição das barcaças e empurradores marca a entrada da Transpetro na navegação interior, consolidando a companhia como uma das principais operadoras de transporte de derivados de petróleo e biocombustíveis no modal fluvial. O novo modelo de negócio permitirá a verticalização da operação de abastecimento em polos estratégicos como Belém, Rio de Janeiro, Santos, Paranaguá e Rio Grande.

“A renovação e ampliação da frota nos permite atender ao crescimento da produção do país com maior eficiência, reduzindo custos e fortalecendo nossa soberania energética”, pontuou Sérgio Bacci, presidente da Transpetro.

Terminal de celulose

Durante a cerimônia no porto, foi assinado o contrato de concessão de uma área para a implantação de um terminal portuário da CMPC Celulose, com investimento de R$ 1,5 bilhão. O empreendimento integra o Projeto Natureza, que contempla a construção de uma nova fábrica de celulose em Barra do Ribeiro com aporte total superior a R$ 27 bilhões — o maior investimento privado já anunciado no Rio Grande do Sul.

A área concedida estava sem uso desde 2014, após o colapso de um antigo projeto ligado à indústria naval, afetado pelos escândalos de corrupção revelados na Operação Lava Jato. O contrato de concessão tem prazo de 25 anos.

O governador Eduardo Leite (PSDB) destacou o trabalho do Estado para viabilizar o projeto. “Esta área, que ficou totalmente parada desde 2014, agora vai se transformar em um espaço para transporte de celulose, com mais de 2 mil empregos aqui e outros 6 mil em Barra do Ribeiro”, afirmou. Apesar de discursar sob fortes vaias do público presente, o chefe do executivo estadual afirmou que seu governo auxiliou nos acordos e contratos firmados no dia.

O futuro terminal incluirá dois berços de atracação para navios, dois berços para barcaças e um armazém com capacidade estática de 194 mil toneladas de celulose. Na fase de implantação, a expectativa é gerar mais de 1.200 empregos; em operação, cerca de 450 empregos diretos e mais de 2.100 indiretos.

Como contrapartida, o projeto prevê o repasse de R$ 142,7 milhões à Portos RS, destinados à dragagem de aprofundamento do Canal de Acesso e da Bacia de Evolução do Porto Novo. A intervenção beneficiará todas as cargas operadas na área, aumentando a competitividade do complexo portuário gaúcho.

Estaleiro do município deve voltar a figurar entre os mais importantes do país após anúncio de empregos e investimentos bilionários. (Foto: Rafaela Stark/JTR)

Mão de obra qualificada

A presidente da Petrobras, Magda Chambriard, anunciou que as novas construções demandarão um número significativo de profissionais qualificados a partir de março deste ano. A estatal apoiará a capacitação por meio do programa Autonomia e Renda, que oferecerá 1.600 vagas em cursos com bolsa-auxílio.

“Vai ser inaugurada agora em março, aqui no Rio Grande, uma nova escola do Senai destinada a treinar para que essa nossa indústria naval possa enfrentar os desafios dos próximos anos”, disse Magda. “Os empregos serão ampliados nos próximos anos e iremos nos aproximar do número de 80 mil empregos na indústria naval brasileira.”

Já a prefeita Darlene Pereira (PT) ressaltou que há menos de um ano Lula esteve no município para anunciar a construção de quatro navios. “Hoje, menos de um ano depois, ele volta para anunciar mais cinco navios gaseiros. Isso é entrega concreta, é trabalho pelo Rio Grande, e é geração de emprego e renda para o nosso município.”

Magda também anunciou que a Petrobras planeja transformar a Refinaria Riograndense na primeira biorrefinaria do Brasil, com início previsto para o segundo semestre deste ano. A unidade passará a operar apenas com produtos de origem renovável. “Essa transformação da Riograndense vai nos demandar cerca de R$ 6 bilhões”, explicou.

Por sua vez, Lula destacou o crescimento da massa salarial e o recorde de exportações, que atingiram US$ 628 bilhões, com a abertura de 508 novos mercados em três anos.

Programa Mar Aberto

O Programa Mar Aberto reafirma o compromisso do Sistema Petrobras com a renovação e ampliação da frota nacional. Com aportes estimados em US$ 6 bilhões entre 2026 e 2030, a iniciativa contempla a construção de 20 navios de cabotagem, 18 barcaças e 18 empurradores, além da previsão de afretamento de 40 novas embarcações de apoio destinadas à renovação da frota de suporte às atividades de exploração e produção.

Segundo Magda, a Petrobras tem atualmente contratados ou em contratação a construção de 48 embarcações de apoio marítimo, além das 36 anunciadas na terça-
feira. “Também temos 9 embarcações em estudo e perto de 8 novas plataformas em estudo para serem também licitadas e construídas. Até julho deste ano, o primeiro navio desse conjunto de navios contratados vai ser entregue”, afirmou.