Esta é uma análise sobre os efeitos de uma ditadura em diversas gerações. Para isso, usaremos duas edições da coluna, conectando fatos do passado que possam contribuir para um olhar mais detalhado sobre o comportamento político, social e digital de parte do povo brasileiro, resultante da ditadura, deflagrada em 1964, que retirou direitos dos brasileiros, dentre eles o direito ao voto para escolha do Presidente da República – tanto dos eleitores da época, quanto das gerações que nasceram de 1947 a 1971.
Quando se trata de diálogo sobre política, é muito comum ouvirmos a célebre frase: “o povo não sabe votar”. O que é saber votar?
Um médico, após concluir a graduação, tem pela frente a residência, ou, caso queira, mestrado e doutorado. Mas o que o torna um bom médico? O exercício da profissão na urgência e na emergência de um pronto socorro, em um hospital, a atuação no consultório, a atualização nos conhecimentos científicos. Sem dúvida, é o conjunto da obra, mas isso demanda décadas de exercício profissional.
Os pilotos da aviação comercial, para o primeiro voo com passageiros, necessitam comprovar muitas horas de voo e a aprovação em múltiplos testes físicos, de conhecimentos e aptidões.
Os mais altos cargos militares, general de exército (em tempos de paz) ou marechal (em tempos de guerra), passam por todos os postos exigidos pela carreira desde sua admissão. São anos de estudos e exercícios militares.
Não resta dúvida de que o tempo no exercício da profissão é fator determinante para a qualificação, sucesso e prosperidade do profissional, das instituições em que ele atua e até da sociedade.
Na política, é preciso reconhecer que a falta destes requisitos causa disfunções e danos irreparáveis.
Cabe lembrar dois ditados populares: “é errando que se aprende” e “a prática leva à perfeição”. Entretanto, ambos não seriam aplicados ao voto da geração nascida em 1947.
Os nascidos em 1947 completaram 17 anos em 1964, ano do golpe civil-militar e, pela legislação eleitoral, não eram eleitores. A esta geração, o direito ao voto para escolher o Presidente da República só foi concedido aos 42 anos de idade, em 1989. Então, dos 18 aos 42, foram 24 anos sem o exercício do voto, sem o direito às tentativas de acertar, errar e tentar novamente.
Quanto à consciência sobre a importância do voto e o comportamento político de boa parte da população que nasceu de 1954 a 1964, e hoje tem de 71 a 61 anos respectivamente, carecemos de estudos. Estes não conheceram a democracia. O pensamento crítico foi extirpado deles através de uma nova ordem social que usou a música, o teatro, a televisão e a escola para manter a vida social, cultural, política e educacional, assim como a liberdade dos brasileiros, sob a tutela do Estado. Alguns vão lembrar que na televisão, antes de qualquer programação, aparecia na tela um documento e a voz do locutor anunciava a idade permitida para assistir aquele programa – era o Estado dentro da tua casa, determinando quem poderia ou não assistir àquela programação. Até porque programas que não estivessem alinhados com o regime nem iam ao ar.
Ainda na década de 80, os bailes em clubes sociais, esportivos ou afins, tinham que elaborar uma relação das músicas que seriam tocadas, datilografar em duas vias e levar na Polícia Federal em Rio Grande. A lista era aprovada na totalidade ou parcialmente, com riscos identificando as músicas proibidas. O documento ganhava um carimbo e a assinatura do agente e deveria permanecer no local durante todo o baile para possível fiscalização.
Muitas gerações conheceram a democracia somente a partir da redemocratização do país, com as eleições diretas para Presidente da República em 1989.
A partir de então, foram tantas as mudanças no comportamento dos brasileiros que seria impossível enumerá-las, mas uma eu faço questão!
Todos nós temos um parente próximo, mais velho, que quando nos observava diante do computador dizia: “não fala com estranhos”, “não diz teu nome e nem dá teu endereço”. Medos e precauções naturais sobre o desconhecido.
O tempo passou e aquele familiar precavido é hoje quem mais consome notícias falsas e propaga mentiras, vive em meio ao lixo digital, fora da realidade porque encontrou a companhia de quem pensa igual.
Aos que se identificaram, me desculpem, mas com a realidade não se brinca.
Continua na próxima edição.




