Entre concertos e histórias, Pelotas vive a música internacional

14ª edição reúne mais de 300 alunos e espera trazer público superior aos 45 mil do ano anterior. (Foto: Paulo Rossi)

Durante 12 dias, Pelotas se torna, mais uma vez, palco da música internacional, ao receber o 14º Festival Internacional Sesc de Música. De 19 a 30 de janeiro, entre concertos gratuitos, aulas intensivas e intercâmbio cultural, o evento, que reúne mais de 300 alunos de variados países, reafirma o papel da cidade como referência na difusão da música e da cultura.

Promovendo mais de 115 apresentações gratuitas — número recorde do evento — os concertos e recitais ocupam teatros, praças, igrejas, hospitais, além do Mercado Público e a Praia do Laranjal, considerados espaços simbólicos da cidade, valorizando sua memória e cotidiano. Conforme Luis Fernando Parada, diretor do Sesc em Pelotas, a expectativa deste ano é superar os números do ano passado, que alcançou mais de 45 mil pessoas.

De acordo com Anderson Mueller, coordenador de música do Sesc no RS, o evento possui um grande diferencial: a integração profunda entre formação, criação artística e acesso público. “Poucos festivais conseguem reunir, de forma simultânea, um eixo educacional robusto — com centenas de 17 alunos bolsistas e professores de excelência — e uma programação cultural extensa, gratuita, espalhada pela cidade e abraçada de forma tão significativa pela comunidade”, detalhou.

Luis Fernando Parada, diretor do Sesc em Pelotas, tem boas expectativas para o festival. (Foto: Divulgação/Sesc)

Os impactos promovidos pelo evento são os mais diversos possíveis, segundo o coordenador de música. Para ele, o festival amplia o repertório, valoriza a memória musical e promove encontros entre diferentes tradições. O campo educacional, por sua vez, é fonte de aperfeiçoamento para jovens músicos, muitos vindos de projetos sociais. Do ponto de vista econômico, o evento movimenta setores como hotelaria, comércio e gastronomia.

Imersão musical e troca de saberes

Os professores são convidados a partir de sua trajetória artística, experiência pedagógica e reconhecimento no meio artístico e musical. O corpo docente deste ano conta com 59 mestres de diversas partes do mundo e, ao todo, 12 nacionalidades estão representadas: Alemanha, Argentina, Bielorrússia, Brasil, Bulgária, Canadá, Espanha, Itália, Japão, Portugal, Romênia e Rússia.

Para Douglas Gutjahr, professor de percussão participante desde a primeira edição do evento e natural de Santa Catarina, o aprofundamento que o festival traz é fundamental para a evolução dos alunos, os quais têm mudanças significativas em seus perfis ao longo do tempo. “É possível perceber estudantes cada vez mais informados e tecnicamente ágeis, mas também mais ansiosos e imediatistas. O festival tem um papel importante ao oferecer um espaço de escuta, aprofundamento e convivência, estimulando a concentração, a paciência e o amadurecimento artístico e humano”, afirmou.

Ademais, o ambiente ofertado pelo evento é plural e colaborativo, segundo o professor, devido às vivências compartilhadas durante os 12 dias. “A troca entre professores e alunos de diferentes países e realidades culturais é um dos grandes valores do festival. Esse convívio amplia perspectivas, promove o respeito às diferenças e enriquece o processo pedagógico, ao permitir o compartilhamento de experiências, métodos e visões de mundo”, declarou Gutjahr.

O festival oferece uma experiência que flui da sala de aula ao mercado de trabalho, pois proporciona o contato direto com professores, ensaios e apresentações que englobam as mais diversas culturas. Com essas vivências, os selecionados têm não só sua visão artística e profissional ampliadas, mas também a humana. Após o edital de chamada, 1.179 inscrições foram recebidas, e a avaliação técnica definiu os selecionados do festival, os quais representam 19 estados nacionais e 6 países da América Latina, sendo eles Argentina, Colômbia, México, Peru, Uruguai e Venezuela.

Neste ano, além da América Latina, os atributos europeus também ganham destaque entre os alunos, visto que a cidade do doce recebe um grupo de seis estudantes do Reino Unido, convidados pela parceria entre o Sesc/RS, a Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e a Bath Spa University, para a classe de choro.

Experiências transformam carreiras

Para Eduardo de Magalhães, de Niterói, Rio de Janeiro, a expectativa em participar pela primeira vez do evento tem um grande significado no aperfeiçoamento ao seu instrumento, o oboé. “Creio que serão aulas produtivas e apresentações desafiadoras e muito boas. O maior aprendizado que espero ter é quanto às técnicas do meu instrumento e prática de orquestra”, disse.

O oboísta de 15 anos ressalta ainda que a participação também oportuniza a experiência de dividir o palco com músicos de diversos lugares do mundo. “Nesse festival tenho certeza que além de muitos aprendizados, o fato de me conectar com outras pessoas vai contribuir na minha formação profissional. Isso é ótimo tanto para a evolução no instrumento quanto a criação de vínculos com realidades diferentes”, contou Magalhães.

O fluminense de 15 anos, Eduardo Magalhães, é oboísta e participa pela primeira vez do festival; enquanto o venezuelano e morador de Roraima, Azahel Camacho, tem 26 anos e participa do festival desde 2023. (Foto: Arquivo pessoal)

O venezuelano Azahel Camacho, de 26 anos, vive atualmente em Roraima e participa do festival desde 2023. A partir da recomendação dos seus professores, Camacho se inscreveu no projeto social de orquestras jovens do Sesc e, hoje, sua participação se dá na 14ª edição como aluno regular dos cursos – passo marcante em sua carreira.

Com a nova modalidade, o músico tem uma alta expectativa para adquirir conhecimentos na viola sob novas perspectivas. “É minha primeira edição como aluno regular do curso de viola, espero que sejam duas semanas de grande aproveitamento dos professores que teremos, de imersão e troca com os colegas desta de edição, e a participação no concerto da orquestra acadêmica com uma das minhas sinfonias favoritas”, enfatizou o violista.

De acordo com ele, a possibilidade de ter artistas de diversas partes do mundo reunidos é enriquecedora: “Além de ser um aluno estrangeiro morando no Brasil, tenho percebido que fiquei menos introvertido e ficou mais fácil entender e me ‘entrosar’ com o meio musical dos jovens de diversos estados do país. Uma das maiores vantagens que temos no festival é a oportunidade de iniciar ou aumentar o networking no meio musical, o qual é importantíssimo ainda mais para os jovens musicistas da região Norte do país, pois estamos um tanto afastados do centro musical”.

Edição é marcada por desafios e homenagens

Conforme explicou Mueller, os principais desafios estão na logística complexa e na manutenção de um alto padrão artístico. Para ele, ampliar o alcance sem perder a qualidade é da mesma forma um aspecto que exige planejamento, parcerias sólidas, apoio institucional e o engajamento da comunidade.

A edição é marcada de maneira especial por homenagens significativas, segundo Parada, sendo que dentre elas encontram-se os 400 anos das Missões Jesuíticas. Outra novidade é o lounge do festival no Mercado Público, espaço que fortalece ainda mais a conexão entre os estudantes e a plateia.

O diretor afirmou que todas as atrações do evento são gratuitas, sendo que algumas delas, como as cameratas nos hospitais, são restritas ao público do espaço. Já outras, como as atrações no Clube Caixeiral, são restritas à lotação do espaço, por ordem de chegada. Todas as informações estão especificadas na programação, disponível no site do Sesc.

Para as apresentações no Theatro Guarany, é necessária a retirada antecipada de ingressos no site a partir de terça-feira (14) ou, presencialmente, na bilheteria, de 13 a 16 de janeiro para espetáculos dos dias 19, 20, 21, 22, e de 20 a 23 para espetáculos dos dias 25, 26, 27, 28 e 29 – limitados a dois por pessoa. Quem não conseguir retirar com antecedência pode tentar diariamente antes de cada concerto, às 18h, na entrada, onde haverá um número limitado de ingressos disponíveis.