Pescadores de Pérolas

No silêncio da noite, as plantas do jardim crescem num tempo desconhecido, assim como, desabrocham as sementes do futuro escondido na terra, que evolui rebelde a acomodações.

As linhas de força do invisível estão em perpétuo movimento. Tudo emerge do ventre da criação como vulcão que, na quietude, fomenta o fogo e, de repente, rompe limites e se derrama em lavas incandescentes.

Na Natureza, a véspera do imprevisível mostra que a evolução transcende ao esperado. A energia latente provoca o vir a ser que se desprende no nascimento, sempre.

Nascer é doloroso. Rompidos os laços do cordão umbilical, se descobre o mundo desconfortável de ser solitário. Perde-se o aconchego, o calor, a proteção. Fica-se exposto aos choques na pele da alma. A partir daí, vamos à luta pela vida.

Despendemos todo o nosso tempo em busca da felicidade, de um porto seguro, que quando descoberto, nos assusta porque nos faz recordar a possibilidade da perda semelhante a perda do nascimento.

O ser humano é fantástico. Ironicamente, extraordinário. Vive acossado por medos, escondido em uma concha. Alguns, raros, transformam um grão de areia invasor em pérola de extrema beleza e, assim, vão colecionando tesouros na metamorfose das agruras. Outros se fecham, a sete chaves, em ostras e armazenam solidão em lotes inúteis numa farsa de viver.

E, no entanto, somos todos, em potencial, pescadores de pérolas.
Mergulhamos nas profundezas das águas íntimas das emoções para escolhermos riquezas contidas nas ostras que encontrarmos, porque a vida nos impele rumo à descoberta do novo, do belo, do bom.

Ocorre que, nessa incoerência que nos é peculiar, ao nos depararmos com a pérola tão almejada, não sabemos bem o que fazer com ela e, no pânico de descobrir o belo, deixamos cair, no fundo do mar escuro da covardia, o pedacinho perolado de ventura que nos foi destinado.

Conheço poucos que têm confeccionado pérolas, transmudando os
grãos de areia que invadem suas ostras, e não se surpreendam se os encontrarem com as mãos cheias delas. São vestígios da mutação constante de existir entre a alegria e a tristeza, entre o pânico e a surpresa.

No tempo certo, o urgente tarda, o lento se apressa, e nós, os pescadores de pérolas, mergulhamos na realidade, silenciosamente, arrecadando os tesouros da convivência, que permite o futuro na metamorfose do presente. E vamos cultivando as partículas de areia para transformálas em pérolas preciosas, porque queremos adornar a alma e justificar a travessia do início ao fim.