BR-116: Duplicação e mortes sem fim

Sérgio Corrêa, jornalista e radialista.

As obras de duplicação da BR-116, que passa por Guaíba, Barra do Ribeiro, Tapes, Mariana Pimentel, Sentinela do Sul, Arambaré, Camaquã, Cristal, São Lourenço do Sul, Turuçu e Pelotas, começaram em julho de 2012.

Em julho de 2026, a duplicação da BR-116 completará 14 anos, tendo passado por 4 presidentes da república: Dilma Rousseff (PT), Michel Temer (MDB), Jair Bolsonaro (PL) e Lula (PT). Nenhum deles – seja de esquerda, direita ou de centro – concluiu a duplicação da BR-116 entre Porto Alegre e Pelotas, que já na primeira semana de 2026 registrou um acidente que causou 11 mortes.

As colisões frontais sempre foram a grande preocupação na via e elas acontecem exatamente pela falta de duplicação. Em 2016, o Detran apontou a BR-116 como a mais violenta do estado, principalmente no trecho sul, por onde passaram mais de 2,5 milhões de veículos e onde os acidentes somaram metade das mortes registradas naquele ano, quando 38 pessoas perderam a vida e 300 ficaram feridas.

Pesquisamos, mas não encontramos um número exato de quantas pessoas perderam a vida no trecho da BR-116 entre Porto Alegre e Pelotas a partir de 2012 – data do início das obras de duplicação até o momento. Contudo, foi possível encontrar alguns registros que traremos aqui.

Uma matéria do G1-RS registrou que no ano de 2016 na BR-116, entre Eldorado do Sul e Guaíba, os acidentes caíram 30% depois das obras de duplicação, enquanto o número de mortes caiu 70%. Já no trecho de pista simples entre Guaíba e Pelotas, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) fez um estudo mostrando que os gastos com acidentes ficam em torno de 50 milhões de reais por ano – valores que consideram perdas materiais, custos hospitalares e prejuízos para a rodovia.

Outra matéria do G1-RS, de 11 de fevereiro de 2017, trazia o seguinte título e subtítulo:

“Acidente com sete veículos mata cinco pessoas na BR-116
Acidente neste sábado (11) envolveu caminhões e um automóvel na BR-116
Uma das vítimas é um bebê de 9 meses, diz Polícia Rodoviária Federal (PRF)”

Mais uma matéria do G1-RS, de 21 de março de 2017, trazia o seguinte conteúdo:
“Atraso na duplicação da BR-116 gera prejuízo de R$ 1 milhão por dia no RS
Valor é referente a gastos com logística, segundo sindicato de empreiteiras.
De acordo com a entidade, cerca de 60% da obra está concluída.”

As perdas acumuladas desde 2014, quando a obra deveria ter sido concluída, seriam suficientes para duplicar duas rodovias, como mostra a reportagem da série “BR-116: Duplicação Urgente” do grupo RBS.

O orçamento inicial da obra era de R$ 800 milhões. Até 2017, foram aplicados R$ 400 milhões, mas, devido ao atraso, seriam necessários outros R$ 800 milhões para a obra ficar pronta, pois, de acordo com o Sindicato da Indústria da Construção de Estradas, Pavimentação e Obras de Terraplanagem (Sicepot), ainda faltava concluir cerca de 40% da duplicação.

Chegamos a 2026 e no segundo dia do ano a Zona Sul está mais uma vez de luto: um acidente entre um ônibus e um caminhão deixou 11 mortos. Tudo por conta de uma obra que não tem fim e segue causando acidentes e mortes devido a colisões frontais que comprovadamente não aconteceriam caso a rodovia estivesse duplicada.

Quando se fala em duplicação da BR-116, deve-se ter a responsabilidade de ressaltar o trabalho do jornalista Clayton Rocha, idealizador e coordenador do Programa Pelotas 13 Horas, veiculado há 47 anos pela Rádio Universidade Católica de Pelotas, que, ao usar o rádio AM como instrumento de mobilização política, obteve bons resultados na busca por recursos para as obras da 116. Contudo, convenhamos que manter uma mobilização por 14 anos é uma missão praticamente impossível.

Opinião deste colunista: a duplicação da BR-116 é, sem sombra de dúvidas, a soma de tudo que há de negativo na gestão pública, do presidencialismo de coalizão, das emendas parlamentares, seja da esquerda, centro ou direita, do Executivo, dos representantes gaúchos na Câmara, no Senado e do Governo do Estado. Todos fizeram pouco. São 14 anos, 4 presidentes e 3 governadores, Tarso Genro (PT), José Ivo Sartori (MDB) e Eduardo Leite (PSDB/PSD), que ora adentra seu 8º ano de mandato.

A BR-116 tem o pedágio mais caro, a duplicação mais demorada, e o número de mortes mais alto. Até quando?