Alegria como remédio para quem busca a cura

As servidoras Carina Soares Noda e Andreia Valente Heidrich são, respectivamente, as doutoras Natureba e Sara Cura. (Foto: Luciara Schneid/JTR)

A alegria é oferecida em doses homeopáticas a pacientes que se encontram em recuperação em alas e enfermarias dos hospitais da cidade. Os doutores, especialistas em Besteirologia, pertencem ao Esquadrão da Alegria, que chegou em Pelotas em 2024, mas já são conhecidos nacionalmente. De dois em dois, realizam suas rondas pelas alas, corredores e enfermarias das instituições de saúde. No Hospital Universitário São Francisco de Paula (HUSFP), onde tudo começou, em Pelotas, a reportagem acompanhou as doutoras Natureba e Sara Cura em suas visitas, quarto por quarto, a fim de levar uma dose de alegria a quem está em tratamento de saúde. Ao todo, são 24 Doutores Palhaços que se dividem nas visitas semanais.

A gerente de Hotelaria e Infraestrutura e coordenadora da Comissão de Humanização do HUSFP, Alessandra Pinto Peters, explica que a algum tempo o hospital realiza ações que visam o acolhimento, entretenimento, a fim de criar um ambiente mais de cura do que de doença dentro da instituição. Segundo ela, o hospital já vinha trabalhando com outros grupos como o Samba e Sorriso, formado exclusivamente para fazer estas ações com visitas semanais e o Pata Amiga, que leva os pets para visitar as crianças da Pediatria.

Em 2024, o Esquadrão da Alegria procurou a administração do hospital com o intuito de também fazer estas ações. “Nós recebemos eles com muita alegria e vêm fazendo um trabalho espetacular”, ressalta. São três a quatro visitas semanais, trazendo o sorriso para os pacientes e também aos acompanhantes, que sentem muito o peso de estar ali diariamente dentro do hospital.

“É só benefícios, uma forma de humanizar o ambiente hospitalar, pois não é um ambiente fácil, as pessoas têm muitas dúvidas, incertezas sobre quando e como vão sair”, diz. Estas ações visam trazer alegria e o sentimento de cura, o sorriso, para que consigam levar estes dias que são importantes no processo de cura dos pacientes com mais leveza. “E eles estão fazendo isso de forma magistral”, finaliza.

As visitas podem durar de uma a duas horas, dependendo do tamanho da ala visitada e o número de quartos. Os Doutores Palhaços chegam de mansinho e batem na porta para determinar se o paciente aceita e tem condições de recebê-las. Quebrado o gelo, tudo vira uma brincadeira na forma de conversa entre médico e paciente, com troca de impressões sobre doenças imaginárias e medicamentos fictícios indicados para a cura. Também procuram conquistar a simpatia e arrancar um sorriso do paciente, que tem uma expressão quando chegam e outra completamente diferente quando vão embora. Definitivamente, a alegria, se não cura, traz um alento a quem está sofrendo.

Apesar da proposta de ser tudo uma grande palhaçada, a personagem é levada a sério e não podem abandoná-la enquanto estiverem usando o nariz de palhaço. Não tente fazê-los sair da personagem, isso não vai acontecer, a menos que tirem o nariz. Fundado em Santa Maria, há 17 anos, o Esquadrão da Alegria é uma Organização Não Governamental (ONG) que começou a atuar em Pelotas, em 2024, com 24 voluntários. No total, são 120 voluntários no Estado.

“Nesse número contam outros voluntários que não são Doutor Palhaço, e inclui psicólogos, profissionais de TI [Tecnologia da Informação], jurídico, etc. auxiliam no trabalho da ONG, mas não atuam como palhaço”, explica a servidora pública Carina Soares Noda, a doutora Natureba. A servidora do INSS e assistente social Andreia Valente Heidrich é a doutora Sara Cura.

As ações da ONG são todas ligadas à saúde e podem incluir também atividades externas para campanhas dos hospitais. Entre as ações que participaram recentemente, ela cita o Caps na Rua, doação de sangue e inauguração da Cuidativa da Universidade Federal de Pelotas (UFPel). “Como somos uma ONG, nossos recursos vêm todos de doações e também da inscrição em projetos, como do Sicredi, que hoje é um dos patrocinadores através do Fundo Social”, explica. Segundo Andreia, se a empresa solicitar uma interação em uma Sipat, por exemplo, o grupo vai porque é ligado à saúde.

Entre os 24 voluntários, existem profissionais de diversas áreas, como servidor público, estudantes, assistente social, psicólogas, policial, aposentados, etc., que atuam como Palhaços em seu tempo livre. As idades variam entre 21 e 65 anos. “O perfil certo é ter amor para doar”, ressalta. O mais importante é a pessoa se sentir bem para fazer o trabalho e poder doar o seu tempo, que é uma das coisas mais preciosas que se tem, e amor para compartilhar com o próximo.

Andreia afirma que existe uma formação para ser palhaço: antes é preciso passar por uma seleção para, posteriormente, estar apto a fazer as visitas. “Nós temos uma organização, um cronograma, feito a partir dos horários que o hospital disponibiliza e a gente vai se adequando conforme a nossa disponibilidade profissional, tempo livre, de lazer, que é o horário usado para fazer as visitas”, conta.

As visitas são feitas normalmente em duplas, mas podem ocorrer em trio ou em grupo – neste caso é uma visita de corredor, sem entrar nos quartos. “No caso de estreia em um hospital novo, juntamos um grupo grande e fazemos um tour pelo hospital inteiro, mas pelos corredores, para o pessoal ir nos conhecendo, principalmente nos postos de enfermagem, que nos informam quais quartos podem ser visitados”, explica a voluntária.

Por segurança do paciente e dos próprios palhaços, eles não entram em áreas de isolamento, a não ser que o paciente peça e precise. “Este trabalho muda a energia do quarto, impacta as pessoas, pois ninguém espera ver um palhaço no hospital. Então, no improviso, com esforço, se tenta mudar o ambiente”, garante. Tudo é feito com a permissão do paciente, com objetivo de transmitir boa energia para os acamados e acompanhantes.

Todos são considerados pacientes, inclusive os colaboradores do hospital, desde a entrada na portaria. “Todos que a gente cruzar já vai entrando na brincadeira, alguns vão topar outros nem tanto, mas tá tudo certo. Se a pessoa diz não, a gente também impactou ela, porque o direito de dizer não é muito importante dentro do hospital. A gente está respeitando e a gente entende que este respeito também traz um impacto positivo”, ressaltam. “A nossa intenção é sempre mudar a energia, tirar a tensão do hospital e levar uma leveza em forma de amor. O amor não precisa ser o riso, ele é uma presença”, diz Carina.

O Esquadrão da Alegria começou seu trabalho, a pouco mais de um ano, no HUSFP e, depois, expandiu para o Hospital Escola – Universidade Federal de Pelotas, Hospital Espírita e Santa Casa. A ideia é futuramente atender os demais hospitais e a Unidade de Pronto Atendimento (UPA), o que demanda voluntários, que precisam antes passar por processo seletivo e formação. São pelo menos duas visitas semanais no HUSFP e uma vez por semana nos demais hospitais. “É uma palhaçada séria e isso tem muito a ver com o compromisso do voluntariado, que é de coração, sem qualquer ganho financeiro, se faz por amor”, finaliza. Para conhecer um pouco mais sobre o trabalho da ONG basta acessar @ongesquadraodaalegria no Instagram.