
Quando Antônio Joaquim Dias — importante diretor do Correio Mercantil — fundou, com seus companheiros, a nossa Biblioteca Pública Pelotense, naquele 14 de novembro de 1875, sua filha Antonieta era uma jovem e aplicada estudante, muito amiga dos livros.
Naqueles dias, Pelotas, de fato, era um local diferenciado: num país que parecia não fazer questão de que mulheres estudassem mais do que “prendas domésticas”, havia cerca de 700 meninas-moças estudando em escolas e cursos particulares na cidade.
Quatro anos depois da fundação da nossa Biblioteca, em 1879, surgiu uma aguardada novidade: a Lei da Reforma do Ensino — Lei Leôncio de Carvalho — que trazia uma possibilidade inédita: as mulheres, desde que realizassem os exames vestibulares de praxe, estavam autorizadas a estudar Medicina no Brasil.
Naquele tempo, havia apenas duas faculdades que formavam médicos no país: a do Rio de Janeiro e a de Salvador, na Bahia.
Entusiasmado, Antônio Joaquim Dias começou a se articular para enviar sua menina, Antonieta César Dias, para a capital do Império, a fim de cursar a faculdade carioca.
Quem também se entusiasmou com a novidade foi o forte charqueador Francisco Lobato Lopes, que estimulou sua filha, Rita Lobato Velho Lopes, a estudar na mesma faculdade.
Naquela época, as duas moças eram alunas do qualificadíssimo Colégio São Francisco, escola de elite dirigida pelos grandes mestres Carlos Laquintinie e Benjamim Amarante.
Antonieta nascera em Pelotas. Rita, por obra do destino, nascera prematuramente em Rio Grande. Seus pais haviam tomado um barco que transitava na hidrovia do Canal São Gonçalo, e a menina veio ao mundo antes do previsto. Em seguida, embarcou com os pais em viagem de retorno para Santa Isabel, desembarcando no porto de lá. No atual distrito de Arroio Grande, viveu até os cinco anos, mudando-se depois para Pelotas, já que o pai, pelotense, tinha uma movimentada charqueada e queria que os filhos estudassem — aliás, eram 14.
Antonieta e Rita eram inteligentes, liam muito, falavam francês — eram realmente talentosas. Rita, a menina de Santa Isabel, era três anos mais velha que Antonieta.
Joaquim Dias era poderoso e ficou bastante contrariado com aquela disputa, que não desejava. Não fez segredo disso, e Lobato Lopes, que era prudente e tinha recursos, matriculou sua filha num curso preparatório em Porto Alegre, e a mesma saiu de cena por um tempo.
Chegou o ano de 1884 e, depois dos exames no Rio de Janeiro, as duas gurias foram aprovadas: Rita Lobato, aos 18 anos, e Antonieta Dias, aos 15. Ambas voltaram a ser colegas, na mesma turma, na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro.
O pai de Rita, o charqueador Lobato, também conseguiu matricular um dos filhos na importante Faculdade de Farmácia, que funcionava no mesmo local.
Eis que houve uma grande confusão acadêmica na faculdade, com brigas exacerbadas entre professores e alunos. O Sr. Lobato esperou os exames de fim de ano e tratou de transferir a filha e o filho para Salvador, já que o rapaz havia sido jurado e ele não se importava se o diploma fosse expedido na Bahia — queria apenas que estudassem e se formassem. Disso é que não abria mão.
Rita chegou a Salvador sem conhecer ninguém. Era a primeira e única mulher, até então, estudante de Medicina na história da faculdade. Apresentou um ano de estudos bem aplicados no Rio de Janeiro e voltou a estudar com afinco, não desperdiçando férias nem intervalos acadêmicos. Fez provas, passou com altas notas e concluiu seu curso em inacreditáveis quatro anos, recebendo, em 10 de dezembro de 1887, o título de primeira médica formada no Brasil, a primeira diplomada por uma faculdade no Império.
Antonieta Dias, que permaneceu no Rio — onde o curso não permitia conclusão antes de seis anos —, formou-se em 10 de dezembro de 1889, sendo a primeira médica brasileira a receber o diploma na vigência da República, proclamada lá mesmo no mês anterior, novembro. Ambas retornaram ao Rio Grande do Sul.
Antonieta, ao se formar, recebeu incontáveis homenagens em Pelotas, iniciando com um portentoso banquete no restaurante do Hotel Aliança. Foi a primeira médica a clinicar na Santa Casa.
Rita foi para Jaguarão, casou-se lá em 1889. Depois mudou-se com o marido para Rio Pardo, onde clinicou bastante. Mais uma vez pioneira, em 1934 filiou-se ao Partido Libertador, concorreu e elegeu-se vereadora naquela cidade.
Duas talentosas e estudiosas mulheres gaúchas, do Sul do Estado.
Pioneiras nas Américas, nossas primeiras médicas diplomadas.
No dia em que nossa Biblioteca Pública completa 150 anos, presto minha homenagem especial à primeira mulher a dirigir nossa biblioteca, a presidente Lisarb Crespo da Costa, cuja filha Caroline, assim como a do primeiro presidente, também é reconhecida como uma excelente profissional médica.



