
A trajetória do pelotense Julio Cesar Gaúcho, de 35 anos, é ligada à superação e começou nas ruas do bairro Balsa, na zona sul da cidade, culminando recentemente com um cinturão de campeão nos Estados Unidos. O lutador nocauteou o, até então, melhor ranqueado da região de New England no segundo round e conquistou o título do evento de maior tradição e longevidade do nordeste americano.
Tudo começou quando um menino inquieto, com pouco mais de 10 anos de idade, desafiava os mais velhos do bairro para lutar. “Eu perdia, obviamente, mas alguns eram mais legais e me deixavam ganhar”, relembra Gaúcho, que desde pequeno demonstrava atração pelas artes marciais. Foi nessa época que conheceu Diom Machado, um lutador habilidoso da Balsa e que mudou a sua vida.
Machado abriu um espaço de treinos no bairro, que na época encarava desafios devido à simplicidade do lugar – tão rústico que os alunos escorregavam no barro e caíam nas pedras. Mas ali havia algo muito mais valioso que estrutura: a verdadeira essência da luta. “Ele tinha a magia da arte marcial, sabia se defender, atacar, conhecia quase todos os movimentos da capoeira. Era ali que eu queria estar, com os mais fortes e resistentes”, conta o lutador.
O mestre, que acompanha a trajetória até hoje, se diz extremamente orgulhoso. “Ele era um moleque como tantos outros que enxergamos. Aos poucos, foi se moldando e se tornou um grande homem, com caráter, responsabilidade e espírito de vencedor, um exemplo para nossa equipe e para a nova geração”, relata.
De menino prodígio à atleta profissional
Aos 14 anos, Gaúcho deixou de ser apenas aluno e tornou-se parceiro de treino do próprio mestre, que o apresentou para outros lutadores. Diferente de muitos atletas que vêm de uma modalidade específica, a dupla sempre treinou artes mistas completas. “O importante era atacar para ganhar e saber se defender para não se assustar nas turbulências da luta”, explica.
Com apenas 16 anos, se profissionalizou. Seu primeiro adversário tinha 21 anos e somava mais lutas profissionais do que ele imaginava. Gaúcho conta que, no momento do embate, ainda eram permitidos golpes perigosos, como pisadas fortes na cabeça. “Não teve plano piloto de luta amadora, ele me preparou para me apresentar em qualquer coliseu de homem para homem”, relembra o atleta, que venceu todas as lutas sob comando de seu mestre.
A busca por maiores desafios levou o pelotense à Chute Boxe Matriz, em Curitiba, onde permaneceu por oito anos e tornou-se líder do grupo. Lá, enfrentou atletas que anos depois se tornariam campeões mundiais. “Curitiba tem o mesmo nível do UFC. Os matchmakers (pessoas que organizam lutas) sempre dizem isso e eu concordo”, afirma.
Além das fronteiras
Após a estadia no Paraná, Gaúcho alçou voos mais altos. Sua jornada internacional incluiu passagens pela Alemanha para aperfeiçoar a luta agarrada, Tailândia para treinar Muay Thai tradicional, e Estados Unidos, onde aprendeu sobre nutrição, Wrestling (luta do tipo corpo a corpo) e condicionamento físico, além de iniciar o processo de imigração legal.
A única derrota na carreira trouxe uma lição amarga sobre os bastidores do esporte. Vinte minutos antes da luta, os organizadores proibiram o uso de cotovelos – justamente o ponto forte de Gaúcho – alegando falta de médicos. “Na verdade, acho que foi estratégia para meu oponente ter mais chances. O dono do evento era empresário dele”, revela.
Estabelecido na região de New England, ao lado do veterano do UFC Gabriel Gonzaga, o “Napão”, o pelotense conquistou seu primeiro cinturão americano de forma categórica. Em uma luta de cinco rounds de cinco minutos, nocauteou o campeão local com um cotovelo no primeiro minuto do segundo round. Feliz, Gaúcho conta que Gonzaga venceu o campeonato no mesmo dia que ele, porém, há 14 anos. “Ele é um dos maiores peso pesados da categoria que o Brasil já teve dentro do UFC”, comenta.
Agora, o objetivo é claro: lutar no maior número de eventos possíveis para chamar atenção das grandes organizações e, em breve, participar de um torneio dos melhores ranqueados.




