Remando para o futuro sem abandonar o passado

Projeto é interinstitucional, com participação da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Prefeitura de Pelotas e Centro Português. (Foto: Lylian Santos/JTR)

O Remar Para o Futuro, projeto em parceria com a Universidade Federal de Pelotas (UFPel), a Prefeitura de Pelotas e o Centro Português 1º de Dezembro, completou dez anos no início de outubro e luta para a reconstrução e resistência da iniciativa de referência nacional. O processo não está sendo fácil por conta de dificuldades financeiras e estruturais. Em 2025, Fabrício Boscolo, que antes trabalhava nos bastidores na área de treinamento desportivo e desempenho físico, precisou tomar a frente do projeto como coordenador-geral.

Isso se deu porque, em outubro do ano passado, o Remar foi atingido por uma tragédia que tirou a vida de sete jovens atletas do time de remo, além do então treinador da equipe, Oguener Tissot, e o motorista da van, Ricardo Leal da Cunha, que os transportava de São Paulo – onde participaram do Campeonato Brasileiro de Remo – para Pelotas. O acidente deixou a cidade de luto, comovendo famílias, entidades e imprensa de todo o estado no dia 20 de outubro de 2024. O projeto, que estava no auge de medalhas e competições, parou por completo até a retomada no início do ano.

“Além da dor, enfrentamos problemas administrativos, burocráticos, pedagógicos, psicológicos, sociais e, é claro, financeiros. O Oguener batalhava muito sozinho, ele carregava o mundo. Como muitas coisas estavam no nome dele, foi bem difícil essa retomada”, explicou.

O projeto carece de verbas para reforma de equipamentos, estrutura e auxilio dos atletas para deslocamento para as competições. (Foto: Lylian Santos/JTR)

O Remar recebia recursos da Prefeitura de cerca de R$ 10 mil, mas após o acidente, o repasse foi encerrado. Em nota, o Executivo Municipal se manifestou com disposição para aprofundar o diálogo e reaver a despesa, contudo, seriam necessários ajustes. Atualmente, o município disponibiliza duas passagens para o deslocamento dos atletas até o Centro de Treinamento. O programa também recebeu R$ 754 mil de verba do Ministério dos Esportes em maio, além da ajuda do Pró-esporte do Estado com um aporte de R$ 250 mil neste ano.

O coordenador afirma que, apesar da repercussão, poucas entidades ofereceram ajuda direta depois do acidente. Uma delas foi a Unimed, que financiou a construção de uma nova rampa de acesso ao arroio Pelotas no valor de R$ 50 mil.

A maioria das equipes treinam de segunda-feira a sábado, no turno da tarde, no Centro Português 1º de Dezembro. (Foto: Lylian Santos/JTR)

Remar para o futuro continua
O projeto conta com 40 jovens de 12 aos 18 anos divididos em Aspirantes (iniciantes), Pré-
equipe (em desenvolvimento) e Equipe Principal (avançados). Após a idade máxima, os jovens são direcionados a clubes adultos, onde podem continuar a progredir. Depois de meses do acidente, Boscolo optou, em decisão conjunta, por continuar propiciando o serviço social que o Remar carrega.

Equipe e egressos conquistaram 16 medalhas no Campeonato Brasileiro de Barcos Longos de Remo, no Rio de Janeiro. (Foto: divulgação)

“O projeto transforma vidas, qualquer um aqui é prova disso. Desenvolvemos não somente a parte física, mas o desenvolvimento pleno deles com suas particularidades. Há exemplos de alunos com Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e Transtorno do Espectro Autista (TEA). […] Podíamos chorar e fechar [o projeto] ou chorar e continuar. Estamos fazendo isso por eles, voltamos mais fortes em 4 de janeiro para honrar o legado dos que se foram”, contou o coordenador.

Para Boscolo, 2025 está sendo um ano de redirecionamento e que demonstrou o poder do trabalho coletivo. “Não tínhamos nenhuma ideia de competir esse ano, fomos destruídos, é um ano delicado. Mas os nossos atletas foram surpreendentes, tiveram muita garra e conseguimos levar as equipes para campeonato de remo indoor, realizado em Porto Alegre, em julho. O que era para ser algo simbólico, nos rendeu medalha de Prata. Eu fico muito orgulhoso pela determinação deles”, explicou.

2026 será o ano do direcionamento. (Foto: Lylian Santos/JTR)

Continue a remar
O Remar não se mantém estagnado em nenhuma frente, e 2026 será o ano de realinhar os barcos. A equipe técnica é composta por treinadores de remo, natação, pilates, preparadores físicos, direção e estagiários, além dos auxílios psicológicos e terapeutas. “O esporte é o meio, não o fim. Acredito que com a união conseguiremos seguir ainda mais fortes. Queremos e precisamos comprar mais equipamentos, pretendemos voltar as escolas para seleções, além de projetos como o remo para a terceira idade e para mulher com câncer de mama”, concluiu.

Entre os rostos mais experientes está Evelen Cardoso, que faz parte do Remar desde 2015. Aos 23 anos, ela iniciou no projeto aos 13 e hoje integra a equipe do Grêmio Náutico União, mantendo um vínculo à distância enquanto ajuda na retomada do projeto em Pelotas. “Eu voltei para cá para poder ajudar. Foram dez anos de muitas conquistas, e o remo se tornou parte da minha vida”, disse. Evelen já representou o Brasil em competições internacionais, como o Mundial de 2021, na República Tcheca, onde ficou em oitavo lugar. Para ela, o esporte foi transformador: “Eu era uma criança sedentária, passava o dia no telefone. O remo mudou minha vida, me trouxe saúde, disciplina e propósito”, explicou.

A atleta também carrega a dor de ter perdido companheiros e amigos na tragédia que marcou o projeto. “Eu estava em São Paulo com eles e voltei um dia antes do acidente. Foi muito difícil acreditar no que tinha acontecido”, relembrou emocionada. Mesmo com o peso da saudade, a jovem segue firme na missão de manter vivo o legado de Oguener e dos ex-colegas. “A gente tenta ressignificar tudo isso, seguir por eles. Cada remada é por quem ficou na nossa história”, completou.

Entre os novos integrantes, Pedro Larosa, de apenas 13 anos, representa o início de uma nova geração no Remar Para o Futuro. Há dez meses no projeto, ele já soma conquistas, como o primeiro lugar na categoria Sub-13 em Porto Alegre. “Eu nunca tinha participado do esporte, foi a primeira vez, e fiquei muito feliz quando ganhei. Peguei a medalha e fui comemorar com meus amigos”, contou o adolescente, que divide a rotina entre os treinos e a escola. Ele conta que sua mãe sempre o incentivou a praticar esportes. O jovem vê no remo a oportunidade de aprendizado e superação. Admirador do atleta Piedro Tuchtenhagen, ex-integrante do projeto, ele diz se inspirar em quem trilhou o mesmo caminho. “Ele me incentiva bastante a continuar, ainda mais porque começou aqui. Quem sabe eu também siga o mesmo caminho”, disse.

Já Hendrick Silveira, de 15 anos, conheceu o projeto de forma inesperada. “Foi uma amiga da minha mãe que me chamou para ver o projeto. Entrei primeiro só para conhecer, e acabei ficando”, relembrou. Mesmo com a rotina puxada, o jovem conta que a modalidade trouxe disciplina e um novo ritmo para sua vida. “A rotina é cansativa, mas te ocupa bastante, é bom. Quando chego triste, sempre tem alguém brincando, o clima é leve”, relatou. Diagnosticado com asma, Silveira explica que o início foi desafiador, porém com o tempo ganhou resistência e gosto pelo esporte. “Foi bem difícil porque exige muito do físico. Mas agora já me acostumei, a sensação de embarcar é muito boa”, afirmou o atleta, que também valoriza o espírito de equipe e a convivência entre os mais experientes.

Ambos estão em intensa preparação, pois a próxima competição da equipe será no Campeonato Brasileiro de Jovens Talentos, realizada em novembro, em Porto Alegre. O projeto também compartilha suas vivencias pelo perfil no Instagram @remarparaofuturo.

Nove vidas perdidas

A equipe voltava do Campeonato Brasileiro de Remo, onde havia conquistado sete medalhas. (Foto: reprodução)

A tragédia ocorreu na BR-376, em Guaratuba, no Paraná. A equipe voltava do Campeonato Brasileiro de Remo, onde havia conquistado sete medalhas. Nove pessoas morreram após um caminhão colidir com a van de turismo. O acidente vitimou os atletas Angel Souto Vidal, de 16 anos; Helen Belony, de 20; Henri Fontoura Guimarães, de 17; João Pedro Kerchiner da Silva, de 17; Nicole da Cruz, de 15; Samuel Benites Lopes, de 15; Vitor Fernandes Camargo, de 17. O treinador Oguener Tissot, de 43, e o motorista Ricardo Leal da Cunha, de 52, também morreram.

O treinador da equipe, Oguener Tissot (E), e o motorista da van, Ricardo Leal da Cunha (D), também estavam na van. (Foto: reprodução)

O motorista do caminhão que causou a colisão foi indiciado por homicídio culposo na direção de veículo. O proprietário da carreta também foi indiciado por homicídio culposo.