El Greco

José Henrique Pires licenciado em Estudos Sociais pelo ICH-UFPel, especialista em Políticas Públicas pela Universidade de Salamanca, Espanha, jornalista e radialista. (Foto: Divulgação)

Encontrei ele perto do Chafariz, tristonho, sentado em um banco com assento de madeira. Tinha seus 93 anos. Morava em Pelotas fazia mais de quinze. Na cidade para a qual chegou somente a passeio, arrumou namorada, casou e já tinha uma filha grande. Cultíssimo, dominava idiomas, conhecia o mundo todo e tinha sempre uma história antiga – das boas – desde o tempo em que era jovem na Grécia. Recém-formado em economia, empregou-se em um banco comercial grego às vésperas de eclodir a Segunda Guerra. Foi convocado, recebeu divisas de capitão e foi pra luta. Acabou preso pelo exército alemão. Conseguiu fugir com outros colegas de farda e imediatamente todos foram agregados ao Exército Britânico e enviados para uma tropa internacional que lutava na África. Eu sabia da veracidade dessa história e de outras tantas, como a da existência da primeira esposa que morava em Nova York e dos vários filhos que tinha espalhados pelo mundo, todos adultos e próximos dos 70 anos de idade.

Ele havia se aposentado bastante bem. Mas, naqueles dias, havia uma enorme confusão nos bancos gregos e ele, com mais de 90 anos, me contou que estavam fazendo prova de vida com os idosos (primeira vez que ouvi falar nisso). Estava triste, porque seus vencimentos estavam bloqueados e ele teria que ir a Atenas para provar que ainda vivia, para acessar sua conta naquele mesmo banco onde foi tesoureiro, lá pelos anos 1940.

Antes que eu pudesse perguntar como poderia fazer para ajudá-lo, ele me disse: “Eles acham que estou morto. Que tem alguém se passando por mim e pegando o meu salário todo o mês. Isso é humilhante! Só não estou enfrentando grandes necessidades graças aquela medalha que recebi em Londres”. Ele me contou que aquela alta condecoração recebida por ter salvado as vidas de um soldado escocês e de outro londrino, dava a ele – já há alguns anos – uma pensão vitalícia paga em libras, que estava usando para fazer frente às despesas e juntar uma pequena poupança, suficiente para pegar um avião e descer em Atenas para provar que ainda existia e que ainda respirava, aquele herói de guerra tantas vezes homenageado na Grécia. Por ter escolhido o Brasil para viver, precisava voltar até a terra natal para provar que podia ser mesmo uma velha lenda, mas que ainda era uma de carne e osso, com boletos pra pagar.

Ele viajou, comprovou que estava vivo e lúcido, como ele mesmo me narrou meses depois.

A última vez que falei com ele, estava escrevendo um livro de memórias que não sei se chegou a publicar. Aqueles dois soldados que salvou, me contou, foram feridos em uma explosão de uma granada. Ele não foi atingido, estava perto e conseguiu carregar um e depois outro, no colo, até uma maca, saindo ambos – o escocês e o londrino – na ambulância. Ele nem pensou que aquele ato de solidariedade rendesse medalha.  “Eram dois caras jovens como eu, que não tiveram tempo de se abrigar atrás de uma parede como eu consegui. Não pensei em medalha, sabia que eles fariam por mim exatamente a mesma coisa. E veja só, meu amigo, hoje os dois são os responsáveis por colocar comida na minha mesa”, contou ele, naquela tarde em que o encontrei reflexivo, perto de uma animada loja de discos no calçadão de Pelotas, onde juntava gente para ver o bailado de um outro guerreiro que dançava com uma boneca de pano para tentar levar algum dinheiro para casa.