A lança que terminou a guerra

José Henrique Pires licenciado em Estudos Sociais pelo ICH-UFPel, especialista em Políticas Públicas pela Universidade de Salamanca, Espanha, jornalista e radialista. (Foto: Divulgação)

Francisco Lacerda nasceu em Camaquã. Gurizote, arrumou serviço em São Lourenço do Sul, onde um pioneiro imigrante italiano abriu uma fabriqueta de salames e linguiças. Um dia, o gringo se enfureceu, ao recolher uma carne picada. Teria se cortado com uma faquinha que não havia sido recolhida pelos guris que trabalhavam no guisado. Sangrando na mão, de rebenque em riste, começou a chicotear quem estava perto. Sobrou para o jovem Lacerda que, acuado – não teve dú­vida -, pegou a faca que estava mais perto e matou o furioso produtor de linguiças. Pelo meio dos matos foi em casa, conversou com os pais e eles o despacharam para perto de Bagé, onde vivia um irmão do seu pai. Lá se escondeu e lá se aquerenciou.

De Francisco, saiu o apelido Chico. A alcunha de diabo, não se sabe ao certo. Mas virou Chico Diabo, entre a gauchada que campereava naquelas coxilhas.

Quando foi guerrear contra o Paraguai, Chico passou a integrar as tropas de voluntários que saíram do Rio Grande do Sul. Para aquelas frentes de batalha, segundo dados oficiais, foi um contingente total de 33.803 gaúchos.

O segundo Estado que mais gente mandou para o conflito foi a Bahia, exatos 15.100 homens.

A Guerra da Tríplice Aliança poderia ter acabado em janeiro de 1869, quando Caxias, no comando das tropas, ocupa Assunção, no Paraguai. Mas a guerra tristemente se estende até o dia 1° de março de 1870, quando o marechal paraguaio Solano Lopes é finalmente eliminado em batalha, vitimado pela lança certeira do rapaz de Camaquã, que fugiu de São Lourenço do Sul para Bagé. A lança de Francisco Lacerda, o Chico Diabo.

Os comandantes receberam títulos de nobreza. Chico recebeu a recompensa por ter liquidado Solano Lopes: 100 novilhas, que soltou nos potreiros do campo do seu tio, naquela altura seu sogro, pois lá mesmo casou-se com sua prima e seguiu a vida.

Essa narrativa é apenas um extrato de uma história já muito estu­dada, mas pouco lembrada. Só de Pelotas foram para o conflito mais da metade do contingente militar enviado pelo Uruguai. Do Rio Grande do Sul, muito mais gente do que da Argentina e do Uruguai somados.

Chico Diabo morreu em 1893. Passou mal e faleceu quando cam­pereava em terras castelhanas. Dizem que estava em missão secreta. Afinal, aquele foi o ano em que, do outro lado da fronteira, adentrou ao Estado a gauchada que iniciou a Revolução de 1893.

*José Henrique Medeiros Pires é Licenciado em Estudos Sociais pelo ICH UFPel, Especialista em Políticas Públicas pela Universidade de Salamanca, Espanha e jornalista e radialista