Rompimento de relações

José Henrique Pires licenciado em Estudos Sociais pelo ICH-UFPel, especialista em Políticas Públicas pela Universidade de Salamanca, Espanha, jornalista e radialista. (Foto: Divulgação)

A sequência de episódios inacreditáveis que surgiram após aquele naufrágio no Albardão – onde atualmente existe um belo farol -, em junho de 1861, só terminou em setembro 1865. Incrivelmente, no Rio Grande do Sul.

Quatro anos antes disso, em setembro, havia um só preso, “o desafortunado índio Mariano Pinto (…) – um dos menos culpáveis, porque não ocultou o que roubou e de imediato se entregou ao inspetor”. Os outros? Não havia mais ninguém para culpar. Estavam longe, no Uruguai. De roupas novas, bons chapéus, boas pistolas, botas flamantes, pilchas quentes com lãs da Escócia.

Teve de tudo nesse meio tempo, até uma inacreditável ida do Consul Inglês – que morava em Rio Grande – para uma espécie de audiência de conciliação com o governador, em Porto Alegre. A bordo da tal fragata, ele foi pela Lagoa dos Patos até a capital da Província. Foi conciliar com papéis e os 51 canhões Armstrong. As caldeiras ferviam.

Na Assembleia Estadual, na Câmara dos Deputados, no Senado, esse assunto pontificou. O Duque de Caxias, atual primeiro-ministro do Império, ex-governador do Rio Grande Sul, que saiu do Estado diretamente para o Senado, caiu do cargo em meio à crise. Voltou para o Senado.

E como sempre pode piorar, a população que já estava farta dos britânicos (incrivelmente, também por conta das leis que restringiram a escravatura, feitas pelos ingleses e por brasileiros, como a Eusébio de Queiroz, resolveu achar que as coisas estavam indo longe demais. Mal sabiam eles!

Eis que, no Rio de Janeiro, saindo da Tijuca em direção ao centro, um reverendo, capelão de um navio, e tripulantes de um outro barco britânico, completamente embriagados, compraram briga com uns guardas brasileiros e levaram uma grande sova. Foram presos. Ninguém entendia o idioma deles. Buscaram um tradutor que morava nas cercanias. Falava português e sueco. Não adiantou nada. Aí a coisa explodiu. A frota inglesa que andava perto, bloqueou o porto do Rio, sequestrou vários navios e exigiu indenização em dinheiro. O Brasil rompeu relações diplomáticas com a Inglaterra (por dois anos).

A crise internacional, como era comum na época, foi parar nas mãos de um árbitro – mediador. O escolhido foi o Rei Leopoldo, da Bélgica. Dom Pedro ficou desesperançado. O árbitro era tio da rainha da Inglaterra.

No fim, as relações entre Brasil e Inglaterra, rompidas em 25 de maio de 1863, só foram reatadas em 23 de setembro de 1865. O Embaixador Britânico Edward Thornton levou os papéis até a barraca onde Dom Pedro II estava acampado, em Uruguaiana, naquele começo de guerra do Paraguai.

O dinheiro que Dom Pedro pagou do bolso dele, sem esperar o arbitramento, ficou nas mãos de uns vigaristas em Londres. O Rei da Bélgica, mesmo sendo tio da Rainha Vitória, revisou e leu todos os documentos e deu sentença favorável ao Brasil, sem que o país precisasse indenizar ninguém, contrariando as projeções pessimistas do monarca brasileiro, que pagou antes e não recebeu depois.

O reatamento deu-se num cenário de guerra. Em seguida, essa amizade renovada rendeu empréstimos, compra de armas, navios, etc.

É uma história para lá de interessante. Mais uma daquelas da minha lista de “como é que isso não virou filme ainda?”.

Uma história que começa numa fronteira, avança e termina noutra, dentro do Rio Grande do Sul, que pouco conhece esses detalhes.