Uísque, cigarros e celular

Kalunga Mello Neves, escritor, compositor e palestrante. (Foto: Divulgação)

Nos velhos e bons tempos das matinês, quando ainda tínhamos cinemas de rua em nossas cidades, os domingos à tarde eram esperados com nervosa ansiedade juvenil. Não podíamos faltar, pois certamente iríamos encontrar por lá nossa paquera, piscar o olho pra ela, fazer um sinal labial para que nos guardasse um lugar e, assim que a luz apagasse, estaríamos juntinhos para curtir a película.

Sem contar o encontro com os amigos colecionadores de gibi, o troca-troca no saguão do cinema, a certeza de uma boa leitura para toda a semana, até chegar o próximo domingo. Se sobrasse algum trocado, uma pipoquinha cairia muito bem.

Geralmente, os filmes eram de bang bang. Tarzan também, de vez em quando. Filmes do Jocelito, raros, mas passava, como a gente dizia. Todos de acordo e compatíveis com nossa faixa etária…

Aí e agora, depois desta saudosa introdução, o assunto que eu pretendo abordar hoje na coluna. Vou escrever sobre o que me chamava a atenção nos filmes daquela época, tanto nos das matinês quanto daqueles exibidos em outros horários, e o que nos filmes e séries de hoje continua me despertando a curiosidade. Vamos lá?

Todos os protagonistas dos filmes de então, mocinhos (alguns) e bandidos (todos), chegavam no saloon, pediam uísque e acendiam um cigarro. Era tudo uma fumaceira só. Ai, logicamente, vinham os tiros e as brigas, geralmente ganhas por nossos heróis Bill Kid, Roy Rogers, Bufallo Bill, Zorro e tantos outros. Vocês já imaginaram se alguma lei proibisse bebida alcoólica e cigarro em filmes de faroreste? Não só neles, mas nos românticos e de aventura também? Adeus sétima arte!

As mulheres, lindas e charmosas, usavam piteiras banhadas a ouro. Os gângsteres, por sua vez, rebuscados charutos e cachimbo. E naquele ambiente de mistério e sedução se desenvolvia a história. Entre as décadas de 1959 e 1980, era esse o clima que se via nas telas.

Então, de repente, mais rápido do que fuga de trovão assustado, surge o celular, o novo herói da dramaturgia mundial. Não tem um filme, série ou documentário que, em qualquer cena, ele não se intrometa. Parece que em todo o roteiro ele está inserido, a digladiar com protagonistas, figurantes, e com a própria plateia, que não consegue se manter distante de seu aparelho. E, incrível, nunca acaba a bateria de celular “artista”. Pega em qualquer lugar, outra vantagem que celulares proletários não têm.

Vocês já imaginaram se, tal qual em escolas, o celular fosse proibido durante as filmagens? Adeus tia Chica, como se dizia antes, a sétima arte (ela de novo) pereceria lentamente.

Sei que diante do combate Trump versus Lula, este assunto torna-se irrelevante. Mas, quem sabe, tenha alguém que goste?

Ademão, que eu vou em frente…  (parodiando Ibrahim Sued).

1 comentário

  1. O celular evitou o ator ter uma ficha para um telefonema decisivo. Era motivo de suspense o protagonista ter poucas fichas para aquela ligação importantíssima. Hoje a bateria que acaba toma o o lugar das fichas.

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