Deveria ser feriado

José Henrique Pires licenciado em Estudos Sociais pelo ICH-UFPel, especialista em Políticas Públicas pela Universidade de Salamanca, Espanha, jornalista e radialista. (Foto: Divulgação)

Eu imaginava que, por estes dias, veríamos conferências, seminários e artigos científicos dedicados à pacificação da Revolução Federalista. Afinal, este ano marca exatos 130 anos do acordo de paz assinado em Pelotas, naquele 23 de agosto de 1895, que pôs fim à guerra civil que convulsionou o Rio Grande do Sul e impactou também Santa Catarina e o Paraná, onde houve combates no final do século 19.

Vejam bem: uma guerra terminou na rua Quinze de Novembro, em Pelotas, em um prédio que ainda existe. Foi na casa do general João Nunes da Silva Tavares — o Barão de Itaqui — que, representando os maragatos, recebeu o general Inocêncio Galvão de Queiroz para sacramentar o documento que selou a paz. Ambos, curiosamente, haviam sido condecorados por bravura na Guerra do Paraguai, mas agora se encontravam em lados opostos. E, mesmo assim, pararam a revolução. Só isso já bastaria para justificar homenagens — que, ao que tudo indica, não teremos.

Sobre Silva Tavares, muito já se escreveu. Gaúcho nascido em Herval, morador de Pelotas e com fortes vínculos também em Bagé, tem inúmeros descendentes na região. Já sobre o general Inocêncio pouco se fala. Quando chegou a Pelotas, em 1895, vinha de um duro revés pessoal: Prudente de Morais, que o tinha em alta conta, nomeou-o para uma cadeira no Supremo Tribunal Federal (STF), mas o Senado, julgando um ultraje indicar um general ao STF, rejeitou-o em sessão secreta — contrariando a vontade do presidente Floriano, num episódio lembrado e debatido até hoje.

De volta à caserna, de onde nunca se afastou de fato, Inocêncio recebeu a importantíssima missão de firmar a paz no Sul. A escolha de Pelotas não foi casual. Ele, Prudente e todos os envolvidos sabiam que, se as negociações ocorressem em Porto Alegre, a intransigência do poderoso Júlio de Castilhos impediria qualquer acordo — ao menos naqueles dias.

A Revolução Federalista foi o conflito mais sangrento da história gaúcha e a primeira a usar trens e telégrafos, mudando radicalmente a logística militar no Estado. A Farroupilha, 60 anos antes, dependia das hidrovias e das cavalhadas. Não por acaso, as batalhas daquela revolução aconteceram ao longo do canal São Gonçalo, de Pelotas a Santa Isabel.

Na Federalista, cavalos, lanças e espadas ainda estavam lá, mas o cenário foi transformado pelas linhas férreas, pela comunicação em “código morse” e pelas armas de repetição, que substituíram as antigas carabinas de carregar pela boca.

Eu realmente esperava ver esse episódio histórico mais iluminado pelos estudiosos. Falando em luz, encontrei num velho relatório da Prefeitura de Pelotas uma curiosidade: a cidade estava construindo uma pioneira usina de energia elétrica em 1892, mas as obras foram interrompidas em 1893, devido à guerra. Se não fosse a revolução, Pelotas poderia ter tido energia elétrica trinta anos antes do que teve.

Esses e tantos outros aspectos mereciam atenção. Acho eu.

Qualquer dia volto ao assunto.