Anotações do Caderno

José Henrique Pires licenciado em Estudos Sociais pelo ICH-UFPel, especialista em Políticas Públicas pela Universidade de Salamanca, Espanha, jornalista e radialista. (Foto: Divulgação)

Quando eu fazia um programa de rádio que entrava na madrugada, com muita frequência recebia dicas musicais de ouvintes constantes. Já saindo do vinil e usando aos poucos o hoje aposentado CD, recebia dicas de alguns amigos, como Sérgio Cabral, Bório, Schaun, e que comigo e tantos outros garimpavam algumas preciosidades que invariavelmente faziam sucesso naqueles programas em Amplitude Modulada.

Esses dias, procurando uma coisa, como é comum acontecer, achei outra: um roteiro de antigas interpretações “fora da curva”, muitas antes já gravadas por outros, mas que encontraram na voz de um cantor, de uma cantora (ou orquestra) um patamar acima dos anteriores. Daquela minha época no rádio, lá estão a Elisete Cardoso, cantando “Canção da Manhã Feliz”, com Rafael Rabelo ao violão. Ainda ela, cantando em Tokio a “Última Forma”, do Baden Powel. Rolando Boldrin cantando “Dona Divergência”, de Lupicínio. Qualquer coisa de autoria do Lupicínio na voz definitiva do Jamelão, acompanhado pelo maestro Severino Araujo e sua Orquestra Tabajara.

Até Marlene Dietrich quando gravou “Luar do Sertão”, de Catulo da Paixão Cearense, colocou seu sotaque carregado, que acabou funcionando como moldura larga naquele clássico que rodei numa madrugada. Foi Cauby Peixoto quem ensinou a letra ao Anjo Azul.
Cole Porter, gravado por tantos, foi encontrar em Maysa Matarazzo uma das maiores intérpretes de “Get out the town”.

E Roberto Carlos e Erasmo? Fizeram um samba – quase esquecido – chamado “Cachaça Mecânica”. Quando o maestro alemão Bert Kaemofert fez os arranjos para orquestra e resolveu gravar, fez algo tão sofisticado com a música que muitos até hoje se perguntam como não entrou na trilha sonora de algum filme. A versão mereceria disputar um Oscar, lembro de ter dito.

São inúmeros exemplos, como “Franqueza”, gravado pelo Simonal. Marília Pêra espetacular em “120,150,200 km por hora” e tantas e tantas outras que ainda reencontro nos arquivos e que estão todas no YouTube e algumas no Spotify.

Surgiram coisas novas, de lá para cá.

Estivesse no rádio atualmente, haveria de achar uma noite especial para rodar as interpretações da cantora portuguesa Raquel Tavares. Quem não a conhece, ouça na internet sua versão para “De tanto amor” e vai entender o que estou contando. Uma música bem conhecida, gravada por muitos e que ela nos faz pensar ter sido escrita para ela, graças a sua versão que é uma verdadeira obra de arte.