
Originários de uma inovação européia, os castelos são obras arquitetônicas medievais pensadas para proteger os nobres de ataques inimigos. Fortemente associados a realeza e aos contos de fadas, essas estruturas estão presentes em diversas culturas e épocas, inclusive em pleno pampa gaúcho e cidades da Zona Sul. Atualmente a região tem mapeadas três construções neste estilo, que passam por diferentes momentos de suas histórias.
Erguidos no início do século XX, há os castelos de Pedras Altas e Simões Lopes, enquanto a primeira passa por um momento de reconstrução e o outro está relegado ao esquecimento. Mais recentemente, em Morro Redondo, um grupo empresarial replicou o estilo arquitetônico para um novo empreendimento e está prestes a finalizar um castelo em plena Serra dos Tapes.
O palco do Tratado de Pedras Altas
Construído em 1913 por Joaquim Francisco de Assis Brasil, o Castelo de Pedras Altas foi estruturado a partir de técnicas pioneiras de sistema construtivo, infraestrutura e edificação. A estrutura é reconhecida por seu valor paisagístico, histórico e relacionado à trajetória de Assis Brasil – político, diplomata, produtor rural e intelectual gaúcho, patrono da agricultura no Rio Grande do Sul.
O castelo possui 44 cômodos, destes 12 são quartos; além de 14 lareiras e um total de impressionantes 77 janelas. A estrutura possui também uma biblioteca, onde encontra-se um acervo de 15 mil livros. Em 1923, o local foi palco da assinatura do Tratado de Paz que pôs fim a Revolução 1923. Por isso, o acordo entrou para a história do Estado como Pacto de Pedras Altas.

Atualmente, o prédio pertence à família do advogado e produtor rural Luiz Carlos Segat e está na quarta etapa de revitalização, possibilitada através da Lei de Incentivo à Cultura (LIC) do RS e recursos diretos da Fundação Toyota do Brasil.
O processo atual da obra envolve o reparo de infiltrações, além da troca de reboco e da parte hidráulica e elétrica. “Estão sendo feitas todas as obras necessárias para o restauro, principalmente a remoção de rebocos, que estavam já com problemas devido ao tempo e às infiltrações”, explicou Segat. Os consertos começaram nos terraços e hoje passam para a remoção e revitalização das janelas e portas.
Apesar da evolução nas obras, a conclusão das intervenções está prevista para daqui quatro anos. No entanto, o castelo continua recebendo visitações guiadas, as quais compreendem visita externa, bem como interna em algumas partes do castelo, inclusive na biblioteca, onde foi assinado o Pacto de Pedras Altas, que pôs fim à guerra entre Maragatos e Chimangos.
Cada visitação demora em torno de três horas no valor de cerca de R$ 100,00 por pessoa. Interessados em conhecer o castelo podem fazer agendamentos de visitas através do Instagram (@castelopedrasaltas).
Do luxo ao abandono
Outro castelo localizado na Região Sul é o Simões Lopes, construído em 1923, em Pelotas. A edificação foi erguida por Augusto Simões Lopes, filho do charqueador João Simões Lopes Filho, o Visconde da Graça. Augusto era um homem público, tendo sido intendente de Pelotas, deputado federal, senador e vice-presidente do senado. Com isso, o castelo foi palco de grande atividade política e social.

Quanto à sua estrutura, segundo informações do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado (IPHAE), o prédio lembra os antigos castelos medievais. Porém, construído com cimento armado – novidade na época – e paredes em alvenaria de tijolos. Além disso, teria sido a primeira casa a ter calefação em Pelotas.
O castelo possui dois pavimentos mais o porão, onde ficava a adega de vinhos e as acomodações para empregados. No térreo, encontrava-se espaços de convívio e dormitórios – havia mais deles no segundo pavimento, junto de banheiros e um escritório com acesso a amplos terraços.
Após pertencer a Augusto, foi propriedade da família do escritor pelotense Simões Lopes Neto. Em 1990, foi adquirido pela Prefeitura e segue sob posse do município, tendo abrigado várias entidades culturais, como Instituto Histórico e Geográfico e Academia Pelotense de Letras. Depois foi sede de um Centro de Atendimento Psicossocial, chamado de CAPS Simões Lopes.
Hoje, o Castelo Simões Lopes encontra-se abandonado e danificado, com partes da cobertura ausente, o que tem contribuído para a degradação interna. Os problemas estruturais se agravaram ao longo do tempo, deixando-o em estado de ruínas. Durante muitos anos, foi alvo de vândalos e, agora, sofre com a ação do tempo.

De acordo com a secretária de Cultura, Carmen Röig, a administração municipal está ciente da situação do castelo. Atualmente, a gestão está em busca de recursos para um projeto de recuperação. “O objetivo é conseguir o financiamento necessário para que a restauração integral possa ser realizada”, ressaltou.
Quanto às possíveis futuras utilizações do edifício, a secretária afirma ainda não haver uma definição.
Imaginação materializada
Além das estruturas centenárias, um novo edifício inspirado nos castelos medievais surge na Colônia Santo Amor, em Morro Redondo: o Castelo Bonilla. A palavra “Bonilla” é uma homenagem à família, de origem espanhola, do idealizador do projeto, Álbio Bunilha de Barros.
Barros conta que a ideia da construção do castelo e todos os seus detalhes estavam em sua mente ao longo de toda a vida. “Eu tenho a imagem de todos os cômodos, de todos os detalhes, que estão sendo executados na obra. Sempre tive essa imagem muito clara e nítida. E sempre enxerguei a construção em um local elevado, de uma visibilidade boa, e em meio a uma mata”, detalhou.

Foram essas características que o guiaram em direção a Morro Redondo, devido sua geografia com elevações no terreno. Além disso, o desenvolvimento turístico já existente no município foi um fator impulsionador para a decisão, uma vez que o castelo abrigará um empreendimento voltado para descanso, contato íntimo com a natureza e muita paz.
As obras começaram em agosto de 2022 e, hoje, está em fase de acabamento interno do terceiro piso – onde será a área residencial. “Vamos nos mudar para lá e estar permanentemente na propriedade”, explicou. A expectativa é que as obras se estendam por mais um ano e meio.
O andamento da construção do Castelo Bonilla pode ser acompanhado através do Instagram do futuro empreendimento (@castelo.bonilla).




