Berola é sinônimo da tradição doceira de Pelotas e projeta aumento de 50% nas vendas na Fenadoce

Fábrica no Recanto de Portugal centraliza toda a produção que é distribuída para as lojas franqueadas do Rio Grande do Sul e Santa Catarina. (Foto: Matheus Garcia/JTR)

Fundada a partir das receitas originais da doceira portuguesa, Berolíndia Lusche, a doceria Berola é o único empreendimento do setor a participar de todas as edições da Feira Nacional do Doce (Fenadoce), que hoje se consolidou como uma das maiores feiras de negócios do sul do país.

A história da empresa, que se transformou em sinônimo da tradição doceira de Pelotas e completou 37 anos em julho, se confunde com a trajetória da Fenadoce. O nascimento da doceria está ligado à figura de Berolíndia Lusche, a Dona Berola, que por seu conhecimento e dedicação ao ofício de doceira, tornou-se referência nacional de requinte e qualidade em doces finos. “A Berola surgiu como uma homenagem à dona Berolíndia. Ela mandava doces até para a Presidência da República”, lembrou Hugo Vieira da Cunha, o Maneca, um dos fundadores da empresa.

Reconhecida pelo perfeccionismo, Berolíndia produzia doces sofisticados, como cachos de uva recheados – gomo por gomo – com doce de ovos. Sua filha herdou as receitas e trabalhou na Berola ao lado da primeira esposa de Maneca. Hoje a loja expandiu e ganhou uma fábrica. As receitas originais foram mantidas e ajudaram a consolidar a marca como referência em doces tradicionais pelotenses.

Maneca foi responsável pela expansão do negócio até a venda, no início de 2025. (Foto: Arquivo pessoal)

A ligação da Berola com a Fenadoce é muito mais profunda do que parece. O evento, que começou em 1986 como Festa Nacional do Doce, teve entre seus criadores Wilson Veiga Pereira, pai de Maneca, que também foi o primeiro presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Pelotas, entidade que organiza a Fenadoce até os dias atuais.

Na época, a Feira reunia principalmente as indústrias de conservas. Segundo Maneca, a Berola era a única a oferecer doces artesanais. O sucesso foi imediato: todo o estoque foi vendido.

Sob nova direção

A história recente da empresa também é marcada por renovação. Aos 71 anos, Maneca decidiu se afastar, quando problemas de saúde passaram a impedir que conseguisse acompanhar o ritmo de crescimento da empresa. “Comecei a ficar com muita dificuldade de caminhar. E o negócio cresceu muito também. A loja ficou muito grande. E era só eu e a minha esposa [Aninha Medeiros]. E, no final, era só ela. E aí eu estava muito cansado. Surgiu, então, a oportunidade de vender a loja da frente e, depois, a fábrica”, revelou.

Desde fevereiro, a loja Berola do Laranjal, juntamente com a fábrica, estão sob a gestão do casal formado pela professora de Letras, Daniela Falavigna dos Santos, e o coronel da reserva da Brigada Militar, Leandro Brandão dos Santos, que contam com a administradora de empresas, Mirela Falavigna Aikin, irmã de Daniela, como sócia.

“Larguei meu concurso público, chamei minha irmã, meu marido, todo mundo veio junto. Hoje é uma empresa familiar, de verdade”, contou Daniela.

Daniela e Mirela assumiram o desafio de levar adiante a marca da doceria mais tradicional de Pelotas. (Foto: Matheus Garcia/JTR)

Atualmente, a Berola opera um modelo de franquias com 16 unidades espalhadas pelo Rio Grande do Sul e Santa Catarina, sendo cinco lojas em Pelotas. “A gente trabalha com um sistema de parcerias, que chamamos de direito de uso da marca. Essas lojas, por obrigatoriedade contratual, devem vender tudo o que a Berola produz e nunca colocar produtos como concorrente da loja. Então, se tu compras um quindim da Berola, não pode pôr um quindim de outra marca para vender ali”, explicou Daniela.

Em contrapartida, doces e salgados complementares vêm de fornecedores da região, como Dona Zilda Doces Cristalizados, Doces Crochemore, Doces da Onélia e Salgaderia do Portuga. “E aí vem a questão de fomentar o comércio local. A economia interna”, ressaltou.

Hoje a empresa tem 22 colaboradores diretos, e o clima de equipe e comprometimento com a empresa são uma marca registrada. “Aqui ninguém é só funcionário, é a família Berola. Eles gostam de participar, pedem para trabalhar mais. É uma relação de parceria”, afirmou.

O trabalho para a Fenadoce

Para a empresa, a Fenadoce representa um salto nas vendas. “Em um mês normal, produzimos cerca de 50 mil doces. Só em junho, foram 60 mil para a Fenadoce e nossa meta é vender pelo menos 100 mil unidades”, projetou Mirela. O aumento do volume de vendas é estimado em 50%, impulsionado pelo turismo e pela tradição dos visitantes do evento em levar doces para casa.

Para dar conta da demanda, a empresa conta com o reforço dos próprios funcionários. “É tudo fresco, nada de estoque congelado. É tudo feito praticamente um dia antes, a gente não tem estoque pronto de produtos, porque envelhece. Entrou pedido hoje para sair amanhã, o pedido é feito hoje, para sair amanhã, sempre de um dia para o outro e os pedidos com frutas são feitos no mesmo dia”, explicou Mirela.

O carro-chefe da marca, hoje, é o quindim, seguido pelo bombom de morango e o ninho. Com receitas artesanais e insumos selecionados, a marca mantém uma nutricionista para garantir qualidade. “Usamos leite condensado integral, chocolate meio amargo, sucos naturais. Nada de mistura em pó”, disse Daniela.

O compromisso com ingredientes naturais, baixo teor de açúcar e respeito ao processo artesanal é levado a sério: a cada mês são consumidas cinco toneladas de açúcar compradas diretamente da usina, dez toneladas de leite condensado, 3,5 mil quilos de morango, 5 mil caixas de creme de leite e, aproximadamente, 75 quilos de farinha por dia. “A gente traz de Chapecó (SC) os nossos ovos pasteurizados, que por uma questão de segurança alimentar vêm em galões”, revelou Daniela.

O impacto da Fenadoce vai além das vendas diretas e, segundo os empresários, o trabalho na Berola tem reflexos positivos em toda a cadeia local movimentando fornecedores, lojistas e confeiteiros. A empresa também aposta na experiência da visitação à fábrica, como forma de fortalecer ainda mais a marca. Os visitantes podem conhecer de perto as receitas que atravessaram gerações e todo o processo de produção.

“Nosso negócio é mais do que vender doce. É manter viva uma tradição que começou com a dona Berolíndia e faz parte da história da cidade”, resumiu Daniela.

Novidades

A linha de sorvetes artesanais, relançada em dezembro passado – e um sucesso de vendas – é uma das novas apostas da empresa para expandir mercado. Entre os campeões estão o sorvete de doce de leite, o de quindim e o sabor bombom de morango.

Entre os lançamentos previstos para esta edição da Fenadoce estão produtos como a “brigadeirinha Berola”, os churros e o brûleé com açúcar maçaricado, receitas que prometem adoçar ainda mais os visitantes da feira.

Estande na Fenadoce leva ao público todos os produtos da marca. (Foto: Lylian Santos/JTR)