Doces de Pelotas, o sabor da resistência: tradição doceira é cultura, fé e subsistência

Professor André e seus alunos lançam outros olhoares sobre a tradição doceira da cidade. (Foto: Divulgação)

Falar sobre a tradição doceira de Pelotas vai além de contar sobre receitas portuguesas a base de açúcar e ovos, é falar também sobre a alma da cidade, a tradição que permanece viva nas ruas e vitrines. A existência da Princesa do Sul está intrinsecamente ligada aos seus doces e estes, por sua vez, às mãos negras que os moldaram. André Eduardo da Fonseca, professor de Gastronomia do Senac Pelotas, explica um pouco sobre essa relação histórica.

“Os doces portugueses chegaram aqui com a colonização, é verdade. Mas foram transformados, reinventados e aperfeiçoados pelas mãos negras escravizadas, que com talento, criatividade e resistência, criaram uma doçaria que hoje é patrimônio cultural”, destacou.

Oficinas da Otroporto formam novos profissionais para o mercado doceiro. (Foto: Marina Pilger)

Essa adaptação de receitas, modos de preparo e técnicas foram, então, passadas de geração em geração de mulheres negras, as quais transformavam os doces no sustento de suas famílias. “Mulheres que nunca foram nomeadas nos livros, mas que estão presentes em cada mordida de camafeu, de quindim, de torta de ovos”, afirmou o professor.

Além da subsistência, os doces também sempre tiveram uma presença sagrada nas casas de religião de matriz africana. Fonseca explica que até hoje os doces são usados como oferenda em muitos rituais aos orixás, caboclos e outras entidades. Ele relembra uma noite em que passou a madrugada inteira produzindo 400 quindins, junto de sua mãe e irmãos de santo. “A cozinha virou terreiro. A colher virou instrumento de fé. Tudo isso pra que, naquele batuque, o quindim estivesse ali. Feito por nós, com as nossas mãos, com o nosso axé, com a nossa dedicação. Era muito mais do que um doce, era uma entrega espiritual”, relembrou.

O professor explica que cada orixá possui sua doçura, ou seja, recebe um tipo de oferenda. Entre elas, está cocada, pé de moleque, merenguinho, bolo de milho, pão de ló e, é claro, os famosos doces de Pelotas. “Esses estão em praticamente todas as festas de santo. Seja no quarto, seja na mesa de convidados. Eles adoçam caminhos, abrem corações e alimentam a fé”, afirma ele.

Tradição doceira na atualidade

Apesar de centenária, a tradição doceira segue viva e vibrante em Pelotas. As doceiras e doceiros cumprem fundamentalmente seu papel em manterem vivo esse saber ativo, seja vendendo nas ruas, em confeitarias, ou até aprendendo esta arte nas salas de aula – como na Gastronomia do Senac. “A gente entende que formar pessoas na doçaria é também garantir a continuidade de uma cultura viva, e fazemos isso com técnica, ética e amor”, garantiu Fonseca.

Em parceria com a Otroporto, o Senac realiza o projeto Doçaria Escola, que está indo para sua terceira edição. A primeira turma foi voltada exclusivamente para pessoas transsexuais em situação de vulnerabilidade. “Eram homens e mulheres trans que buscavam no doce uma chance real de inserção no mercado de trabalho. O doce, ali, foi ferramenta de emancipação, de dignidade, de visibilidade.”

A ideia é continuar trabalhando com pessoas em vulnerabilidade social, como as pertencentes ao Cadastro Único (CadÚnico) e as beneficiárias do Bolsa Família. Segundo Fonseca, a única característica necessária é a vontade de aprender e transformar suas vidas através da confeitaria. “Seja para vender, para cuidar da família ou para simplesmente adoçar a própria existência. O Senac acredita nisso, e a gente pratica esse propósito todos os dias”, disse.

Quindim, o doce mais vendido da Fenadoce é, também, um símbolo da cultura afro-brasileira. (Foto: Michel Corvello)

Misturando com outras artes, a Gastronomia do Senac também contribuiu com uma performance do Grupo de Dança Daniel Amaro em homenagem aos orixás. Para este evento, os alunos produziram mais de 600 cocadas, de receita autoral da escola, em referência a Oxalá. “Mais uma vez, o doce estava ali como símbolo, alimento, oferenda e expressão cultural. Um dia inteiro de coco, açúcar, água e afeto. Tudo isso pra garantir que o doce chegasse nas mãos de quem estivesse comungando aquele momento”, detalhou o professor.

Além disso, o Senac terá um stand próprio na Fenadoce 2025, promovendo mais de 50 oficinas de gastronomia – sendo pelo menos 40% delas voltadas exclusivamente à produção de doces. “A gente entende que ensinar a fazer doce é também ensinar a pertencer, a empreender e a se orgulhar da própria história”, explicou.

O professor ainda reforça que o doce, em Pelotas, não é apenas um produto. O doce faz parte da identidade da cidade e tem uma ligação afetiva, espiritual e social. “Pelotas é doce, sim. Não apenas por causa do açúcar, mas porque é feita por mãos que resistem, ensinam e ofertam. Essa tradição, mais do que um sabor, é memória, cultura e caminho”, concluiu.