
Ao fechar seis meses de gestão, o prefeito Fernando Marroni (PT) concedeu entrevista exclusiva ao Jornal Tradição Regional (JTR). Durante uma hora, Marroni falou sobre como a administração se vale da inteligência e de setores da indústria criativa para fomentar o desenvolvimento econômico, analisou as dificuldades enfrentadas nesse início de governo e, lançou um olhar sobre as metas de curto e médio prazo. Confira os principais trechos:
Desafios do clima
Para o prefeito Marroni as universidades e instituições de pesquisa locais possuem um importante acúmulo de conhecimento e estudos que indicam alternativas para garantir um sistema perene de proteção, porém o desafio é o financiamento diquespara tirar os planos do papel.
Os recursos do Fundo de Reconstrução do Rio Grande do Sul são apontados como fundamentais para renovar o sistema de diques, que terão sua cota aumentada para quatro metros, altura considerada suficiente para garantir a proteção das áreas mais baixas. A liberação da verba é aguardada nos próximos meses.
Mas nem tudo é dinheiro. Conforme Marroni é necessário, também, um envolvimento da comunidade para as intervenções e mudanças necessárias. “Se precisa de um movimento para envolver as pessoas, afinal muitos precisam sair de onde viveram a vida inteira. A sociedade precisa entender, também, que será necessário não permitir mais construções em pontos abaixo da cota de inundação, em áreas alagadiças e de banhados, porque isso tudo vai agravando a situação.”

“Pelotas tem todas as condições de vencer o tema do SUS”
“Comparado com Rio Grande, São Lourenço do Sul e Porto Alegre, que vivem uma crise, nós não vivemos crise. Vivemos algumas faltas, digamos assim”, afirmou Marroni referindo-se ao Sistema Único de Saúde (SUS).
De acordo com o prefeito, o problema crônico da superlotação do Pronto Socorro está sendo resolvido, com o aditamento dos contratos com os hospitais para a abertura de mais leitos. A entrada em funcionamento do novo Hospital Regional de Pronto Socorro, que deve ter as obras concluídas até o final do ano, é apontada como uma virada de chave no sistema, com capacidade de não apenas solucionar problemas históricos, mas também capaz de colocar Pelotas como uma referência em atendimento de saúde pública.
“Em um período próximo teremos o HPS, o novo hospital da Ebserh e com duas faculdades de Medicina, três de Enfermagem, além das escolas técnicas de saúde, com os outros hospitais e toda a rede de laboratórios privados, teremos uma qualidade de atendimento que nenhuma outra cidade tem. Pelotas tem todas as condições de vencer o Sistema Único de Saúde”, afirmou.
O ponto-chave para o início das operações do novo HPS é o sistema de gestão e, conforme o prefeito, o modelo está muito próximo de ser definido. A preferência é pela contratação do Grupo Hospitalar Conceição (GHC), empresa federal responsável por administrar o Hospital Conceição, em Porto Alegre. “O GHC hoje opera no Rio de Janeiro e em outras praças. Então essa é a possibilidade mais conveniente, pois se trata de uma instituição federal, com ampla expertise que a gente poderia fazer essa contratação e essa conversa está sendo feita.”
Pavimentação é o desafio do governo
Resolver o problema dos 400 quilômetros de ruas sem pavimentação é, para o prefeito, o grande desafio a ser vencido. “Cada vez que chove se tem que recuperar 400 km, fora as estradas rurais. E essas ruas, que não têm pavimento, não têm drenagem, não têm calçadas. Além disso muitas ruas pavimentadas têm que fazer de novo, porque foram obras mal feitas”.

A solução depende da aprovação de projetos no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). O xis da questão, explica Marroni, é que para estes projetos não existem recursos à fundo perdido, apenas financiamentos, para os quais a Prefeitura precisa ter capacidade de endividamento e viabilidade financeira de pagamento.
“Apresentamos vários projetos – ao todo são 21 propostas para diversas áreas – e tem outros via emendas parlamentares. Vamos tentar garantir o caminho do ônibus todo asfaltado. Esta é a nossa grande meta”.

Finanças públicas
“Não tem uma despesa da prefeitura que não passe pela comissão formada pelas secretarias da Fazenda, Planejamento e o prefeito. Então, para sair um pila tem que ser aprovado. E assim a gente está conseguindo cortar as despesas e enfrentar o problema do déficit. Até agora já paguei R$ 48 milhões”, disse.
O déficit previsto na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) é de R$ 191 milhões para o 2025, porém o prefeito diz que o número não é preciso. “Um déficit orçamentário é um déficit ficcional, porque está ali no orçamento que vamos fazer tal e tal investimento, mas podemos não fazer esses investimentos e ir ajustando os valores. Em 2026 queremos trabalhar com um orçamento já bem realista, baseado no Plano Plurianual que está terminando”, afirmou.
Avanços garantidos
Nestes seis meses, Marroni aponta dois avanços considerados significativos: a manutenção da tarifa do transporte coletivo em R$ 6 e o reajuste do salário e do vale-alimentação dos servidores em 6,2%.
Para o prefeito, manter o valor da passagem urbana e rural foi uma vitória conseguida a custo de uma intensa negociação coletiva. “Precisamos tirar alguns descontos, mas conseguimos manter a paridade no sistema, apesar do custo bastante alto para o município”.
A proposta salarial apresentada pela Prefeitura aos servidores é, de acordo com Marroni, uma sinalização de que a gestão está comprometida com a recuperação dos salários e com a correção de todas as distorções.
Desenvolvimento passa pela indústria criativa
Turismo, inovação tecnológica e cultura formam o tripé sobre o qual a administração busca apoiar o desenvolvimento local.
“Está no nosso projeto que a cidade tem um grande potencial para o turismo, seja ele cultural, natural ou de eventos. A parte do poder público é estimular a capacitação, a indústria criativa e fomentar o desenvolvimento dessa cadeia produtiva”, comentou.
Para Marroni os editais públicos de fomento são uma das principais ferramentas para viabilizar as iniciativas da indústria criativa. Este ano foram abertos três editais da Lei Aldyr Blanc, com valor total de R$ 2,1 milhões, que devem beneficiar 62 projetos.
Paralelo a isso, o município fortalece parcerias com Sebrae, Sesc e Senac para qualificar mão de obra e desenvolver projetos de fortalecimento do turismo como, por exemplo, a escola de gastronomia do Senac que será instalada na antiga sede do Banco do Brasil, no Centro Histórico.
Para além do turismo, reside na inovação tecnológica, mais especificamente no Hub de Inovação em Saúde e Biotecnologia – espaço destinado à instalação de startups, empresas de médio porte e laboratórios de biotecnologia para desenvolvimento de novas tecnologias para o mercado da saúde – uma das grandes apostas para impulsionar o desenvolvimento.
“A maioria dos insumos da saúde é importada. Uma agulha hoje é importada. Uma seringa, um bisturi, nada se faz no Brasil. Com esse novo hub, que tem um aporte de R$ 15 milhões do Ministério da Ciência e Tecnologia, queremos que a cidade possa agregar outros segmentos dessa indústria da saúde, inovação de biotecnologia, alavancando uma área com grande potencial de crescimento”, afirmou.



