Caso de vídeo fake é novo capítulo na crise entre Governo e Câmara em Pelotas

Imagem do vereador Fuhro Souto (PV) foi adulterada e usada em vídeo de fake news (Foto: Reprodução)

A secretária municipal de Governo de Pelotas, Miriam Marroni (PT), confirmou nesta segunda-feira (9) a exoneração do diretor executivo da pasta, Diego Fonseca, autor de um vídeo fake produzido com ajuda de inteligência artificial – e postado em redes sociais no fim de semana – no qual usou a imagem e a voz do vereador Cauê Fuhro Souto (PV). O caso é mais um capítulo na crise de relacionamento entre o governo e a Câmara de Vereadores.

O vídeo fake tem 13 segundos de duração e nele uma imagem adulterada do vereador fala que teve a prisão decretada e por isso irá sair de Pelotas. A informação falsa é relacionada ao processo aberto pelo Ministério Público (MP) para apurar possíveis irregularidades na destinação de emenda parlamentar para uma entidade cultural. Postado no domingo nos perfis pessoais de Fonseca, o vídeo acabou compartilhado por várias pessoas e páginas. 

“O que houve foi uma irresponsabilidade total, sobretudo de uma pessoa que faz parte do governo, da Secretaria Geral de Governo e que faz parte da minha federação, porque o Partido Verde, do qual sou presidente faz parte da Federação Brasil da Esperança, ainda mais em se tratando de deepfake, que é algo que a nossa federação é veementemente contra, e faz inclusive campanhas contra esse tipo de crime”, comentou Fuhro Souto. 

Na avaliação do vereador a exoneração foi uma resposta mínima do governo para o fato. “Achei a exoneração uma pequeníssima resposta perto do que deveria ter sido feito. Até agora a secretária de Governo, que era a chefe dele, não se manifestou, o prefeito Fernando Marroni também não se posicionou. O governo parece que fechou os olhos, então a exoneração foi muito pouca perto de tudo o que deveria fazer, sobretudo também colocar nas redes sociais e fazer propaganda contra esse tipo de crime”, disse.

“O que houve foi uma irresponsabilidade total”, declarou Fuhro Souto

A indignação de Fuhro Souto ganhou eco na Câmara e o presidente do Legislativo, Carlos Júnior (PSD), que no final de semana – quando o vídeo foi compartilhado nas redes sociais – havia assinado uma nota oficial de repúdio ao fato, voltou a se manifestar nesta segunda-feira. “Ao tomar conhecimento do fato a gente entrou em contato com a secretária Miriam, que de pronto entendeu a gravidade do fato. A partir disso a decisão do governo foi de demitir o servidor, pois sabe-se que espalhar fake news é um crime. O Legislativo não vai, jamais, compactuar com nenhuma situação desse tipo”, disse.

Relações ainda mais estremecidas

O episódio do final de semana estremece ainda mais as relações entre Executivo e Legislativo, já abaladas pelos casos da liminar obtida pela Prefeitura contra o pagamento das emendas impositivas no primeiro semestre e do pedido de impeachment do prefeito Fernando Marroni (PT) cogitado por vereadores oposicionistas. 

O ex-líder do governo Paula Mascarenhas (PSDB) na Câmara e um dos principais líderes da atual oposição, vereador Marcos Ferreira, Marcola (UB) define o momento atual como “conturbado” e argumenta que sem uma repactuação do relacionamento a tendência é do prefeito não conseguir mais governar. 

“Hoje o governo não consegue estreitar um diálogo na Câmara”, disse Marcola (Foto: Eduarda Damasceno)

“Hoje o governo, no meu entender, não consegue estreitar um diálogo na Câmara e não consegue ter uma base forte. O governo precisa repensar como quer passar os próximos 36 meses. Se eles não repactuarem a estratégia não vão conseguir governar. Isso acaba prejudicando a população, pois a administração não avança”, comentou. 

Para o atual líder da situação na Câmara, vereador Jurandir Silva (PSol) há um pouco de pirotecnia nas manifestações da oposição, que tenta passar a falsa ideia de que o governo é fraco. 

“A maior parte dos parlamentares eleitos apoiou a candidatura derrotada no segundo turno das eleições, então é um pouco evidente que não vai ser muito fácil – porque são posições políticas diferentes – que o governo componha uma maioria nesse estado de coisas, mas temos buscado fazer movimentos de composição de maioria. Não se tem uma perspectiva de que a Câmara seja uma correia de transmissão do governo, até porque há que se respeitar a autonomia entre os poderes, mas vejo que há parlamentares que entendem quando os projetos são importantes para cidade e apoiam, então é nesse terreno que seguimos trabalhando”, diz.

“Não se tem uma perspectiva de que a Câmara seja uma correia de transmissão do governo”, afirmou Silva (Foto: Eduarda Damasceno)

A rápida resposta da secretária Geral de Governo ao caso do vídeo fake é vista pelo líder como positiva, dentro de toda a crise. “Esse é um episódio muito ruim sob essa perspectiva de composição de diálogo, de explicação das questões, porque é um episódio grave. Mas o assessor foi desligado da secretaria quase imediatamente após a secretária tomar conhecimento dos fatos e isso dá o recado de que o que aconteceu não é um posicionamento do governo e que a secretária Miriam e o governo não referendam esse movimento”. 

Em nota governo diz não pactuar com fake news

Durante a tarde desta segunda-feira o governo se manifestou através de uma nota oficial na qual informa a exoneração do diretor tão logo a veiculação do material foi identificada e reforça a posição diante da difusão de notícias falsas. 

“As fake news são mais do que notícias falsas. Elas representam iniciativas perigosas que podem afetar diretamente a saúde e a integridade das pessoas. Em respeito ao Poder Legislativo e à comunidade pelotense, a Prefeitura de Pelotas manifesta que não compactua de qualquer forma com fake news, bem como reitera seu compromisso com a verdade e a democracia”, diz a nota.

O Cauê está passando dos limites”, diz Fonseca

Procurado para comentar o caso, o ex-diretor afirmou que o problema não é institucional, mas sim pessoal, entre ele e o vereador. Fonseca atribui a Fuhro Souto a divulgação de informações falsas relacionadas ao seu nome.  “O Cauê está passando dos limites. Duas semanas atrás, atribuiu a mim uma denúncia falsa, que eu não fiz. Então achei que o melhor negócio era devolver para ele o veneno, para mostrar que ele não tem que dar moral de cueca a ninguém, nem ficar mentindo para todo mundo sobre qualquer pessoa”, disse. 

Fonseca classifica o conteúdo do vídeo como “tosco” e diz ter deixado claro que se tratava de um vídeo fake criado com inteligência artificial e que o objetivo maior foi chamar atenção para a investigação do MP.