Dia Nacional do Sistema Braille conscientiza sobre importância do código

Usuário do CRV escrevendo com a máquina mais nova da instituição, à frente está a versão mais velha do equipamento, e ao lado está a reglete, em cor azul. (Foto: Julia Barcelos/JTR)

No dia 8 de abril, é celebrado o Dia Nacional do Sistema Braille, um meio de comunicação para pessoas com deficiência visual parcial ou total. A Associação Escola Louis Braille é uma instituição que atende gratuitamente deficientes visuais, cegos e visão subnormal de Pelotas e mais 27 municípios da região sul do Estado. Entre os serviços prestados está o ensino deste código tátil.

O Sistema Braille foi criado na França, em 1825, por Louis Braille, e continua sendo usado em todo o mundo até a atualidade. No Brasil, foi introduzido por José Álvares de Azevedo, em 1854. A data 8 de abril foi escolhida por ser o aniversário de Azevedo. Trata-se da representação tátil de símbolos alfabéticos e numéricos que possibilitam a escrita e leitura através da combinação de pontos.

Cada célula braille é composta por seis espaços para pontos, dispostos em duas colunas com três espaços cada uma. Esses pontos são combinados de diversas formas, podendo criar até 63 sinais diferentes. Eles são inseridos em forma de relevo no papel ou outro material a fim de serem lidos pelos usuários ao senti-los com as pontas dos dedos. O braille é um código universal, podendo ser adaptado para diversos alfabetos.

Este código é ensinado aos alunos e usuários da associação pelotense e seu Centro de Reabilitação Visual (CRV). Há 72 anos atendendo Pelotas e região, a instituição possui turmas de Pré-escola ao 5º ano, duas turmas de Ensino de Jovens e Adultos (EJA) e faz assessoramento às escolas de Educação Básica da Região Sul. Além disso, o CRV presta atendimentos especializados para todas as idades com ensino de braille, manuseio da bengala, uso de tecnologias inclusivas, orientações sobre mobilidade e atendimentos com oftalmologistas, assistentes sociais e psicólogos.

A coordenadora da associação, Andreia Robe, guiou a reportagem pelos corredores da instituição. No primeiro andar, pela rua Padre Felício, em frente ao Hospital Miguel Piltcher, está o CRV, onde aconteceu uma aula inicial de leitura de letras em braille. Na ocasião, são disponibilizadas peças grandes que permitem aos alunos sentirem os relevos e aprenderem a identificar o padrão de pontos de cada uma das letras.

Após terem um conhecimento sobre os padrões, os estudantes avançam para as aulas de escrita. Primeiro, é ensinado o uso do reglete, um instrumento que parece uma régua com uma placa superior e outra inferior. A placa superior tem retângulos vazados, denominados celas braille, e a placa inferior tem celas braille com pontos côncavos em baixo relevo. Para fazer o relevo, é utilizada a punção, uma espécie de caneta.

Aulas iniciais usam peças grandes para alunos aprenderem a identificar o padrão de pontos de cada uma das letras com maior facilidade. (Foto: Julia Barcelos/JTR)

Outra forma de escrita em braille é a máquina de escrever, que é parecida com uma máquina convencional, mas possui apenas oito teclas que são combinadas dependendo da letra desejada. A professora Simone Carneiro explica que, além das letras e numerais, há símbolos específicos para indicar acentuação, pontuação, letras maiúsculas, entre outros. Também é ensinado aos alunos como fazer a assinatura de seu nome em linguagem cursiva com uma guia de assinatura, uma régua com um espaço limitante para a escrita.

De acordo com as professoras, a etapa mais difícil é a leitura. Isso porque os relevos em papel são bem pequenos e é preciso muito conhecimento sobre o código para conseguir juntar as letras e formar uma palavra completa. “Eu pego um livro pra ver e não consigo, porque é uma letra do ladinho da outra e os livros não têm espaçamento de linha. […] Mas nada se nasceu sabendo, né? Graças a Deus eu já melhorei muito!”, afirmou o usuário do CRV, Jorge Luiz Machado, de 55 anos.

Atualmente, é possível encontrar informações no Sistema Braille em elevadores, embalagens de medicamentos, cardápios de restaurantes, placas informativas, entre outros. No entanto, a falta de acessibilidade em locais públicos e privados e o preconceito ou falta de preparo para lidar com essas pessoas ainda são problemas muito presentes no cotidiano.

“No Calçadão, as lojas têm não sei quantos metros quadrados, mas têm que colocar os expositores de roupas na calçada. Eu uso a parede para me guiar, mas aí botam aquelas coisas cheias de roupas e ainda ficam bravos quando a gente bate nelas”, afirma Machado. Ele ainda relembra a vez que foi fazer compras em uma loja no Centro da cidade e foi ignorado pelos atendentes. “Virei as costas e fui embora. Quer dizer que só porque sou cego meu dinheiro não tem valor?”, exclamou.

Além de revelar a importância do código para a autonomia de pessoas com deficiência visual parcial ou total, o Dia Nacional do Braille também é uma data para refletirmos sobre a inclusão dessas pessoas na sociedade e a forma como às vemos e tratamos.