
Moradores lutam pela preservação ambiental e qualidade da água
Os moradores do Capão do Leão lotaram, na noite de quarta-feira (26), o salão da Paróquia Santa Tecla para participar da audiência pública promovida pela Câmara de Vereadores para discutir a possível instalação de um aterro sanitário privado no município. Ao final de 3h de reunião, a comunidade se declarou contra o empreendimento e decidiu apoiar um Projeto de Lei proibindo propostas semelhantes.
“Em 2023, essa empresa comprou uma área na Hidráulica e encaminhou o pedido de licenciamento do empreendimento, mas barramos na Fepam. Não admitimos um aterro sanitário aqui, pois todos os cursos d’água desembocam no canal São Gonçalo, que abastece Capão do Leão, Pelotas e Rio Grande. É uma incoerência, em um lugar desses, ter um aterro sanitário. E se der um problema, o que acontece?”, declarou o vereador Renato Póvoas (PT), proponente da audiência pública e autor da minuta de Projeto de Lei que pretende proibir aterros sanitários no Capão do Leão.
Conforme informações da comunidade, a Companhia Riograndense de Valorização de Resíduos (CRVR) protocolou na Prefeitura pedido para realizar um estudo de viabilidade técnica para a compra de uma área de 80 hectares na Capela da Buena, próximo da BR 293.
A região, prospectada pela CRVR, é ocupada por pequenas propriedades rurais, e a possibilidade de o projeto se concretizar gera preocupação entre os produtores. É gente como Gilnei Vasconcellos, que há 77 anos vive ali, produzindo milho e feijão em sua propriedade de 22 hectares.
“Eu me preocupo com as futuras gerações, que serão penalizadas pela instalação de um empreendimento desses. Trabalhamos, ao longo do tempo, para modernizar a nossa agricultura e hoje está se fazendo uma agricultura moderna, mas, se essa proposta avançar, já era para nós, pois o risco de contaminação do lençol freático e dos mananciais é enorme”, afirmou.
A produtora rural Deborah da Silva Cardoso, que produz morangos orgânicos e melancias em sua propriedade de 60 hectares, a 2,2 quilômetros da área sondada pela CRVR, se converteu em uma das principais lideranças da mobilização e ressalta que o risco de contaminação da água assusta. “Nossas cacimbas, com dois metros de profundidade, produzem água limpa, potável. Temos que preservar isso”, disse.
Para apurar a necessidade de um aterro sanitário na região, Deborah e outros integrantes do movimento viajaram até Candiota para visitar o aterro, que recebe o lixo da Zona Sul, e conferir se a área está realmente esgotada. O grupo também foi a Rio Grande checar se há interesse do município em receber o projeto.
“Em Candiota, fomos informados de que vão fechar uma célula em seis meses, porém há mais espaço para, aproximadamente, 40 anos de operação. É uma inverdade usar isso como argumento para justificar esse empreendimento no Capão. Em Rio Grande, o secretário de Meio Ambiente nos confirmou que a cidade não quer um novo aterro”, contou.
A arrecadação gerada pela agropecuária também é usada como argumento contra a iniciativa. “É inviável colocar um aterro sanitário no meio de uma comunidade de agricultores, sendo que 53% da arrecadação do município é da agricultura e 15% das agroindústrias. Essa empresa pode gerar uma arrecadação, pelos cálculos que se fez, em torno de R$ 7,2 milhões por ano, mas a agricultura rende R$ 65 milhões. A conta não fecha”, declarou.
Pressão sobre a base do governo
A falta de representantes do Executivo na audiência gerou reclamações da plateia, que pressionou os vereadores da situação André Porto (PP), Júnior Gomes (MDB), Paulo Ávila (MDB) e a presidente do Legislativo, Fernanda Ribeiro (PP), a assinarem a minuta do projeto que será protocolado na Câmara na próxima semana. Também participaram os vereadores Lelei Quevedo (PSDB), Edmar Barros “Thyzyu” (PDT) e Professora Gil (PT).
“Meu posicionamento é estar junto com a comunidade, e a comunidade não quer o aterro. Hoje, há a sondagem de um espaço, mas os representantes da empresa foram claros ao falar que, se não houvesse consenso na comunidade, eles não levariam a ideia adiante”, disse Fernanda.

A participação expressiva na reunião animou os líderes do movimento, que aguardam uma manifestação do prefeito Vilmar Schmitt (PP). “Esperamos uma posição do prefeito, pois ele tem que dizer que não quer essa empresa aqui no Capão do Leão. Caso isso não aconteça, essa mobilização vai seguir, vamos para as ruas e continuar mobilizados”, declarou Deborah.
Prefeito chama reunião
O prefeito Schmitt prepara, para a segunda-feira (31), uma reunião com representantes de entidades de classe, conselhos municipais e comunidade para esclarecer a situação em torno do assunto.
“Existe somente uma especulação da empresa em torno de áreas na região e no município, mas alguns querem se beneficiar politicamente, criando pânico na sociedade sobre algo que não existe. Após a reunião de segunda-feira, o prefeito irá se manifestar sobre a posição e decisão de tocar ou não esse empreendimento adiante”, disse o vice-prefeito Jéferson Antuarte (PSD).



