
Sendo um símbolo de resistência à escravidão e do enfrentamento ao racismo, o Dia Nacional do Zumbi e da Consciência Negra é celebrado no dia 20 de novembro. Oficializado como feriado nacional em 2023 pela Lei 14.759, sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o dia faz referência à morte de Zumbi dos Palmares, líder do maior quilombo da América Latina. Em Pelotas, o legado dos povos africanos é refletido na cultura e economia, o que causou influências nas tradições locais, como a produção doceira, a arquitetura e as manifestações culturais.
Zumbi lutou contra a escravidão no Brasil colonial, tendo assumido a liderança do Quilombo dos Palmares entre 1678 e 1680. Após a queda do quilombo em 1694, foi capturado e morto em 20 de novembro de 1695. A data foi instituída no Brasil em 2011, durante o governo de Dilma Rousseff (PT), mas o feriado nacional foi celebrado pela primeira vez em 2024.
A importância deste dia vai além de um marco histórico de resistência, sendo também uma oportunidade para refletirmos sobre a contribuição dos povos africanos na formação da identidade cultural, social e econômica do Brasil. Entre muitos outros, o município de Pelotas possui um rico legado desses povos e suas lutas, os quais foram cruciais para o desenvolvimento da Princesa do Sul.
A socióloga Carla Ávila destaca que os conhecimentos e tradições africanas foram cruciais para a construção de Pelotas, especialmente nas áreas de engenharia, arquitetura e produção. “Temos nossa tradição doceira, nossa grande relação com os orixás, na relação do sal e do açúcar, da forma de produção, que está relacionada a uma cosmologia africana”, explica.
Durante o período colonial, o município era um importante polo de produção de charque, tendo recebido um grande número de escravizados para suprir a mão de obra. A vinda desses povos sequestrados de seus locais de origem causou grandes impactos culturais, sociais e econômicos no município.
Além da grande influência nas tradições do município, os povos trouxeram também suas próprias manifestações culturais através da música, dança e religiosidade. Segundo Daniel Amaro, coreógrafo e produtor artístico de dança afro, esses elementos culturais estão diretamente conectados. “Existe uma influência forte. Seja da Umbanda, Candomblé ou do Batuque, que é uma religião muito parecida com o Candomblé e só existe no Rio Grande do Sul. […] A dança é uma arte que tem uma influência dessa religião. Ela não é religião”, explica.
Amaro fundou a Companhia de Dança Afro Daniel Amaro para atender a demanda de dança afro no sul do Estado. Embora essa prática já existisse, a proposta era integrar a dança afro contemporânea, que mistura funk, samba e outras danças. O grupo oferece aulas gratuitas e cobre custos de figurino e viagens. No início, a companhia tinha pessoas brancas como maioria entre seus integrantes. “Muitas pessoas questionavam isso. Eu não questionava e nem questiono porque a dança é para todos”, afirma Amaro. Esse cenário mudou ao longo do tempo, o que, para o coreógrafo, está muito ligado à identificação das pessoas com sua própria cultura. “Como no Brasil nunca foi divulgada a cultura afro-brasileira como algo de qualidade, algo bom, os negros tinham vergonha de se assumir. Mas, hoje, na companhia, os bailarinos são todos pretos e têm uma grande identificação e pertencimento à sua cultura”, relata.
Essa questão de identificação e apagamento da cultura e conhecimentos desses povos também são pautados pela socióloga Carla, sendo um fruto do racismo estrutural. Para o coreógrafo, os feriados e leis de inclusão são uma maneira de conseguir mais visibilidade, tais como o Dia Nacional da Dança Afro, comemorado no dia 18 de agosto, e a Lei 10.639, que inclui a história dos povos indígenas e afro-brasileiros nas redes de ensino. “Quando essa lei for respeitada e cumprida, com certeza será muito mais fácil para as pessoas entenderem e serem antirracistas”, garante.
Apesar de ter enfrentado preconceito no início, a companhia de Amaro, que completa 24 anos de existência, é hoje um símbolo de resistência e profissionalismo. “Todo o produto prestado pela companhia é de alto nível e por isso a gente consegue romper barreiras”, explica. “A gente sempre costuma dizer que a companhia ajudou e ajuda a fortalecer essa pauta, de que a cultura negra em Pelotas existe e que ela está nas periferias, e que essas periferias têm que ser vistas”, conclui o coreógrafo.



