
Por Daniela Alves e Samantha Beduhn
Comemorado em 25 de junho, o Dia do Imigrante surgiu no Brasil em 1957 e celebra todas as formas de contribuição imigrante adquiridas ao longo dos séculos no impulsionamento social e econômico do país. Historicamente reconhecido por sua área de colonização açoriana, francesa, italiana e alemã, o Rio Grande do Sul, mesmo após tantos anos, manifesta de diversas maneiras as culturas que chegaram até suas terras, mantendo-as vivas através de festas tradicionais, comidas típicas, prática da língua nativa e histórias contadas às gerações mais novas.
Em Pelotas, a representação imigrante dá-se em grande parte pela presença das regiões coloniais, localizadas na encosta da Serra do Sudeste e da Serra dos Tapes, locais fortemente valorizados pela Agricultura Familiar e pelo turismo rural. Ainda assim, não compostos apenas de belos cenários, cada membro dessas comunidades carrega uma história que detalha as origens da formação de um Rio Grande do Sul que vem servindo de lar para todos aqueles que precisaram deixar seus berços de origem.
Localizado na Praça 1º de Maio, nas Três Vendas, o Monumento do Colono é uma obra de Antônio Caringi, considerado o mais importante estatuário do Estado, e foi instalado em 1958, em forma de celebração ao centenário da colonização alemã na região.
O que poucos sabem é que o homem que dá rosto ao monumento, apresentando-se com postura firme que simboliza um pedaço de tudo aquilo que o imigrante necessitou para formar uma vida longe de sua terra, é um componente importante no que forma a história de Pelotas e região.
Almiro Buss, à época subprefeito distrital e, posteriormente, vereador de Pelotas e prefeito de Arroio do Padre, foi o modelo que inspirou a escultura de bronze. Em entrevista ao JTR, Ursula Coswig Buss, filha de Almiro, contou um pouco mais sobre a história da família descendente de imigrantes alemães. “É uma história muito linda da qual eu tenho muito orgulho. É uma história de políticos e de pessoas que se envolvem há várias gerações em atividades culturais, educativas e da área da saúde”, contou.
Entre os valores pregados pela família, Ursula destacou o constante trabalho de valorização, principalmente, da educação e dos bons princípios. “Precisávamos estudar, precisávamos ter uma profissão para depois ganhar dinheiro. Então, ganhar dinheiro não era uma prioridade na minha família. Antes disso, vinham outras coisas muito maiores, que era a questão dos valores, que era a questão do conhecimento, que era a questão de coisas ligadas à sabedoria, coisas ligadas a comportamentos, a ser uma pessoa reta, justa, com princípios cristãos. Isso era uma coisa de muito mais valor do que propriamente o fato de ter dinheiro. Isso não circulava na família, não circulava como uma exigência”, relatou.
Atualmente, as motivações da imigração, como no passado, permanecem atreladas a busca de melhores condições de vida, tais como oportunidades de emprego, estudos e pesquisa, além de haver um forte fator de influência vindo das comunidades imigrantes no estado, que por vezes, acabam facilitando a socialização destas pessoas.
Dados do Novo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) indicaram que 2023 foi o ano com o maior número de imigrantes contratados no mercado de trabalho formal do Rio Grande do Sul. Em um comparativo, o painel de informações do Novo Caged com ajustes declarados até abril deste ano mostra que, em 2024, 6.041 imigrantes foram encaminhados para vagas de serviço formal, enquanto durante o mesmo período, em 2023, 4.365 haviam passado por este encaminhamento.
Como um exemplo das motivações para que se construa a vida em outra pátria, Jaime Bornacelly Castro, doutor em Memória Social e Patrimônio Cultural pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel), é natural de Medellín, na Colômbia, e veio para o Brasil em 2019, buscando realizar o doutorado. “Me sinto em casa, me sinto no meu território. Sinto amor e dor tanto pela Colômbia quanto pelo Brasil. Amar é uma construção que requer tempo e disposição. Mais de cinco anos, somados a quem sabe quanto mais dos outros séculos em que vivi aqui, é um bom tempo para construir um amor profundo com enraizamento”, declara Bornacelly, que acredita ter vivido por este mesmo pampa em outras vidas.
O doutor conta que o sonho de viver no Brasil era da esposa e que ele apenas a acompanhou na jornada, sendo surpreendido ao ganhar uma bolsa acadêmica da Organização dos Estados Americanos (OEA). Vindo sozinho ao Rio Grande do Sul, Bornacelly já tinha amigos, conhecia Pelotas e sua dinâmica quando a esposa chegou, seis meses depois.
“A pampa é nostálgica e a pampa no inverno é melancólica, e essa saudade tem tudo a ver com o passado, com a lembrança, com a reflexão sobre a identidade. Aqui o tempo passa mais lentamente […] Medellín e sua área metropolitana são mais velozes, barulhentas, frenéticas, impulsivas, e isso é muito significativo e importante para mim, já que a relação com o tempo aqui é muito distinta e está relacionada com as tradições, a memória e o patrimônio”, destaca Bornacelly sobre as principais diferenças encontradas entre as duas regiões em que construiu sua vida. Dentre elas, o colombiano cita ainda o fato de o Brasil ser mais institucionalizado que sua terra natal, por sua vez, ressaltando ter sentido falta do compromisso com a cidadania comumente mostrado pelos conterrâneos.
Pelotas também acolhe migrantes
Em 2021, Pelotas recebeu o selo MigraCidades, que faz parte da Organização Internacional para as Migrações (OIM), a agência da Organização das Nações Unidas (ONU) para as Migrações, e da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Este selo reconhece que o município está comprometido a atender da melhor forma os fluxos migratórios. “Então, a partir desse programa, é preciso cumprir certas etapas como diagnósticos com levantamento de dados de quantos imigrantes têm em Pelotas, quantas pessoas acessaram tal serviço”, explica a coordenadora do Comitê Municipal de Atenção aos Migrantes, Refugiados e Apátridas, Esmeralda Farias. Ela diz que foi a partir do MigraCidades que foi criado o Comitê. Entretanto, houve uma pausa temporária nas atividades.
O Comitê foi retomado em 15 de abril de 2024 e integra o programa Pacto Pelotas pela Paz, um conjunto de estratégias com objetivo de diminuir a violência e promover a paz na cidade. Ao todo, são cerca de 23 membros (box) que auxiliam os migrantes a se estabelecerem na cidade. De acordo com Esmeralda, um folheto será distribuído na Rodoviária e no Aeroporto com orientações iniciais para o migrante saber onde está e como proceder. O objetivo é auxiliar os migrantes a suprirem suas necessidades, sejam elas de hospedagem, alimentação, questões jurídicas ou de assistência social. Esmeralda explica que essa é a primeira fase da retomada.
Ainda não existe nenhum dado sobre quantos migrantes e de onde eles vêm, mas o Comitê está organizando um diagnóstico que também irá contribuir para um melhor atendimento a essas pessoas. Isso ocorre porque os migrantes chegam de diferentes formas e, também, por conta de outras cidades que não possuem estrutura para recebê-los e os encaminham para Pelotas. Os migrantes costumam chegar principalmente pela Rodoviária e podem usufruir da Casa de Passagem por 24 horas e também são encaminhados ao Restaurante Popular.
Pelotas faz parte da Rede Nacional de Cidades Acolhedoras (RNCA) desde novembro de 2023. Isso significa que a cidade defende a dignidade humana, promove o acesso a serviços públicos para migrantes, refugiados e apátridas, e repudia a xenofobia, o racismo e outras formas de discriminação.
Programa Português para Estrangeiros
A UFPel conta há sete anos com o programa Português para Estrangeiros (PPE), ligado à Pró-Reitoria de Ensino. A prática surgiu com o objetivo de ter uma política dentro da Universidade para atender os estrangeiros que estudam na UFPel e, também, os imigrantes e refugiados que chegam em Pelotas. O PPE é totalmente gratuito, o aluno não precisa pagar nem pelo material didático da prova Celpe-Bras. “O intuito é democratizar a nossa língua para ela não ser um empecilho, que não seja uma barreira para o imigrante”, explicou a coordenadora do PPE e diretora do Centro de Letras e Comunicação da UFPel, Vanessa Doumid Damasceno. Segundo Vanessa, já foram atendidas cerca de 300 pessoas, principalmente espanhóis.

O PPE busca atender as demandas de seus alunos como, por exemplo, se um imigrante precisa fazer uma entrevista de emprego ou vai trabalhar em uma área específica. O vocabulário nessas áreas é mais reforçado durante as aulas. Além disso, o PPE engloba outros cursos como a cultura brasileira para auxiliar o imigrante a entender melhor o Brasil, conhecer com profundidade os costumes e se sentir mais confortável no convívio. A dinâmica para que as aulas aconteçam é encontrar uma língua em comum para melhor entendimento entre aluno e professor.
O curso de português é realizado em conjunto ao calendário acadêmico da UFPel. Entretanto, o curso específico para a prova Celpe-Bras é contínuo. “Porque a gente pensa que é uma responsabilidade nossa para prepará-los para uma prova”, explica Vanessa sobre a importância do exame de proficiência em língua portuguesa para estrangeiros. Com o certificado de Celpe-Bras, o imigrante tem chances de ingressar em instituições que exigem o domínio da língua. O exame conta com avaliações de compreensão e produção oral e escrita.
As inscrições para o curso “Familiarização com o Exame Celpe-Bras” estão abertas até o dia 2 de julho e são gratuitas, assim como o curso. As aulas serão às sextas-feiras, das 15h às 17h, no Campus II, com início a partir do dia 5 de julho. As inscrições são on-line pelo formulário https://forms.gle/kyCchXcaT7XTs48j9. Em caso de dúvidas, entre em contato pelo e-mail [email protected].
Membros do comitê
- Assessoria Especial do Pacto Pelotas pela Paz;
- Secretaria Municipal de Saúde;
- Secretaria Municipal de Educação e Desporto;
- Secretaria Municipal de Assistência Social;
- Secretaria de Habitação e Regularização Fundiária;
- Secretaria Municipal de Segurança Pública;
- Secretaria de Desenvolvimento, Turismo e Inovação;
- Secretaria Municipal de Cultura;
- Grupo de Pesquisa em Políticas Migratórias e Direitos Humanos da Universidade Católica de Pelotas (Gemigra/UCPel);
- Clínica de Atendimento Jurídico a Imigrantes e Refugiados da Universidade Católica de Pelotas (CAJIR/UCPel);
- Curso de Relações Internacionais da Universidade Federal de Pelotas (UFPel);
- Programa Português para Estrangeiros da UFPel;
- Fundação Gaúcha do Trabalho e Sistema Nacional de Emprego;
- Defensoria Pública da União;
- Polícia Federal;
- Ordem dos Advogados do Brasil (OAB);
- Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE);
- Cáritas Arquidiocesana de Pelotas;
- Conselho Tutelar do Município de Pelotas;
- Fórum dos Conselhos Municipais;
- Defensoria Pública do Estado do Rio Grande do Sul;
- Ministério Público Federal;
- Ministério Público do Estado do Rio Grande do Sul.
Diferença entre migração e imigração
- Migração é a mudança realizada por um indivíduo, grupo ou animal de um lugar para outro;
- Imigração é o movimento de entrada de pessoas em um país estrangeiro para estabelecimento de residência. Essas pessoas são imigrantes;
- Emigração é o movimento de saída de pessoas de um país. Esses indivíduos são emigrantes;
- A migração ocorre em nível de país ou de região e pode ser aplicada à pessoas e animais;
- A imigração se dá em nível de país e pode ser aplicado somente à pessoas;
- A emigração se dá em nível de país e também só pode ser aplicado à pessoas;
- Migração significa ir de um lugar para outro;
- Imigração significa se mudar para outro lugar;
- Emigração significa se afastar.



