
Por Daniela Alves e Julia Barcelos
Para explicar o evento climático das enchentes no Rio Grande do Sul, especialmente a situação na região de Pelotas, é preciso entender um pouco sobre o funcionamento dos cursos d’água do Estado. Dessa forma, o JTR conversou com especialistas que estão na linha de frente na Sala de Situação, trabalhando em áreas como meteorologia, hidrologia, engenharia cartográfica e modelagem matemática.
Começando com as explicações, o hidrólogo e professor da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Samuel Beskow, detalhou sobre os cursos d’água e as bacias hidrográficas no RS. Uma grande parte dos cursos d’água do RS desaguam na Laguna dos Patos. Em seguida, as águas desembocam no oceano, em Rio Grande, onde a Laguna encontra o mar.
Essa situação pode ser visualizada no mapa (foto abaixo) no qual temos os rios da parte vermelha desaguando no Lago Guaíba, em Porto Alegre. Após passarem pelo lago, as águas seguem para a Lagoa dos Patos, onde outros rios e arroios também desaguam. O Canal São Gonçalo interliga a Lagoa Mirim e a Lagoa dos Patos. A Lagoa Mirim, por sua vez, recebe água de vários cursos d’água, entre eles, o Rio Jaguarão e outros do lado uruguaio.

Com as fortes chuvas do último mês, o solo se encontra muito encharcado. Dessa forma, qualquer volume pluvial adicional tem dificuldade de ser absorvido pelo solo. Assim, a tendência é que essa água seja escoada pela superfície e direcionada para os canais.
Segundo a engenheira cartógrafa e professora da UFPel, Diuliana Leandro, a região é muito plana. Em função disso, surge a necessidade dos diques de contenção, já que em alguns pontos a altitude da área urbana é mais baixa do que o nível do Canal São Gonçalo, tornando os locais mais suscetíveis a inundações.
Outro ponto analisado pelos especialistas é o vento, uma vez que sua direção e intensidade interferem na movimentação das águas dos canais e, consequentemente, no escoamento delas. Os ventos desfavoráveis para Pelotas são o leste e o sudeste, que impulsionam as águas para a margem da cidade. “Eles empurram as águas da Lagoa para a margem oeste, empilhando a água, produzindo ondas, dificultando a saída do São Gonçalo e também jogando a água da lagoa para dentro da praia”, explica o meteorologista Henrique Repinaldo. Há também ventos que são bons para Pelotas, mas ruins para outras localidades, como o oeste e noroeste que jogam as águas para costas de outras cidades, como Mostardas.
Previsão para Pelotas
O recorde nos níveis do Canal São Gonçalo foi atingido na segunda-feira (27), chegando a 3,13 metros. Tamara explica que o principal responsável por essa elevação foi o vento leste, o qual tende a provocar aumento do nível da Laguna nas margens de Pelotas. Com a elevação da Laguna, o Canal São Gonçalo se eleva também.
Ainda na segunda, o vento mudou para noroeste em uma velocidade acima dos 40km/h, fazendo as águas avançarem em direção ao Canal da Barra, em Rio Grande. Porém, essa queda parou de ser apresentada já na terça-feira (28), com a mudança dos ventos para direção sudeste. “A expectativa é de que, enquanto esse vento permaneça, vamos continuar tendo uma elevação dessas águas, na lagoa e, por consequência, no canal”, explica a hidróloga.
Por outro lado, a previsão é de melhora nas condições meteorológicas. Desde terça-feira (28), a região passa por um novo período composto por ventos calmos e chuvas amenas. Apesar dos ventos ainda variarem em sentidos, eles devem permanecer em velocidades baixas, permitindo que as águas corram seu curso natural em direção ao oceano. Além disso, a previsão de pouca chuva é bastante positiva, uma vez que estamos enfrentando chuvas intensas em localidades variadas do Estado desde o final de abril, água que consequentemente escoa para a Lagoa dos Patos.
Segundo Repinaldo, a previsão é de que esse cenário sem chuva continue até sábado (1º), podendo apresentar uma leve precipitação no domingo (2). “Deveremos entrar em uma condição mais controlada, em que o Canal São Gonçalo e a Lagoa dos Patos devem fluir livremente até o oceano. Há uma tendência de estabilidade e de os níveis baixarem aos poucos”, afirma o meteorologista.
Quanto à normalização da situação das cheias em Pelotas, os pesquisadores não conseguem estimar uma data precisa porque o nível do Lago Guaíba ainda se encontra acima de sua cota de inundação. Além disso, a Lagoa dos Patos também está recebendo um grande volume de água da Lagoa Mirim. Essa cheia se deu devido ao grande volume de chuva no início da semana na região da bacia do Rio Jaguarão. A precipitação deixou os cursos da localidade em estado de inundação e toda essa água deve escorrer para a Mirim.
O lado positivo, segundo Tamara, é que boa parte desta água tem saído pelo Canal da Barra. Dessa forma, a tendência é chegar em um momento em que o volume que está sendo escoado para o oceano será maior do que o volume que está entrando na Lagoa dos Patos. “Essa é a nossa perspectiva, aproveitar as condições meteorológicas favoráveis para nós para conseguir drenar essa água. Porém, novamente, isso deve demorar. A água não voltará ao seu estado natural em dias, vai levar um tempo”, completa.
Esse cenário positivo na meteorologia resultou na alteração no mapa de risco na noite de quarta-feira (29). Nessa atualização, permanecem em vermelho as áreas alagadas, como a Z3, parte do Laranjal, a costa do Arroio Pelotas e áreas próximas ao dique da Estrada do Engenho. Porém, outras localidades que estavam em vermelho passaram para laranja, bem como algumas regiões saíram do mapa de risco.
Lembrando que vermelho significa “área de risco”, é desaconselhado que as pessoas estejam nessas áreas. Já o laranja, informa que é possível permanecer no local, porém é preciso permanecer em alerta.
Até o fechamento desta edição, tanto o Canal São Gonçalo quanto a Lagoa dos Patos se encontravam estáveis, mesmo que em altos níveis. Na madrugada até a manhã, os níveis variaram entre 2,88m e 2,90m no São Gonçalo; e entre 2,28m e 2,33m na Lagoa.
Meteorologia
No ponto de vista meteorológico, os especialistas detalham que os alagamentos e enchentes ocorreram em decorrência de um bloqueio no regime estacionário, evento que não acontece de forma isolada na América do Sul, mas que normalmente persiste por cinco ou seis dias de chuva em condições normais. “Esse bloqueio atual que já acabou, na verdade, é uma configuração que durou muito mais, 3x mais. Então, imagina chuva constante e chuva pesada. Essa chuva, esse sistema de bloqueio, a gente observa lá no (oceano) Pacífico, mas ele acaba influenciando aqui também, então fica tudo estacionado”, explica Repinaldo.
Como sistema de natureza conectada, meteorologistas e hidrólogos apontam que um evento se manifesta a partir do outro, declarando que, conforme previsões, tudo estava parado entre a umidade da Amazônia, uma vez que a maior floresta tropical do mundo carrega um grande índice de umidade para outros locais, como a região sudeste do Brasil, a região sul entre o Brasil, o Uruguai e a Argentina, seguindo o caminho dos rios voadores,
“Esse sistema estacionário fez com que ela canalizasse toda essa umidade sobre a nossa região, mais especificamente sobre o Rio Grande do Sul e o Uruguai, ficando ali por vários dias este canal todo de umidade. Óbvio que teria um transtorno desse tipo [enchentes], ou seja, é um sistema de bloqueio anormal, devido a quantidade de dias em que ele se manteve”, justifica o meteorologista.
Existem características geográficas e climáticas específicas do Rio Grande do Sul que tornam a região suscetível a enchentes?
Conforme André Nunes, professor do curso de meteorologia da UFPel, o RS está em uma região propícia ao encontro de massas de ar de diferentes características, o que acaba unindo a umidade que vem da Amazônia com as frentes frias da região. “Então, é por isso que a gente não tem uma época seca no Rio Grande do Sul. Aqui tem sempre chuva. Varia muito pouco na estação porque ou a gente tem umidade que vem da Amazônia, ou frente fria, ou ciclones que se formam no oceano. A gente sempre tem como se abastecer com a umidade”, disse o professor. Ele relata ainda sobre o fenômeno El Niño, que mesmo tendo encerrado seu período, sempre tem um delay (atraso) de influência por se tratar de um sistema oceânico.
Falta de informações
Trabalhando voluntariamente junto da Prefeitura de Pelotas desde o momento em que foi montada a Sala de Situação no 9º Batalhão de Infantaria Motorizado (9ºBIMtz) para monitoramento integrado do cenário de crise climática, a equipe de especialistas da UFPel, responsáveis pelas principais previsões em relação ao nível das águas da Lagoa dos Patos e do Canal São Gonçalo, destaca que o maior desafio encontrado no caminho foi a falta de informação. “Nós não temos dados para trabalhar de forma efetiva, para fazer um modelo funcionar com uma precisão adequada, a gente tem pouca informação. Então nós começamos primeiramente a identificar esses pontos de monitoramento”, comenta Tamara.
A especialista afirma que como ferramentas para monitoramento, havia na região do Trapiche do Laranjal uma única régua para medição da água da Lagoa, a qual não havia identificação de qual era o órgão responsável pelo seu monitoramento, enquanto no Porto, havia mais outra. Buscando formas de melhor apuração dos dados para que se pudesse ter uma orientação durante o evento, foram instaladas duas réguas na Colônia Z3 e mais uma no Trapiche.
Além dos profissionais citados na matéria, outros profissionais também participaram da conversa e dos projetos na Sala de Situação. Entre eles, há ainda: na área da meteorologia, André Nunes e Marcelo Alonso; e na modelagem matemática, Daniela Buske, Leonidas Baltazar e Régis Quadros. Houve ainda a participação do economista Rodrigo Fernandez e de discentes da UFPel no trabalho desenvolvido, uma vez que os profissionais são, em sua maioria, professores da instituição.



