
*Por Samantha Beduhn e Daniela Alves
Dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) apontam que o Transtorno do Espectro Autista (TEA) é caracterizado por determinado grau de comprometimento no comportamento social, na comunicação e na linguagem, e também por interesses e atividades específicas. Uma em cada 160 crianças tem diagnóstico de TEA, segundo a organização.
Em Pelotas, o Centro de Atendimento ao Autista Dr. Danilo Rolim de Moura (CAA) completou 10 anos neste mês. De acordo com a diretora, Debora Jacks, o local foi o primeiro no Brasil a ser vinculado à educação. No início, eram atendidos cerca de 58 crianças e jovens-adultos – atualmente são mais de 550 alunos. “Nós poderíamos ter mais atendimentos, mas, no momento, nos falta recursos humanos. Com mais profissionais, nós conseguimos atender um número maior de alunos.” relata Debora sobre a maior dificuldade que o Centro enfrenta atualmente.
Ao todo, o CAA conta com 32 salas de atendimento. É oferecida assistência desde a intervenção precoce, que vai do diagnóstico até os 6 anos. Após essa idade, a criança já vai à escola regular e passa a ter o atendimento educacional especializado no contraturno. Os alunos que não frequentam mais a escola têm atendimento psicopedagógico. Além disso, também são ofertados psicomotricidade, ludoterapia, educação física, arteterapia, tecnologia assistiva, terapia ocupacional e fonoaudiólogo. Em conjunto com a Universidade Federal de Pelotas (UFPel), os alunos têm consultas com nutricionistas. As famílias dos alunos com TEA também recebem atendimento psicológico parental.
Em uma das atividades desenvolvidas, os alunos montaram um quadro chamado “Autistas que inspiram”. Entre as personalidades, como Bill Gates e Albert Einstein, está também o Alexandre Henzel Barcelos (25), que é autista nível 1 de suporte e foi aluno do CAA. “Como aluno do Centro, eu tive uma ótima experiência. Eu aprendi bastante sobre mim e tive contato com a comunidade autista. Eu comecei a ter suporte na universidade e aprendi a estudar e a lidar com as minhas questões envolvendo o TEA. Eu consegui ter um auxílio no desenvolvimento na psicomotricidade e psicológico. O CAA foi um divisor de águas na minha vida e da minha família que aprendeu mais sobre mim e o TEA.” conta Barcelos.
Durante a pandemia, ele foi nomeado em um concurso que havia feito para a Prefeitura de Pelotas e começou a trabalhar no CAA. Hoje, ele equilibra o trabalho com os estudos na universidade – já que está cursando pedagogia. “É importante ressaltar que estar trabalhando me ajudou muito a lidar com as frustrações da faculdade, pois a universidade não era mais o centro do meu mundo, eu tinha outras ocupações. […] Eu aprendi muito trabalhando aqui, observo histórias de outras pessoas com TEA, o que me ajuda a me entender mais, e também fico feliz por poder contribuir positivamente nas suas histórias também. Eu fico feliz que muitas crianças gostam muito da minha presença, e os pais também. Eu ajudo as professoras e, ao mesmo tempo, aprendo com elas também”, afirma Barcelos sobre a experiência trabalhando no Centro.
Cordão de quebra-cabeça e de girassol
“O cordão é uma coisa importantíssima, porque ele identifica uma condição especial. Se ele for só de quebra-cabeça, a gente sabe que é autista. Mas ele pode ser de girassol, inclusive tem uns com quebra-cabeça de um lado e girassol do outro, o girassol também indica uma doença oculta.” explica Debora. Conforme a Lei Municipal 7.230/2023, de autoria do vereador Márcio Santos (PSDB) e sancionada pela prefeita Paula Mascarenhas (PSDB) no dia 28 de agosto do ano passado, o uso do cordão de identificação auxilia na inclusão social de pessoas com TEA ou outras condições ocultas em Pelotas. Geralmente, o cordão contém a carteirinha do autismo, garantindo que as pessoas com autismo e seus acompanhantes tenham prioridade no atendimento, conforme a legislação. Essa medida facilita a identificação durante interações sociais, como acesso a filas preferenciais, contribuindo para a rotina e o bem-estar tanto da pessoa com TEA quanto de seus familiares.
“A grande questão aqui é estar aberto, é buscar informação, é olhar para o outro com acolhimento, com empatia. Então, para tornar os espaços, a nossa cidade mais inclusiva, basta a gente começar pela gente. Porque exemplo é uma das coisas mais fortes que existem.” diz Debora sobre promover a inclusão de pessoas com TEA.
A peça do quebra-cabeça simboliza as dificuldades de compreensão enfrentadas pelas pessoas com TEA e foi produzida em 1963 por Gerald Gasson, membro do National Autistic Society em Londres.
Mais políticas públicas
Em âmbito nacional, é vigente desde 2012 a Lei nº 12.764, que institui a política nacional de proteção dos direitos da pessoa com Transtorno do Espectro Autista, determinando, portanto, que seu portador é considerado pessoa com deficiência para todos os efeitos legais, o que, na época de aprovação causou enorme mudança na maneira com que as pessoas com autismo eram vistas e tratadas na sociedade brasileira.
O Rio Grande do Sul, por sua vez, conta com a Lei Estadual n° 15.322/2019, que estabelece a política de atendimento integrado à pessoa com TEA, a partir do Programa TEAcolhe, destinado a garantir e a promover o atendimento às necessidades específicas das pessoas com autismo, visando o desenvolvimento pessoal, a inclusão social, a cidadania e o apoio às famílias.
Formado pelas equipes técnicas das Secretarias de Saúde, Educação e Igualdade, Cidadania, Direitos Humanos e Assistência Social, na Zona Sul, o Centro Regional de Referência (CRR) está localizado em São Lourenço do Sul, que fica responsável pelo atendimento de 20 municípios, juntamente com a macrorregional.
Locais e projetos de atendimento na região
São Lourenço do Sul
Programa TEAcolhe: Atuando em conjunto com os dispositivos de atendimento/ acompanhamento às pessoas com autismo, a partir da estratégia do matriciamento, o programa, conforme estabelecido em lei, atende aos casos graves, severos e refratários da Zona Sul. O atendimento ocorre de forma articulada com as redes locais do município de origem da pessoa com autismo, possibilitando a qualificação de equipes do território para lidarem com as necessidades destas pessoas e suas famílias de forma resolutiva.
Contato: [email protected]
Pedro Osório
Projeto Acreditar: As três escolas municipais têm salas de recursos de atendimento educacional especializado, e o município mantém parceria com o Projeto Acreditar. O projeto atende crianças e adolescentes com o espectro autista, através de atendimento multidisciplinar, sendo as crianças atendidas ou encaminhadas através de avaliação de orientador educacional nas escolas ou equipe médica pelas UBSs do município. A entrada no projeto se dá através desta avaliação e acompanhamento.
Telefone para contato: (53) 3255-1324
Endereço: Av. Alberto Pasqualine, 45
Jaguarão
Centro Especializado de Atendimento ao Autista: Através da implantação desse projeto foi ampliado o trabalho de atendimento ao TEA que já vinha sendo realizado pelas salas de recursos multifuncionais que oportunizam atendimento educacional especializado, ofertando assim, além dos atendimentos individualizados com a equipe técnico pedagógica do centro, um trabalho de acompanhamento e orientação parental, acompanhando profissionais de educação e garantindo suporte aos profissionais de apoio, com capacitações. O centro conta com visitas de acompanhamento às escolas, entrega de planos de intervenções, oficinas de trabalho, orientação parental e reuniões com a rede de apoio.
Telefone: (53) 98439-6454 – Silvana
Endereço: R. General Marques, nº 785, antiga escola Pio XII.
Carteira de Identificação da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista (Ciptea)
A Ciptea é um instrumento que visa garantir a atenção integral, o pronto atendimento e a prioridade no atendimento e no acesso aos serviços públicos e privados, em especial nas áreas de saúde, educação e assistência social, mediante a apresentação do documento pelo cidadão. O documento contém informações de identificação da pessoa com Transtorno do Espectro Autista, contato de emergência e, caso tenha, informações de seu representante legal/cuidador para trazer mais segurança e autonomia para os beneficiários do serviço, e pode ser obtido através do site: https://faders.rs.gov.br.



