
A chegada da vacina contra a Dengue no Brasil não elimina a necessidade de manter vigilância contra a doença. Assim como no restante do estado, Pelotas e Rio Grande estão em alerta para o crescimento nos casos de dengue. Já no primeiro mês do ano, foram registradas nove notificações de pacientes infectados com a doença em Rio Grande e 17 em Pelotas, cinco e 14 casos a mais do que o mesmo período do ano passado, respectivamente. Secretarias de Saúde dos municípios garantem seguir com os protocolos e ações para prevenção da doença.
Já no primeiro mês de 2024 foram registradas no Painel de Casos de Dengue RS, 6 notificações da doença em Rio Grande, das quais duas foram confirmadas e determinadas como autóctones, quando são contraídas no município, porém não estão inter-relacionadas. Outras duas ainda estão em investigação e as restantes foram descartadas.
Porém, segundo a secretária de Saúde do Rio Grande, Zelionara Branco, até o momento, há no município nove notificações, com resultado positivo para duas delas, quatro ainda estão aguardando o resultado e três foram negativadas. Até agora, foi identificado um foco do Aedes aegypti no Distrito Industrial.
A secretária ainda destaca que os casos investigados não tiveram relação entre si, ou seja, foram casos isolados que geraram risco de transmissão. A razão para essa diferenciação no número de registros entre município e Estado seria o fato de que os dados de dezembro demandam mais tempo para serem atualizados.
No ano passado, segundo dados do Painel estadual, o município do Rio Grande teve 68 notificações de suspeita da doença, tendo sido confirmado 16 casos e os outros 51 foram descartados. Além disso, sete entre os registros confirmados da doença foram autóctones.
Novamente, os dados da Secretaria de Saúde do Rio Grande apresentam uma diferença. De acordo com Zelionara, no ano de 2023 foram contabilizadas 75 notificações de suspeita de dengue. Destes, 18 pacientes foram positivados, sendo que 11 deles contraíram a doença fora do município e os sete foram autóctones. Além disso, em abril do ano passado, também foi registrado um caso autóctone de Chikungunya, doença que também é transmitida pelo mosquito Aedes aegypti e Aedes albopictus.
Enquanto isso, os dados de Pelotas de janeiro deste ano variam de acordo com a plataforma e diferem com os dados da Secretaria. Diferentemente do Rio Grande, há uma diferença nas informações apresentadas no antigo site para a exportação de dados referentes à doença, o Monitoramento de Arboviroses, e o novo site utilizado, o Painel de Casos de Dengue RS.
No antigo site, constam 12 notificações, das quais dez estariam em investigação e duas descartadas. Enquanto no mais atual, estão contabilizadas 10, sendo nove em investigação e uma descartada. No entanto, de acordo com informações da diretora da Vigilância em Saúde Aline Machado, até o momento foram indicados 17 casos suspeitos. Dentre eles, 11 estão em investigação, sendo que nove deles já realizaram a coleta sorológica. Em janeiro desse ano, foram identificados 12 focos de dengue, sendo cinco em residências.
Segundo informações do Portal estadual, no ano de 2023 foram registradas 205 notificações de possíveis casos da doença em Pelotas. Destas, 36 foram confirmadas, sendo 23 determinadas como autóctones. Outros 164 registros foram descartados, quatro foram inconclusivas e uma ainda estava em investigação. Não recebemos o retorno da confirmação desses números com a Secretaria de Saúde.
O cenário do município demanda atenção, tendo em vista que no mesmo mês do ano passado foram registrados apenas três casos suspeitos em Pelotas. Porém, Aline afirma que o município irá intensificar as ações de orientação sobre as doenças transmitidas pelo Aedes, visando a prevenção e, também, a eliminação dos criadouros do mosquito.
Em Rio Grande, ações preventivas também estão sendo realizadas. Em 2023, foram realizados quatro Levantamentos de Índices Rápido (LIRAa). Nesse ano, já foi realizado o primeiro, entre os dias 8 e 13 de janeiro, com estimativa de inspecionar 4,5 mil imóveis, que não encontrou focos. “Reforçamos para a população a importância em receber nossos Agentes, que estão identificados com uniforme da Vigilância Ambiental em Saúde e crachá contendo suas informações profissionais, pois o trabalho de vistoria e orientação é essencial para mantermos o controle do mosquito”, acrescenta.
Em caso de dúvidas, deve-se entrar em contato pelo telefone (53) 3233-7289, para ligações e WhatsApp. Já o e-mail para denúncias é [email protected].
Em Pelotas, caso algum sintoma se manifeste, como febre alta, dor de cabeça, dor nas articulações ou atrás dos olhos, e manchas vermelhas pelo corpo, a pasta recomenda procurar atendimento na Unidade Básica de Saúde (UBS) mais próxima e não usar medicamentos por conta própria. É indicado também o consumo de bastante água.
O que diz a Secretaria Estadual de Saúde
Quanto a discrepância entre os dados de notificações registrados nos sistemas do Estado e os disponibilizados pelas secretarias municipais, a Secretaria Estadual de Saúde explica que, devido aos municípios serem os executores das ações epidemiológicas de campo, eles podem utilizar de mecanismos de controle mais ágeis que os sistemas de informação. Enquanto isso, o Estado sempre utiliza os sistemas oficiais e aguarda a alimentação destes por parte dos municípios. A pasta ainda reforça que a notificação do município deve ser realizada na suspeita e, posteriormente, a ficha de cada paciente deve ser atualizada conforme o andamento da investigação.
Vacina e prevenção
Atualmente, há uma vacina preventiva contra a dengue, a Qdenga, desenvolvida pelo laboratório japonês Takeda Pharma. Inclusive, a primeira remessa desses imunizantes destinadas para o Sistema Único de Saúde (SUS) chegou no sábado (20). O governo federal recebeu cerca de 757 mil doses, lote que faz parte de um total de 1,32 milhão de doses.
O Ministério da Saúde (MS) anunciou na quinta-fera (25) a estratégia de vacinação contra a doença no país. O imunizante será aplicado no público-alvo – crianças de 10 a 14 anos, grupo que sofreu mais internações pela doença nos últimos anos – de regiões endêmicas da dengue, em 521 municípios a partir do mês de fevereiro. No entanto, nenhuma região de saúde do Rio Grande do Sul se encaixou nos critérios necessários para essa primeira distribuição da vacina.
Os critérios para a seleção consideram municípios de grande porte, com mais 100 mil habitantes; possuir alta transmissão da dengue no período 2023 e 2024; e maior predominância do sorotipo DENV-2. As doses serão distribuídas para 16 estados, mais o Distrito Federal.
De acordo com o MS, a definição de um público-alvo e regiões prioritárias para imunização fez-se necessária devido ao número limitado de doses fornecidas pelo fabricante. Outra remessa, de mais de 568 mil doses, está prevista para fevereiro. Para 2025, a pasta já contratou 9 milhões de doses. O Brasil é o primeiro país no mundo a oferecer a Qdenga no sistema de saúde pública.
Outras variantes da vacina também estão sendo desenvolvidas no Brasil pelo Instituto Butantan. No centro de pesquisa da clínica do Hospital Escola da Universidade Federal de Pelotas (HE-UFPEL), estão em processo dois protocolos de pesquisa, sendo um de fase 3, com a vacina do Butantan já em fase de finalização; e um segundo protocolo da Merck Sharp and Dohme (MSD) de uma vacina de fase 2, mais inicial que a do Butantan.
Segundo a médica infectologista no HE-UFPEL e professora adjunta na UFPel, Danise Senna, a chegada de um imunizante com disponibilidade para aplicação em massa mudará completamente o cenário epidemiológico da dengue no país. “Em breve esperamos ter outras vacinas para dengue disponíveis para somar doses e esforços na vacinação da população brasileira”, acrescenta ela.
Mesmo com a futura liberação desses imunizantes para a população geral, Danise reforça que as ações de controle do mosquito e medidas de prevenção individuais continuarão importantes para a prevenção da doença. A principal medida é evitar a proliferação do mosquito, eliminando água parada ou suja acumulada em vasos de planta, no pátio de residências, em piscinas sem uso e manutenção, pneus velhos, garrafas plásticas e até tampinhas.
A Ministra da Saúde, Nísia Trindade, relembrou também durante a apresentação da estratégia de imunização que o enfrentamento à dengue deve ser uma soma de esforços do governo com a população e que continuará investindo na vacinação da população brasileira. O MS também reforça a importância de receber os Agentes Comunitários de Saúde para atuarem na eliminação dos criadouros do mosquito.



