
Apesar dos relatos de aumento no índice de vacinações em municípios da região sul em 2023, em relação a 2022, dados do Ministério da Saúde (MS) mostram um cenário contrário. Em sua maioria, os números registrados no sistema apontam queda nos municípios, principalmente nos registros da vacina BCG, que atingiu os 43,52% na região até outubro, último mês com dados disponíveis. Em todo o ano de 2022 foram 85,27%. A justificativa dos secretários e coordenadores de saúde é a dificuldade ao exportar os dados para o novo sistema do governo federal e a falta dos registros das vacinas de recém-nascidos pelas maternidades.
Avaliando os quatro municípios mais populosos da Zona Sul, sendo eles Canguçu, Pelotas, Rio Grande e São Lourenço do Sul, a partir dos índices disponibilizados pelo MS, com base nos Cálculos de Cobertura vacinal até o mês de outubro de 2023, com os dados contidos na Rede Nacional de Dados em Saúde, observa-se uma queda nos números de aplicação de imunizantes, especialmente da vacina BCG, em relação aos dados de 2022. Além desse imunizante, foram analisados os índices de vacinação de outros oito tipos: a DTP e Reforço 1º, a Tríplice Viral 1 e 2, a Pentavalente, a Poliomielite Injetável a Meningocócica C e a Pneumocócica 10.
A vacina da BCG, aplicada preferencialmente em recém nascidos ou bebês de até dois anos, foi a que mais sofreu reduções na cobertura vacinal. O imunizante teve uma queda de 41,75% na Região de Saúde 21 – Sul. Essa redução também é notada apresentando menor número de vacinações em Rio Grande (22,81%), seguido de São Lourenço do Sul (36,5%) e Pelotas (36,6%). O município que menos registrou queda nas vacinações foi Canguçu (-1,36%), vacinando 93,81% do público-alvo.
Problemas no registro de aplicações
Rio Grande é o município que mais chama atenção, pois o cenário de queda nas vacinações é visível em todos os imunizantes analisados. Segundo a enfermeira Valéria Risso, dirigente do Núcleo de Imunizações da Secretaria de Saúde do Rio Grande, os dados disponibilizados no portal do MS estariam desatualizados, já que o município possui um sistema próprio para registro dessas informações que são exportadas posteriormente para o sistema federal, processo que, segundo ela, por vezes é demorado.
Uma resposta para esse declínio na aplicação da BCG seriam os problemas no registro dessa vacina no Sistema de Informação do Programa Nacional de Imunizações (SI-PNI). Segundo a técnica de imunização da 3ª Coordenadoria de Saúde (CRS), Lusiana Larrossa, devido ao fato dessa vacina ser aplicada ainda na maternidade, diferentemente das demais que são realizadas em Unidades Básicas de Saúde, essas informações acabam não sendo computadas com tanta frequência, por estarem sob domínio das maternidades.
Ainda, a técnica de imunização menciona que essa a situação já é de conhecimento do MS, que promoveu um webnário em dezembro, reforçando a importância da inserção com precisão dos dados referentes às aplicações das vacinas da BCG e da Hepatite B no SI-PNI. “O webnário trouxe um passo a passo de como registrar corretamente cada dose administrada e a relevância desses dados para a saúde pública, bem como as boas práticas para garantir a eficiência do registro”, explica ela.
Em Pelotas, onde houve uma queda de 60,55% no número de aplicações da vacina, de acordo com os dados do MS, a explicação sobre a falta de registros se repete. A diretora da Vigilância em Saúde da Secretaria da Saúde (SMS), Aline Machado, explica que o sistema do Painel de Vacinação do Calendário Nacional está em construção. Assim, os dados relativos à vacina da BCG provavelmente não teriam migrado para o novo sistema.
A diretora ainda afirma que a Secretaria da Saúde já questionou junto ao Ministério da Saúde sobre o atraso na migração dos dados exibidos no site. “Para tanto, fizemos um levantamento manual de todas as doses de BCG aplicadas no município e já registradas”, explica ela. Nessa apuração da SMS, entre os meses de janeiro e dezembro de 2023, aponta-se que foram aplicadas 3.416 doses da vacina, número que é próximo dos 90% da cobertura.
Em São Lourenço do Sul, os dados do MS indicam uma queda de 40,66%, caindo para 36,05% da cobertura da vacina da BCG. Esse seria novamente mais um caso em que os dados referentes ao município ainda não foram completamente computados e exportados para o sistema. Segundo a coordenadora da Vigilância Epidemiológica de São Lourenço do Sul, Mariza Ferreira, apesar de ainda não possuírem os números concretos, ela afirma que a BCG possui um controle rigoroso em suas aplicações e que o município teria vacinado 100% dos recém-nascidos. Também informa que os dados completos devem ser exportados em breve para o sistema.
A coordenadora também garante que as demais vacinas também tiveram um acréscimo de demanda, porém ainda não atingiram o ideal de 95% de cobertura. Mariza destaca também as campanhas e ações realizadas no município para melhorar o acesso das pessoas à imunização, como a busca ativa através dos agentes comunitários de saúde, abertura das Unidades Básicas de Saúde em horário estendido, vacinação nos eventos de grande público e nos fins de semana, trabalho em conjunto com a Secretaria de Educação com visitas às escolas e chamada nas redes sociais e mídia local.
Porém, mesmo com os esforços nas campanhas de vacinação, a coordenadora ainda relata que os profissionais de saúde encontram resistência por parte da população devido às falsas notícias e desinformações sobre efeitos negativos das vacinas. “Mas continuaremos em 2024, com essas e outras medidas, até implantamos um Comitê de Vacinação para estudar estratégias para melhorar ainda mais nossa cobertura vacinal”, completa ela.
Outros imunizantes que sofreram redução mais expressiva em todos os municípios, menos em Canguçu, foram a primeira e segunda dose da Vacina Tríplice Viral e a Meningocócica C. Na Região de Saúde 21 – Sul, apesar do cenário positivo relatado por Lusiana, os dados do MS demonstram pequenas quedas nas aplicações das nove vacinas avaliadas.
Essa situação de queda na média geral da Zona Sul e individualmente nos municípios pode estar ligada ao fato de que os registros de 2023 são referentes até o mês de outubro, enquanto os dados de 2022 englobam até dezembro. Assim, as aplicações poderiam apresentar aumento até o final do ano. Outra explicação apontada por Lusiana, que confirma a situação relatada por Valéria em Rio Grande, seria a demora na migração dos dados dos municípios para o sistema, já que este foi atualizado recentemente, começando a operar no ano passado.
Por fim, a dirigente do Núcleo de Imunizações do Rio Grande afirma que a Campanha de Multivacinação no município apresentou um dos maiores percentuais da região. Além disso, confirmou que esses dados seriam apurados até o fim da última semana de 2023, em comparativo com os dados do MS, e exportados para o SI-PNI. A equipe também está avaliando o possível problema na exportação dos dados para a plataforma.
Zona Sul
Quanto a Zona Sul, a técnica de imunização da 3ª CRS afirma que, apesar dos dados registrados no MS, a região apresentou ótimos resultados, os quais trouxeram aumento nas coberturas da região. “Temos reunido com as Equipes de Imunizações dos municípios da região, discutindo as melhores estratégias para alcançar os não vacinados”, relata.
Esse crescimento relatado pelas enfermeiras é visto em Canguçu, onde apenas a vacina BCG demonstrou queda nas aplicações. Sendo o município que mais vacinou, ou registrou suas vacinações no novo sistema em 2023, o município superou as expectativas para público-alvo das vacinas DTP, Tríplice Viral 1, Pentavalente, Poliomielite Injetável, Meningocócica C e Pneumocócica 10.
Segundo o secretário da saúde de Canguçu, Eliezer Timm, esse crescimento é resultado de uma comissão para a campanha de vacinação no município, elaborada pela Secretaria de Saúde em parceria com o Rotary Clube Canguçu, as secretarias de Assistência Social e de Educação, o Conselho Tutelar e a Brigada Militar. “O que fizemos de diferente neste ano foi uma premiação. Todas as crianças que colocavam sua carteira de vacinação em dia ou apresentassem sua carteira já completa, ganhavam um bilhete para concorrer a prêmios”, explica ele.
Foi realizado o sorteio de seis bicicletas de aro 18, seis de aro 12 e seis fones de ouvido Bluetooth. Sorteados para três meninas e três meninos em cada uma das três categorias. Para Timm, a união e o esforço das entidades foi o responsável primordial para a melhor divulgação da campanha e, consequentemente, da procura pelas vacinações. “Utilizamos de fantasias de personagens famosos para ir às escolas falar sobre a vacinação, fizemos carreadas pelo município, divulgamos também numa feira realizada pelo Sindicato Rural. Aproveitamos a campanha de multivacinação, então tínhamos todas as vacinas e aproveitamos para fazer essa conferência nas cadernetas”, adiciona.



