Colheita do arroz se aproxima do fim na Zona Sul

Expectativa é que toda a produção esteja colhida até a metade de maio na regional Sul do IRGA. (Foto: Freepik)

A colheita do arroz, safra 2022/2023, na Zona Sul está perto de ser finalizada. A informação é do coordenador regional do Instituto Rio-grandense do Arroz (Irga), engenheiro agrônomo Igor Kohls. De acordo com ele, condições do tempo mais favoráveis permitiram que a colheita do grão registrasse uma boa evolução em abril. Kohls estima, apesar da condicionante climática, que até a metade de maio toda a produção deva estar colhida nos 11 municípios produtores que compõem a Regional, a segunda maior do estado – atrás apenas da Fronteira Oeste.

Até o fechamento desta edição, a Zona Sul havia colhido 92% da safra, equivalente a 126.582 hectares de um total de 137.583 ha da área semeada. A região produtora que registrava maior atraso até o dia 21 deste mês era a Central, com apenas 78,45% da área colhida (87.904 hectares de um total de 112.051 ha).

O avanço da colheita na região foi impulsionado sobretudo por Santa Vitória do Palmar, município com maior área plantada. Em relação à produtividade, o coordenador regional do Irga crê em índices similares aos da safra passada (21/22), considerada pelos produtores como uma das melhores da série histórica. Ele prefere aguardar o fim da colheita, previsto para a segunda semana de maio, para falar em números. Mas reforça boas perspectivas de produção na atual safra. “Área perdida não tivemos”, afirma.

No entanto, admite que a estiagem trouxe problemas para o setor. Nas regiões próximas a mananciais, como a Lagoa dos Patos e o canal São Gonçalo, a qualidade da água para irrigação sofreu com a salinização. Algumas lavouras chegaram a ficar 40 dias sem ser irrigadas – a chamada irrigação intermitente, o que não é recomendado. Uma situação que afeta a produtividade, mas não ameaça com perda total.

De acordo com Kohls, a colheita da safra 2022/23 já era para ter sido finalizada. Segundo ele, o atraso se deve principalmente pelas condições climáticas adversas que atingiram a área cultivada em setembro do ano passado. Essa produção era esperada para ser colhida já em fevereiro.

“Até 90% da colheita costuma ser rápida, a partir daí produtores, sobretudo os maiores, começam a migrar o maquinário para a lavoura de soja e a colheita do arroz sofre um certo atraso, mas em poucas semanas, se não chover ou se chover pouco, a colheita deverá estar concluída”, afirma.

El Niño
Até o momento o Irga não trabalha com a possibilidade de El Niño para a próxima safra. A ocorrência do fenômeno, que aquece as águas do Oceano Pacífico na costa Oeste da América do Sul (principalmente no litoral do Peru) e traz chuvas em excesso para o Sul do continente, ao contrário do La Niña, que provoca estiagem, tem sido alertada pelos institutos de meteorologia.

Conforme Kohls, dados mostram que normalmente “não se pula” de um fenômeno para o outro. “Esperamos um ano neutro, dentro das normalidades climatológicas”, disse. No entanto, caso o El Niño se faça presente na próxima safra, o coordenador regional do Irga diz que, para colher, o fenômeno não é prejudicial. O que preocupa é a baixa luminosidade no período reprodutivo do grão, com menos horas de luz solar – situação que pode implicar baixa produtividade.

Federarroz aposta em boa produtividade
O presidente da Federação das Associações de Arrozeiros do Rio Grande do Sul (Federarroz), Alexandre Velho, também acredita em bons índices de produtividade na atual safra – não apenas na Zona Sul, mas nas demais regiões produtoras (seis no total). A alta incidência de luminosidade no período reprodutivo deve se materializar em números expressivos. O líder do setor, no entanto, reconhece que a seca não é completamente favorável.

A falta d’água e a alta temperatura atingiram negativamente a maior região produtora do RS, a Fronteira Oeste, especialmente nos arredores de Uruguaiana – problema, ainda assim, localizado. “Os produtores que não tiveram problemas hídricos, felizmente a maioria, registram boa produtividade – acima do ano passado”, comemora.

Aspecto positivo que, no entanto, não é capaz de amenizar problemas que o setor orizícola enfrenta a cada safra. A diminuição da área plantada é o maior deles. Na última (2021/22) foram plantados 957.185 hectares. A atual é ainda menor – 839.972 ha. Fenômeno que se repete há mais de uma década, segundo Velho. De acordo com ele, o Rio Grande do Sul perdeu desde 2010 mais de 300 mil hectares de arroz. A tendência, admite o presidente da Federarroz, é de continuar encolhendo.

Dois seriam os principais motivos: a baixa rentabilidade e o aumento do custo de produção – 60% em dois anos. “A lavoura de arroz está muito cara, [o produtor] tem que desembolsar até R$ 16 mil por hectare, o que o obriga a buscar alta produtividade para bancar o custo de produção”, explica.

A solução passa pela soja. O grão que tem mercado futuro, o custo de produção cai pela metade quando comparado ao do arroz e dá ao produtor uma margem de segurança maior, além de trazer benefícios à própria propriedade, já que aumenta a fertilidade do solo e, de quebra, protege o arroz contra pragas.

Esta solução, do produtor multissafra, o que inclui ampliar o portfólio com o cultivo de culturas como a da soja e do milho, além da pecuária, não por acaso dominou a programação da última Abertura da Colheita do Arroz, em fevereiro passado, na Embrapa Clima Temperado, em Capão do Leão.

Porém, se para o produtor a alternativa passa por diversificação, para a sociedade a valorização da cultura do arroz é permeada pelo debate político. Velho lembra que grandes centros consumidores localizados na região Sudeste, como Rio de Janeiro e Minas Gerais, zeram imposto sobre o arroz importado proveniente de países do Mercosul. O principal impacto desta medida se reflete na perda de competitividade da indústria orizícola gaúcha, que já somou 300 unidades e hoje não passa de 140.

“Sei que é um tema complexo, passa por consumo, produção, exportação e câmbio, mas o governo [Estado e União] tem que estabelecer políticas que diminuam o custo de produção para que o arroz volte a ser atrativo”, argumenta Velho. Para ele, numa ponta, desonerar o setor e superar a questão tributária para garantir maior produtividade; na outra, adotar medidas contra a concorrência “desleal” por parte do Mercosul.

“É preciso reconhecer a importância do setor. O Estado tem mais de 200 municípios que dependem da indústria de arroz. O impacto é enorme e cada vez maior. [o arroz] Emprega quatro vezes mais que a soja – é preciso um colaborador para 50 hectares enquanto na soja é um para 200. A diminuição da área de arroz traz impacto negativo econômico e social significativo ao Rio Grande do Sul”, alerta.

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