Uma revolta em Pelotas

José Henrique Pires licenciado em Estudos Sociais pelo ICH-UFPel, especialista em Políticas Públicas pela Universidade de Salamanca, Espanha, jornalista e radialista. (Foto: Divulgação)

Pouco lembrada, ocorreu em Pelotas uma revolta de militares perto do Natal de 1828 — fato que teve destaque nacional na época. Pelotas ainda não tinha esse nome: era uma pequena vila com moradores espalhados por todo o seu território, vivendo à beira de arroios e em chácaras.

Meses antes, em junho, havia ocorrido no Rio de Janeiro uma grande revolta de soldados contratados pelo governo imperial. É importante lembrar que, até a independência, o exército existente no Brasil era o de Portugal; por isso havia a necessidade urgente de organizar uma força militar brasileira. A solução imediata foi reforçar as tropas locais com alemães, irlandeses e italianos, que formaram alguns batalhões do chamado Corpo de Estrangeiros.

Com atrasos no pagamento, falta de uniformes, pouca alimentação e ainda grande dificuldade de convivência entre os brasileiros católicos e os estrangeiros protestantes — que não frequentavam as missas — eram frequentes pequenas brigas. Para punir um dos estrangeiros mais briguentos, algum sádico de plantão determinou, após um conflito qualquer de taverna, que o soldado teuto recebesse 210 chibatadas. Os colegas, furiosos e armados, se revoltaram.

Durante três dias, três batalhões de estrangeiros se insurgiram; e, sendo o Rio a capital do Império, instalou-se pânico na cidade. Cidadãos comuns se armaram; assim também os escravos com facões; surpreendentemente, 40 frades e mais 100 seminaristas também se armaram. O governo contratou 400 marujos de barcos ingleses atracados no porto e os colocou para guardar prédios públicos. Outros 600 marujos foram recrutados em navios franceses, encarregados da guarda do Arsenal de Guerra. Foram três dias de feridos e mortos — cerca de 200 — naquele Rio de Janeiro estupefato.

Terminada a revolta, muitos soldados estrangeiros foram transferidos imediatamente para a Vila de São Francisco de Paula (atual Pelotas) e integrados ao Batalhão de Caçadores.

No Rio Grande do Sul daqueles tempos, estava em curso a Guerra da Cisplatina, e um batalhão de Lanceiros Imperiais encontrava-se praticamente “largado” no extremo sul do país. Sem receber salários, com roupas andrajosas, vivendo em situação miserável e ainda enfrentando um cenário gaúcho que piorara bastante após o fim daquela guerra — que resultou na independência do Uruguai — os soldados novamente se revoltaram em Pelotas, às vésperas do Natal.

Sabe-se bastante sobre as batalhas da Revolução Farroupilha ocorridas no mesmo local em 1836. Mas sobre esse conflito militar de 1828, pouco se conhece. Não haviam jornais locais que registrassem versões do ocorrido. Sabe-se que a revolta em Pelotas foi a gota d’água para o fim daquele modelo de batalhão de mercenários. É um tema interessante e pouco conhecido, que merece ser aprofundado. Tomara que, com as crescentes digitalizações de acervos, surjam documentos que detalhem episódios da história nacional na antiga Vila de São Francisco de Paula.