O milagre

Estudiosos e pesquisadores da história do mundo ainda têm pareceres diversos sobre a data real do nascimento de Jesus. As probabilidades de que tenha ocorrido em 25 de dezembro são questionáveis, segundo os dados perquiridos. No entanto, é categórica a força que o acontecimento da vinda de Cristo traz até hoje. É o mais poderoso marco do calendário anual.

Há mais de dois mil anos, o fenômeno se repete. Uma onda de ternura se derrama sobre a Humanidade, transbordando do coração de Deus. É o momento da confraternização, do arrependimento, do perdão, da entrega, do encontro, do dar e do receber, da união, da sublimação, do enlevo, da boa vontade.

Parece que o anjo, que habita em cada um, desperta e espreguiça suas asas, ampliando o espaço que ocupamos para que possamos estender nossos braços em direção aos semelhantes na comunhão do amor amplo, geral e irrestrito.

Ficamos melhores, sem dúvida. Alguma coisa acontece para além das luzes brilhando nas casas, das ceias festivas, dos pacotes coloridos colocados debaixo das árvores, das orações e cânticos frente ao presépio.

É algo mais. Muito mais do que os abraços e votos de felicidades. Transcende os limites do humano porque nos inunda, por um instante, com a grandeza imensurável da graça que o Carpinteiro de Nazaré distribuiu e multiplicou, de geração em geração, no coração dos homens.

Nisso, o milagre. O maior milagre de que somos testemunhas. Os corações de pedra se transformam em corações de carne. O Espírito se derrama sobre nós e, no interior do templo que somos, se acende a luz, a mesma luz da estrela que mostrou o caminho para os reis magos.

E, sem percebermos, adquirimos idêntica postura e, em nosso íntimo, repetimos a mesma trajetória rumo à Belém, para celebrar o marco do nascimento do Menino que mudou o curso da história dos homens, sem espadas, sem guerras, mas com gestos e palavras que, ainda, ressoam como as trombetas de Jericó. E, como no relato bíblico, caem as muralhas do desafeto, do ódio, do rancor para que, em seu lugar, surja o perdão, o amor, a união.

Em cada celebração do Natal, parece que, ao redor do Planeta Terra, surge uma auréola de congraçamento e uma onda gigantesca de amor invade os lugares mais remotos, unificando a aldeia global.

Espero que o anjo que existe dentro de nós não adormeça no dia seguinte para que o fenômeno do amor natalino se estenda à realidade de todo o ano.

O Amor quer sobreviver às dificuldades, aos atropelos, ao desânimo. Ele deseja permanecer apesar, acima e além das nossas limitações.

O Menino envolto em panos numa manjedoura nasceu e está vivo para sempre. Natal é reconhecer esse Amor e fazer dele uma constância no cotidiano, enquanto pudermos nos abraçar nos Natais nossos de cada dia.