
Nunca devemos esquecer que, do nada, o inesperado pode nos surpreender. Na bela canção de Johnny Half, ele pede que a brisa fique, “pois talvez… o inesperado faça uma surpresa e traga alguém que queira me escutar”. Qualquer um que preencha um cartão de loteria ou faça uma apólice de seguro sabe que o inesperado pode surgir, mesmo que as chances sejam mínimas. E, em algumas ocasiões, ele aparece de maneira absurdamente imprevista, como no caso do menino que, há poucos dias, caiu do cavalo em um rodeio e, felizmente, está bem, apesar de ter perfurado a garganta com o cabo do rebenque que trazia consigo.
Uma das tantas situações em que isso aconteceu e surpreendeu o mundo abalou a Espanha em 1947.
Manolete, o toureiro, era um símbolo para aqueles hispânicos que o idolatravam. Na arena, era valente o suficiente para ficar quase imóvel quando o touro passava perto do seu corpo.
Numa bela tarde, enfrentaria o quinto touro, um Miúra negro, reluzente, relativamente pequeno perto de outros da mesma ganadería. Havia triunfado nas mais famosas praças de touros de lá e do México, onde também era ídolo.
Mas Islero — o nome da fera — era extremamente forte e ágil, apesar de pesar 495 kg.
Aqui aparece o inesperado: ninguém sabia que o touro sofria de hipermetropia. Sim, o animal enxergava muito bem de longe, mas de perto as imagens ficavam embaçadas.
Conhecido por seu estilo sóbrio de tourear, por seus movimentos precisos, sem floreios, Manolete foi fatalmente atingido pelo touro, que o mirou de longe e avançou pateando e, num movimento inusitado, com as afiadas guampas o feriu mortalmente (antes de ser ele próprio fincado, ressalte-se), pois, em meio àquela poeira e aos gritos da arquibancada, o Miúra já não tinha diante de si o homem que vira de longe, mas sim uma sombra encarnada e indefinida, mistura de capa, homem e espada que lhe esfregara um pano na cara.
Naquela tarde, na Arena de Linares, o touro desferiu a guampada que matou o maior ídolo daquela Espanha do pós-guerra.
Hoje, há uma sala bastante visitada em Córdoba, no Museu Taurino, dedicada a Manolete, o melhor toureiro do planeta. Nela também está o couro da outra lenda: Islero, o touro que ninguém imaginava que precisava usar óculos.



