O Coronel e o Jogo do Bicho

José Henrique Pires licenciado em Estudos Sociais pelo ICH-UFPel, especialista em Políticas Públicas pela Universidade de Salamanca, Espanha, jornalista e radialista. (Foto: Divulgação)

Todo mundo sabe que o jogo do bicho foi inventado no Rio de Janeiro em 1892, visando resolver a falta de dinheiro para tratar os animais do jardim zoológico carioca. Pois no Rio Grande do Sul, o jogo parece ter começado exatamente no dia 19 de junho de 1899, bancado a partir de Pelotas, cidade que vivia um período de grande pujança econômica.

O Rio era a capital do país. Pelotas a cidade que, no Sul daqueles dias, sem ser capital, detinha em circulação o maior capital rotativo, incluindo nessa comparação as capitais dos estados de Santa Catarina e Paraná, que estavam ainda se organizando.

O sucesso do jogo ilegal era tão forte que o iniciante governo de Borges de Medeiros determinou uma investigação policial rigorosa, com agentes secretos infiltrados, a qual resultou em prisões em flagrante, inquéritos robustos, com cobertura local no Diário Popular e com publicação no então jornal oficial do Estado, intitulado “A Federação”. Foi nesse jornal que busquei o que escrevo a seguir.

O chefe da investigação era um investigador nato, um farejador, um perdigueiro. E seguidor devoto de Júlio de Castilhos, absolutamente incorruptível. O homem certo para desbaratar qualquer coisa: o Major Euclydes Moura. Ele começou o relatório narrando: “É sabido e notório por toda a população pelotense, e quiçá do Estado, que Rosauro Zambrano é o chefe aclamado de todos os bicheiros, tendo adquirido com a exploração daquele jogo, avultada fortuna de que se serve para afrontar a sociedade em que nós todos vivemos, exibindo seu fausto e alardeando o prestígio de seu ouro…”

O documento foi muito bem feito, pois quando houve a prisão em flagrante que estourou a banca, toda a documentação estava no cofre, sobre a mesa e no bolso dos presos.
Continua o Major Euclydes: “Rosauro Zambrano tinha uma legião de agentes e subagentes” a maioria citada nominalmente nos documentos. No dia da famosa batida, com base nas informações dos agentes secretos – acompanhado do Alferes da Brigada Militar Jeremias José Tavares – foi o delegado ao escritório que mantinham sob discretíssima vigilância, e depois narra: “intimei Rosauro Zambrano a franquear me a casa para rigorosa busca. Ele, porém, em companhia de seu filho e de dois empregados, fechou se por dentro das grades do escritório, fugindo a obediência e a intimação. Isso obrigou-me a fazer arrombar uma das portas, a fim de proceder a diligência. Em seguida, em presença do Promotor Público, do escrivão e das testemunhas que mandei chamar, dei princípio às buscas que teve começo pela revista de Zambrano, seu filho Leopoldo e seus empregados João Botelho e José Teixeira. Nos bolsos desses indivíduos foram encontrados os documentos constantes no auto de flagrante, relativos ao jogo do bicho.” Mais adiante registrava a prova mais robusta, o livro caixa das operações, todo ele redigido a mão pelo próprio Coronel Rosauro Zambrano.

Por meio dos boletins e do livro, as autoridades ficaram perplexas com o lucro extraordinário, 4% do total arrecadado era a média da distribuição dos prêmios aos apostadores, 96% era o lucro do milionário banqueiro da jogatina. Zambrano saiu desse episódio com a imagem bastante abalada. Quando, tempos depois, resolveu construir o Teatro Guarani, já tinha tido tempo de fazer alguns bons ajustes biográficos, era o feliz operador da nascente Loteria Estadual, da qual era legalmente o concessionário. Mas naquela sociedade elitista e moralista de então, é bem possível que só fazendo o maior e melhor teatro localizado entre o Municipal do Rio de Janeiro e o Solis em Montevideo merecesse o respeito e o posicionamento social que almejava.

Talvez essa situação explique um pouco a lenda referente a rostos virados na plateia do Sete de Abril, a cochichos quando de sua presença na plateia da casa de espetáculos que tinha, naqueles dias, famílias da elite pelotense como sócias proprietárias.

Existe outra lenda, que também pode ser verdadeira, pelas mesmas circunstâncias.

Qualquer dia conto aqui mesmo.

Em tempo: a Câmara dos Deputados aprovou recentemente a legalização do Jogo do Bicho no país. O assunto está na pauta do Senado, mas é pouco provável que seja votado no primeiro semestre do próximo ano, a bancada auto denominada evangélica é contra o jogo e tem vários senadores que bloqueiam a tramitação e não fazem qualquer segredo disso.

Já está disponível para interessados, no site oficial do Estado, o processo licitatório que busca concessionário para a volta da Loteria Estadual do RS.

Dizem que, mês passado, a Prefeitura de Pelotas, terminou de pagar a derradeira parcela do precatório devido aos associados, atingidos pela desapropriação do Sete de Abril nos anos 1970.

Tomara que o SESC consiga comprar o Theatro Guarany. Eles sabem organizar programação e dar a manutenção que esse monumental teatro merece.

Feliz Natal!