
Conta Guilhermino César que o Conde de Piratini foi um potentado. Tinha o mesmo nome de seu pai, José Francisco Vieira Braga. Nasceu no município de Piratini em 1793 e faleceu em Pelotas no dia 1º de maio de 1887, aos 94 anos de idade. Administrou estâncias, casas de negócios e charqueadas. Era contra os ideais farroupilhas, tendo fugido para o Rio de Janeiro quando a revolução estourou no Rio Grande do Sul. Suas intensas correspondências para capatazes e gerentes de seus negócios são preciosidades guardadas na Biblioteca Pública de Rio Grande.
Imaginem hoje um grande estancieiro e comerciante que, do seu escritório, com seu computador, administrasse campos, empregados e negócios diversos, em “home office”. Pois ele fazia isso naqueles tempos, usando cartas e mais cartas que eram enviadas aos seus ajudantes. Esses documentos, felizmente, foram preservados. Por eles, sabe-se detalhes de como era o dia a dia de uma grande estância gaúcha: como se dava o trato com os escravizados e como eram administrados os gados nos campos. Tinha uma grande propriedade chamada Estância da Música, mas, quando se lê os documentos, percebe-se que, na verdade, eram duas propriedades com o mesmo nome: uma onde hoje é Capão do Leão e Cerrito, e outra perto da cidade de Santa Maria. Nesta, próxima a Pelotas, havia um campo imenso entre o Cerro Pelado e toda a costa e a várzea do Rio Piratini, onde o capataz, também alfabetizado, respondia às cartas e prestava contas do cumprimento das ordens do chefe.
Conta Fernando Osório, no seu livro “A Cidade de Pelotas”, que, ao comemorar 91 anos, o Barão — naquele dia Visconde e que ainda receberia o título de Conde de Piratini — reuniu amigos em um grande banquete de aniversário, no dia 3 de agosto de 1884. Já era viúvo e não tivera filhos com a esposa. Em meio ao evento, levantou-se, mandou que entrassem seus últimos quatro escravos e os declarou livres, sem condição alguma e, se quisessem, poderiam permanecer morando na casa, recebendo as mesmas regalias dos empregados assalariados.
Sobre o trato aos escravizados nas estâncias, bem antes disso, como ele redigia cartas e enviava ordens, a coleção de documentos guardados em Rio Grande permite ler com exatidão como se dava essa relação, formando, as cartas, raros documentos sobre aqueles tempos aqui na região.
Em uma delas, determina que um dos escravos fosse o responsável por lavar as roupas de todos, “para que andem limpos”. Outro escravizado deveria ser o cozinheiro, responsável pela alimentação dos demais. Em uma dessas cartas, diz que os “escravos podem plantar e criar galinhas, tendo milho para as sustentar”.
Cada um deles deveria receber do capataz, por mês, “três palmos de fumo”; também, em dias de muito frio, deveriam esses ter à disposição uma bebida (um “ponxe”) feita com água quente, cachaça e açúcar. Determina ainda as roupas de algodão que os mesmos deveriam receber e um outro poncho — agora o agasalho de lã — que caberia a cada um deles. Determina dar um ao Domingos Pernambuco, ao Jorge Boleeiro, outro ao Manoel Aguiar e um especial, forrado com “baeta”, ao Mateus Campeiro.
Determinava ainda que deveriam “fazê-los rezar o terço todas as noites e ensinar a doutrina” (católica, por certo) “aos que não a soubessem”.
São papéis raros, cheios de minúcias, como a carta que enviou em plena Guerra dos Farrapos, na qual o emissário levava ordens e ainda conduzia, a cabresto, o “cavalo alazão do General Neto”.
Guilhermino César mergulhou nesses papéis na década de 1970 e publicou algumas poucas coisas a respeito. Alguém mais teria estudado a papelada do Conde?



