
Ele tinha uma habilidade extraordinária no domínio da lança. Naquele lugar e naquela época, isso devia ser tradição local, coisa herdada dos índios Charruas.
Arremessava como se fosse um treinado guerreiro de Esparta, de quem sequer havia ouvido falar, ou mesmo como os extraordinários lanceiros escandinavos, que, aliás, surgiram bem depois dele.
Pois o General Osório ficou perplexo. Havia costeado o Piratini da Orqueta, saindo a trote – na charrete que saiu de onde é hoje Pedro Osório – local onde estava morando naqueles dias. Foi de Osório em direção a Herval para falar pessoalmente com o General João da Silva Tavares, futuro Visconde de Cerro Alegre. Era janeiro de 1867. O futuro Marquês do Herval (Osório) ainda não podia montar a cavalo, pois lutava com os ferimentos de batalha que o acompanhavam desde Tuiuti, luta ciclópica travada oito meses antes.
Essa missão era quase secreta, delegada diretamente por Caxias, que orientou Osório a se afastar de Pelotas e usar a região da Orqueta (onde ele também morou em 1842), pela fartura de água, comida e sombras e longe do centro urbano pelotense, repleto de estrangeiros e eventuais espiões.
Osório, acompanhado por 460 homens recrutados, na maioria em Pelotas, mas também agregando voluntários da Palma, do Cerrito e do Passo das Pedras, chega até a estância dos Tavares. Foi muito bem recebido pelo Silva Tavares, que se declara já muito velho, aos 75 anos, para seguir junto com aquela tropa. No entanto, fez questão que seu guri fosse junto. O guri tinha 48 anos e era famoso como o pai, afinal, estava junto com ele, aos 18, quando combateram e perderam para a gauchada comandada pelo General Netto, naquele dia 11 de setembro de 1836, quando lá no Seival foi proclamada a independência do Rio Grande do Sul. Pai e filho, do exército imperial, foram presos e depois fugiram em uma epopeia bem estudada da Farroupilha.
Assim, Joca, futuro Barão de Itaqui, que lá no fim do século vai assinar em Pelotas a paz da Revolução Federalista, topou o encargo dado por seu pai e imediatamente mandou avisar a peonada que campereava nas imediações, que havia vaga para quem quisesse guerrear contra o exército paraguaio. Em seguida, naquela região perto de Bagé, conseguiram mais 600 homens, que brotaram daquela fronteira aberta com o Uruguai, a maioria trabalhando nos dois lados daquela fronteira – que não se sabia bem onde começava ou terminava. Mas, no mesmo dia que o Barão de Cerro Alegre (depois Visconde) indicou o filho para Osório, acrescentou: vou mandar junto o Lacerda, que é o melhor lanceiro gaúcho que vi na vida.
E lá veio o Francisco Lacerda, peão campeiro da estância, a quem pediram uma demonstração. A peonada correu para ver. A soldadama se acomodou para assistir e o Lacerda colocou uma barrica de madeira no meio do campo. Caminhou uma distância de 50 metros bem medidos, pegou uma lança de madeira com ponteira de ferro, quadrou o corpo e lançou.
A pesada lança arremessada por aquele jovem de cabelos negros e lisos e pele clara acertou no meio do tonel, estilhaçando madeiras da barrica.
Dias depois, no seu próprio cavalo, com seus arreios de trabalho, seguiu o General Osório na cavalaria do 3° Corpo do Exército, que foi para a guerra, em uma marcha que contarei detalhes na próxima edição.



