Diário de um septuagenário III

Kalunga Mello Neves, escritor, compositor e palestrante. (Foto: Divulgação)

Agora, quando estiverem me lendo, já passou o carnaval faz um tempinho. Talvez o Grande Circo esteja pegando fogo por causa do desfile de determinada Escola, talvez não. Mas o BBB continua a mil, isso com certeza, nos mostrando pedagogicamente o quanto estamos desatualizados em relação ao emprego correto de determinadas palavras em nossa língua pátria. Como estamos caretas, meu Deus do céu! Expressões que usávamos na zona, agora chegam em nossas casas em horário nobre, sem pedir licença. É baralho pra cá, é baralho pra lá com a maior sem cerimônia. Ainda bem que todos se tratam com respeito e civilidade, segundo, é claro, os padrões da emissora que comanda o espetáculo.

Por aqui, calor e chuva, cerveja e suor. É verão, querer o quê? Meu diário está a minha espera, páginas ansiosas por minha escrita. Então, vamos lá:

5 de maio – defronte a casa da minha tia, mora a Elaine. Ela é a moça mais bonita da cidade. É três anos mais velha do que eu, mas representa uns cinco, pois já é um pedaço de mau caminho. Às vezes, ela me diz oi, e eu me sinto o cara mais feliz do mundo.

24 de agosto – juro que eu me lembro como se fosse hoje. Estava com meu pai no armazém do seu Walter Passos, ali na 27, defronte ao posto de gasolina. Eu tinha quatro aninhos só. Todo mundo chorava, se abraçava, falava ao mesmo tempo. Só depois eu soube que o Getúlio Vargas tinha morrido naquele dia.

11 de outubro – conheci no ônibus da Rainha, quando vinha de Pelotas para Jaguarão, uma guria do Morro Redondo que ia visitar o namorado em Pedro Osório. Sentamos um ao lado do outro, ela na janela. Quando eu ia puxar assunto, ela colocou os fones de ouvido. Aí, babau tia Chica…

13 de novembro – sempre gostei de visitar cemitérios. Hoje eu pintei por lá. Está caindo uma neblina, mas com sol eu acho que aqui fica mais alegre, quer dizer, menos triste. Tenho saudades de muitos amigos que, como dizem, descansam em paz em sua última morada. Agora inventaram a cremação. Facilita bastante, eu acho, e nos reduz ao que somos. Passo por onde estão meus pais. Rezo, dou um sorriso, e digo que está tudo bem.

Termina o carnaval e aí é que o Brasil mostra a sua fantasia preferida. Este outro carnaval dura até fevereiro do ano que vem. Haja fôlego pra todos nós, meus amigos e minhas amigas…

2 comentários

  1. Ter registros de toda uma vida deve ser ótimo. Quando a idade chega, basta virar páginas para lembrar o nome da vizinha que…
    Para mim, o mais importante é ler crônicas de amigos.

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