A inflação nossa de cada dia

Elis Radmann, cientista social e socióloga.

Não precisa entender de economia para falar de inflação. Esse se tornou o tema da fila da padaria, do almoço de família, do trabalho e até da happy hour dos amigos. Sete de cada dez entrevistados pelo IPO – Instituto Pesquisas de Opinião falam sobre o tema, estão preocupados com a inflação.

O assunto aparece nas pesquisas de mercado, avaliando o potencial e a tendência de consumo. A inflação é pauta quando o debate é a perspectiva de futuro e, principalmente, quando se fala em eleições.

Durante o último semestre houve uma gradual intensificação da agenda da economia no cotidiano das famílias. Primeiro as pessoas começaram a reclamar do aumento dos preços, com atenção aos combustíveis e energia. Com o tempo, o supermercado se tornou o vilão. O consumidor começou a comparar a sua média de gastos mensal, adotando em seguida a prática de pesquisar os preços dos principais produtos consumidos. O preço das carnes é visto como protagonista da elevação do ticket médio do rancho.

Em um segundo estágio, a narrativa dos entrevistados trazia a dificuldade de encaixar no orçamento as contas do mês, relatando situações de ampliação do endividamento e corte de gastos, adotando uma prática de retração do consumo.

Com a cristalização do aumento de preços e a diminuição do poder de compra é que os gaúchos passaram a falar de inflação, e citar a mesma como o principal problema do país.
Chegou-se em um estágio de muita preocupação com o futuro, com a sensação de que o salário não irá ser corrigido na mesma proporção que os preços vêm aumentando.

A população tem várias percepções sobre a origem desse problema. Sabem que as medidas restritivas impostas pela pandemia prejudicaram muitas pessoas e tudo o que veio depois só agravou a situação. Alguns reconhecem que a guerra na Ucrânia tem prejudicado a economia global, afetando o país. A maioria também responsabiliza a atual gestão econômica do governo federal, citando o desemprego como um termômetro negativo.

Os que criticam o Presidente como responsável pela atual conjuntura, consideram que o aumento dos combustíveis tem sido o gatilho ou o argumento utilizado por toda cadeia produtiva para justificar o aumento escalar dos preços.

Essa percepção, do senso comum, constrói um simbolismo em torno da política de preços da Petrobrás e os embates do Presidente com a empresa estatal reforçam a tese de que “se o preço do combustível estabilizar, teremos estabilidade econômica e seguramos a inflação”. A reboque vem a responsabilização dos governadores, tanto pelo endurecimento excessivo dos decretos restritivos quanto pelo valor de ICMS embutido nos combustíveis.

Quando se avalia o temor da inflação com o perfil dos entrevistados se compreende que o maior receio está entre as famílias com até dois salários mínimos de renda familiar e entre empreendedores em processo de reestruturação financeira pós-pandemia.

A economia será o grande tema das eleições de 2022. A população irá prestar muita atenção nas propostas de aquecimento da economia, ampliação das oportunidades de emprego e controle da inflação.

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