
Iniciativas que servem de exemplo no que diz respeito a atos de solidariedade aos afetados pela enchente no Rio Grande do Sul têm comovido a população até mesmo de outros Estados do país. Essas ações vêm se repetindo principalmente em cidades gaúchas que não foram atingidas pela catástrofe causada pela força da natureza, sendo este gesto de “estender as mãos ao próximo”, inclusive em momentos difíceis, replicado por milhões de brasileiros que, de “corações partidos”, estão de alguma forma prestando socorro às vítimas dessa tragédia.
A população de Piratini, que é de pouco mais de 17 mil habitantes, tornou a se mobilizar no início da última semana para ajudar as comunidades afetadas. No dia 7, duas carretas já haviam partido lotadas de roupas e mantimentos destinados aos municípios da região dos Vales. Já o novo movimento resultou em outras duas carretas abarrotadas com mais donativos, que partiram na madrugada de sábado (11), desta vez para a cidade de Nova Santa Rita, que, também foi devastada pela enchente.
Mais outra das ações que exemplificam estes tantos gestos de amor partiu de quatro moradoras da localidade Rodeio Velho, no interior do município, quase na divisa entre a Capital Farroupilha e Canguçu, pela rodovia ERS- 265.
A partir de uma indagação silenciosa, a produtora rural, Sandra Ulguim, 53 anos, 680 pães caseiros foram confeccionados e também ajudarão a saciar a fome dos atingidos na região citada. “Eu estava em casa, na segunda e, enquanto preparava um bolo para esperar meu marido e filho que chegariam do trabalho, me perguntei: ‘o que posso fazer para também ajudar?’ Deus me deu como resposta: ‘faça pães’”, relata Sandra, que continua:
“Eu tinha 15 quilos de farinha em casa, então, chamei minhas amigas, que são vizinhas. Elas trouxeram mais 10 quilos e ainda seus fornos para assarmos e todas nós, eu, a Valéria Zarnot, a mãe dela, dona Zilda Zarnot, e a Rose Pires, e também com a ajuda de um empresário dono de lojas em Canguçu e em Piratini, que doou farinha, colocamos as mãos na massa e, com muito amor, preparamos este alimento sagrado”.
Valéria acrescenta: “Estamos nos sentindo muito felizes. Eu não consigo mais assistir televisão, pois só se vê e ouve tristeza. Temos casa, comida e tudo mais que a estas pessoas faltam nesse momento”.
Já Zilda, 53 anos, antes mesmo de ser questionada sobre como se sentia diante do que elas fizeram, não conseguiu contribuir para a matéria. Colocou as duas mãos no rosto e chorou durante toda a entrevista diante da atual realidade de grande parte da população gaúcha.
Enquanto a reportagem conversava com as três, uma vez que Rose não pode se fazer presente, recebeu uma mensagem de áudio de Moira dos Santos Dias, 36 anos, piratiniense, e que, em Pelotas, há oito anos criou e é responsável pelo projeto social, Amor Solidário. Ele relatou que nos residenciais Acácia, Jardim do Obelisco, Azaleia e no Condomínio Aragano, locais usados como rota de fuga para desalojados na cidade e que buscaram abrigo na casa de parentes, faltava comida. Naquele dia, 80 pessoas, entre crianças, não tomaram nem mesmo café, pois não havia sequer pão para a primeira refeição do dia.
Ao ouvirem o áudio, Sandra e as amigas imediatamente decidiram: outra vez entrariam em ação e também iriam ajudar. A seguir, pelas redes sociais, elas pediram farinha e, rapidamente, 70 quilos do alimento foram doados, rendendo outros 1.220 pães para serem levados para o município vizinho. “Nós vamos fazer mais pães. O que está acontecendo é muito triste, mas nosso coração está aqui, cheio de amor e carinho e vai também para vocês, de Pelotas”, afirmou Sandra.
O vídeo no qual elas informaram que voltaram a se mobilizar viralizou no Facebook. Com isso, as amigas ganharam a ajuda de Tatiane Damasceno, 39 anos, Karolaine da Silva Valente, a Karol, 24, Cláudia dos Santos Damasceno, 55, Camila Silva, 34, Isabele de Lima, 15, além de Fábio Schulz, 33, e Geralci Machado, de 48 anos. O grupo produziu outras 320 unidades, cujo ingrediente principal foi o extremo amor ao próximo, algo que todos disseram entender como uma obrigação de nós, seres humanos, já que este foi um dos tantos exemplos dados e ensinados por Jesus Cristo. “Nossa intenção inicial era preparar marmitas e lavá-las para Pelotas. Mas como temos que tomar muito cuidado com relação ao tempo máximo para que comida seja consumida quando acondicionada, que é de uma hora, tivemos medo que, como precisaríamos nos deslocar de carro para doar, a comida chegasse contaminada até as pessoas que necessitam. Eu e Karol nos sentimos tristes e frustradas em não poder ajudar”, relatou Tatiane, que acrescenta: “Foi quando vimos a ação da Sandra Ulguim e suas amigas, reunimos nossa turma e conseguimos fazer nossa parte, o que nos deixou muito felizes, pois ajudamos nossos semelhantes”.
A soma final foi de 1.930 pães, já que Carla Leão, 45 anos, que também ganha a vida fazendo e vendendo esses alimentos, foi outra a seguir o lindo gesto, fazendo e doando 390 unidades.
Os pães partiram de Piratini e chegaram a Pelotas na segunda-feira (13) em três carros cedidos e abastecidos também através da boa vontade da comunidade. Ao chegarem ao segundo dos quatro condomínios citados acima, dezenas de pessoas, residentes no local se acumulavam na calçada para receber o donativo, pois também estavam com fome. Somente a estes, foram entregues 962 pães, sendo seis unidades para cada um, para dois cafés por dia (manhã e tarde) para apenas três dias.
A ação deixou a certeza de que a missão dos voluntários de Piratini precisará ser repetida, pois, infelizmente, os efeitos causados pelas cheias, entre eles a ausência do mínimo necessário – o pão de cada dia, continuarão por, no mínimo, alguns meses.
*Atualizada às 9h38 do dia 15 de maio de 2024 para acréscimo de informações




