Piratini: Puxando carroça, andarilho afirma que perambula pelo país há no mínimo 30 anos

Sérgio tem como companheiros de viagens três cães adultos e outros sete filhotes ainda não batizados. (Foto: Nael Rosa)

No sábado (3), chamava atenção à beira da BR 293, limite entre Piratini e Pinheiro Machado, o mineiro, Sérgio Domingo, de 54 anos. Ele estava em uma das suas muitas paradas para descanso antes de dar continuidade à viagem pelo Brasil que, segundo ele, só terminará em três situações: quando não tiver mais condições físicas, de saúde ou quando chegar o momento de partir para, o que ele acredita existir, outro plano de vida.

Puxando uma velha carroça na qual, além de carregar algumas bandeiras dos estados pelos quais já passou e que enfeitam o que é sua moradia, ele assegura que não lembra exatamente quando passou caminhar, mas que já faz no mínimo 30 anos que perambula pelo país.

“Não lembro, faz tanto tempo que até esqueci. Mas nem sempre minha realidade e rotina foram estas. Na verdade, as interrompi por um período quando conheci alguém que foi especial para mim, mas que infelizmente morreu, o que me causou muita tristeza, então voltei para as estradas”, limitou-se a dizer Domingo, justificando que decidiu recentemente não fornecer mais detalhes em relação a sua perda, pois isso lhe causa imensa dor.

Na carroça, o homem também transporta um pequeno botijão de gás e um fogareiro usados para preparar suas refeições, Ele afirma ser um homem de muita fé, e busca levar isso a todos que lhe dão a oportunidade de contar parte do que classifica como, “missão” dada a ele por Deus em uma revelação quando tinha apenas 14 anos.

“Não sei ler e nem escrever. Então não tive o prazer de ler a Bíblia, mesmo assim, falo de fé e das criações divinas para muita gente durante essa minha saga. Sofri muito, já que nunca soube quem foram ou são meus pais. Cresci num orfanato e, dessa época, na minha mente carrego apenas as lembranças das muitas vezes em que fiquei triste por não receber uma visita ou presente de quem ia até o local. Eu sentia muita solidão”, conta.

O andarilho lembra que, ao sair da instituição, passou a viver nas ruas por algum tempo, mas que depois tentou se inserir na sociedade, o que, em virtude do preconceito e da falta de oportunidades para quem vive ou tenta deixar essa realidade no passado, foi em vão.

“Não deu certo, então voltei a viver na rua. Depois disso decidi sair pelo mundo com minha carroça, o que me permitiu presenciar o sofrimento de muita gente, bem como suas alegrias. Hoje, junto com o Nego, Scooby a Valéria e os tantos outros que eu encontro abandonados no asfalto, busco a minha verdade e respostas como, por exemplo, o motivo pelo qual fui deixado para trás quando criança, e também o porquê nunca recebi amor de pai e mãe”, lamenta o andarilho, que tem como companheiros de viagens três cães adultos e outros sete filhotes ainda não batizados.

Ao ser indagado como faz para alimentar-se diariamente, bem como matar a fome dos companheiros, Domingos diz que não tem como hábito pedir nada a ninguém, mas que recebe ajuda constante de quem, por curiosidade, para nas rodovias para ouvir sua história.

“Pedi a Deus que me mostrasse a maneira de eu matar a minha fome e sede, não só a minha, mas ainda dos meus animais. A resposta dele veio através de quem decide parar pra me ouvir e acaba me ajudando, contou Domingo, antes de seguir a viagem que tem, entre os tantos destinos, a Argentina e o Paraguai. Posteriormente, ao retornar ao Brasil, pretende rumar para a cidade de Aparecida do Norte, em São Paulo.

 

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