Fio Farroupilha: Marca piratiniense produz peças artesanais exclusivas e potencializa vendas pela internet

Peças são produzidas de forma artesanal por Andrea e sua família (Foto: Carina Reis/JTR)

A moda é vista como uma forma de expressão, tornando único cada indivíduo, com seus valores e hábitos. No interior de Piratini, a marca Fio Farroupilha – que trabalha com tecelagem e feltragem – aposta em peças artesanais exclusivas que carregam a história e a tradição do Rio Grande do Sul, tendo como diferencial a produção, pois cada roupa passa por um processo sustentável, desde a criação de ovinos que fornecem a lã, até o tingimento natural do novelo, que dá cor à peça final.

Neste ano, estava previsto para maio o lançamento da Coleção Origens, em paralelo à Expo Alto Camaquã e ao Concurso Regional de Borregas, mas devido à pandemia do novo coronavírus, foi cancelado. Ainda assim, as peças de tons terrosos e inspiradas nas origens do gaúcho, na Argentina e Chile, bem como nos símbolos que envolvem e unem as culturas, conquistou os consumidores pela internet, visto por muitos empreendedores como alternativa para comercialização.

De acordo com a artesã Andrea Madruga – que confecciona junto de sua mãe, filha e nora –, o meio online já estava sendo trabalhado pela marca há anos, mas o atual momento desencadeou um aperfeiçoamento nas vendas, com criação de links de pagamento. “Vimos que podemos produzir mais sem sair tanto. A interação nas redes sociais foi fundamental”, afirma.

Ainda, segundo ela, os palas foram rapidamente vendidos no respectivo mês, sendo esgotada, primeiramente, a coleção direcionada ao público masculino. “O homem tem um comportamento diferente da mulher em questão de moda. Ele compra uma peça e vai usá-la por muitos anos, podendo deixar para o filho e neto”, avalia, acrescentando que o trabalho, considerado minucioso, está sendo reposto – além da produção de mantas –, conforme pedidos.

Foto: Rafael Dias Costa
Foto: Virgínia Dutra

Passo a passo
Andrea também é criadora de ovinos da raça Ideal, junto ao marido, Nilton Silva Garcia. Em consequência do atual volume de produção, as lãs oriundas desses animais são destinadas à técnica de feltragem. Para fiação, a matéria-prima é comprada das artesãs locais ou da indústria.

Produtores têm rebanho de ovinos da raça Ideal (Foto: Reprodução/Arquivo Pessoal)

“Adquiro bobinas e envio às artesãs do Barrocão, que fica na Costa do Bica, e elas produzem para mim, sendo uma fonte de renda”, comenta a artesã. O material é enviado lavado – processo mais delicado – e as profissionais realizam a fiação com fuso. O restante da produção é realizado no ateliê do Fio Farroupilha.

De Piratini para o mundo
As peças artesanais de vestuário integraram o catálogo Lã Gaúcha, em parceria com outras marcas do estado, capitaneada pela Dona Rufina Design. Assim, participou do Milan Fashion Week de outono/inverno, um dos principais eventos de moda que acontece em Milão, na Itália.

“Foi uma oportunidade incrível de poder participar e levar junto a nossa região e Piratini para a Semana de Moda de Milão. Infelizmente, ocorreu o episódio de coronavírus durante os desfiles, mas creio que o nosso objetivo principal, enquanto marcas parceiras, que era distribuir o catálogo, foi concretizado e foi um sucesso”, comenta Andrea.
Conforme ela, há possibilidade de ser publicado um novo catálogo. “O grupo está se organizando neste sentido”, ressalta.

As dores no meio rural
Na trajetória no meio rural, a família viveu momentos tristes, como ter o campo invadido por cães e caçadores, bem como a residência por ladrões. “São dores que a produção rural vai acumulando ao longo da vida”, diz Andrea.

Conforme ela, o rebanho é micronado pela Associação Brasileira de Criadores de Ovinos (Arco). Dentre as etapas, está o exame de micronagem (finura) da lã, especificada nas etiquetas da marca. Porém, há poucas semanas, infelizmente, um novo caso de invasão ocorreu e animais foram mortos, fazendo com que a decisão de diminuir o rebanho de ovinos fosse tomada.

“Ano passado tivemos seis ovelhas mortas, que foram campeãs de concursos”, comenta, complementando: “A gente [produtor rural] produz, leva genética de qualidade, leva alimento de qualidade para todo país. E o nosso retorno?”, indaga a artesã.
Além disso, a estiagem registrada nos últimos meses afetou o campo nativo. Para minimizar a situação, neste ano, a Prefeitura de Piratini executou a abertura de novos poços e foi contratada uma empresa para abertura de açudes.

Apesar das dores, Andrea ressalta que cada nascimento na propriedade, é uma esperança que renasce. “Ainda me traz a grande satisfação de ser ovinocultora, produtora rural e artesã. Sou muito feliz com que faço”, finaliza.