
A 4ª edição do Clarim Farroupilha de Piratini, realizada entre os dias 28 e 30 de novembro, reafirmou o caráter intimista e seletivo do evento, com acesso restrito a músicos, jurados e convidados, e prestando homenagens a figuras marcantes da cultura do “Pago do Berço Farrapo”.
Realizado na Fazenda Don Martins, zona rural do município, o festival nativista traz o tema das composições concorrentes escolhido pelo vencedor do ano anterior. Além disso, evita a ampla divulgação midiática, abrindo mão do alarde comum a eventos do gênero.
No domingo (30), foram premiados os vencedores com troféus batizados em homenagem a grandes nomes responsáveis por escrever parte da história cultural e musical do município, como Luiz Carlos Barbosa Lessa, Mário Meireles, Aristeu Silva, entre outros.
Com movimentos limitados em decorrência de um AVC, a professora Katiane Funari ficou frustrada por não ter podido presenciar a entrega do troféu que leva o nome do pai, o instrumentista Zé Funari, mas destacou a alegria ao saber que a homenagem agora integra a estante do jaguarense Adriano Ferreira, de 20 anos, responsável pela composição Hereditário. “É minha primeira vez no Clarim e ganhar o Zé Funari tornou tudo mais especial”, afirmou.
Katiane foi além do simples agradecimento. “Vou às lágrimas ao lembrar e falar do meu pai. Tudo vai muito além da saudade”, disse a professora, que também elogiou o violeiro premiado e compartilhou memórias sobre José dos Santos, primeiros nomes de batismo do pai, cuja identidade musical transitava por diferentes estilos sem abrir mão da música regional.
Ela relembrou ainda as serenatas em que o samba nunca podia faltar no repertório, tendo como referência o grupo Demônios da Garoa. “Era boêmio, amava fazer serenata e o violão usado nelas ficou comigo, sua única semente viva. Guardo essa relíquia com um carinho único”, contou.
A professora também destacou que o pai, autodidata, dominava o cavaquinho, o acordeom e o piano, além de marcar presença constante em concursos de danças do folclore sulino. Uma memória, em especial, permaneceu viva. “Nos ensaios das invernadas, quando nós errávamos a coreografia, ele adaptava as notas para nos acompanhar até todos encontrarem o passo certo”, lembrou.
Ao recordar a trajetória do pai, Katiane concluiu: “Minha emoção é por ter vivido, convivido e testemunhado o quanto ele amava a música. O ápice de sua felicidade era estar tocando algum instrumento. Meu orgulho é encher o peito e dizer: ‘eu sou filha do Zé Funari’”.



