Piratinense que viveu Anita Garibaldi no teatro fala sobre a história de sua personagem

Francieli viveu a personagem histórica no teatro. (Foto: Divulgação)

Em 2021, o Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG) escolheu como tema dos Festejos Farroupilhas a figura da catarinense Ana Maria de Jesus Ribeiro, que se destacou também em solo gaúcho ao ser a esposa do capitão Giuseppe Garibaldi, se tornando então Anita Garibaldi, mulher responsável por pegar em armas durante a Revolução Farroupilha.

Tudo que cerca a heroína é estudado e, até mesmo, já foi incorporado pela professora de História Francieli Domingues Corral, que deu vida à Anita por dois anos no Grupo de Artes Encenação.

No ano em que esta personagem icônica da Guerra dos Farrapos completaria 200 anos, a diretora do Museu Histórico Farroupilha recorda o que permeia aquele contexto e que nem sempre é lembrado pelos livros de História.

“Ela tinha apenas 18 anos quando conheceu Garibaldi, com quem viveu um amor carbonário, um amor que lutou pela causa dos povos e, já em 1839, ela teve seu batismo de fogo ao recusar-se ir para o porão do navio, onde ficaria mais segura durante o combate. Negou o pedido do marido dizendo que jamais iria deixar de lutar em uma batalha pelo fato de ser mulher. Daquele momento em diante, ela passou a ser conhecida como uma figura feminina que pegava em armas”, conta Francieli.

Ela destaca que Anita foi prisioneira e fugiu das tropas imperiais, mesmo já grávida do primogênito do casal, que nasceria em 16 de novembro de 1840. Além disso, durante esta fuga também demonstrou força ao andar mais de cinquenta quilômetros e ao empreender fuga com o filho nos braços, após um ataque ao acampamento em que estava.

“Ela é símbolo de uma mulher que, mesmo muito pobre, foi contra o sistema em vigência à época. Inclusive, tinha uma frase que dizia: ‘maldita pobreza que me liberta’. Mas mesmo assim, essa apropriação feminina da figura dela demorou bastante a acontecer. Então, com certeza, homenagear o seu bicentenário foi uma ótima escolha do MTG”, opina.

Quanto a ter vivido Anita, Francieli disse que foi uma satisfação. O interesse pela personagem de destaque começou quando ela tinha apenas sete anos, durante uma visita ao museu que hoje dirige, onde também encontrou um quadro da guerreira. A obra é uma das poucas peças existentes no local que se referem à catarinense, que teve grande importância para o Rio Grande do Sul.

“Depois disso, já aos 16 anos, passei a atuar nos passeios turísticos de Piratini e optei por me caracterizar com as roupas usadas por ela naquele importante período. Era uma caracterização muito rústica e crua, necessária para os embates que ela participou, mas que realmente representava força. Para mim, foi uma satisfação, pois vale destacar que o país e, por consequência, o Estado, tinham uma característica muito machista. Ela passou a ser uma figura respeitada no meio, sendo uma mulher protagonista em meio a uma guerra”.

Na concepção da professora de História, Anita é muito mais do que uma heroína, é uma mártir que se imortalizou, pois é impossível falar no capitão Garibaldi e outros ícones como Bento Gonçalves, Neto e Davi Canabarro, sem também falar nessa mulher, que ela entende ser personagem central e que representa, ainda hoje, todas as demais mulheres gaúchas.

“Foram mães, Anas Terra, Anas sem terra, açorianas, negras, índias, todas filhas da coragem que os grilhões não podem tirar. À essas mulheres que, muitas vezes, não são nomeadas nos nossos livros de história, mas que tiveram um papel significativo na política daquela época e também na construção da família, do Estado, todas norteadas a partir de Anita, que foi essa personagem central”, finaliza.