Sistema de alerta: uma ferramenta ao alcance do produtor na detecção e combate à mosca-das-frutas

Técnico em Agropecuária, Ivan Barcellos, produtor Silvano Scaglione e presidente do Sindicato, Nilson Ireno Loeck em entrevista ao Jornal Tradição Regional (Foto: Luciara Schneid/JTR)

A mosca-das-frutas sul-americana (Anastrepha fraterculus) é uma das principais pragas presente nos pomares de pêssego do Rio Grande do Sul e sua detecção e combate precoces resultam, além da prevenção nas perdas de frutas, em uma grande economia ao produtor com o uso de inseticidas.

Segundo o pesquisador da Embrapa Clima Temperado Pelotas, na área de Entomologia, Dori Edson Nava, desde a safra 2010/2011, foi criado na região pelotense, um sistema de alerta para monitoramento da praga, uma ferramenta que está auxiliando produtores na tomada de decisões nos pomares e adoção de diferentes técnicas de controle para o manejo da praga no momento correto.

Há quatro anos, a região da Serra, responsável pela produção de 60% do pêssego in natura do estado, também passou a integrar o sistema, com informações específicas para aquela região. “Levando-se em conta que a região de Pelotas é responsável por quase 100% da fruta enlatada, pode-se dizer que 90% da produção de pêssego do estado é beneficiada com este serviço”, destaca.

Conforme Nava, informações da indústria dão conta que a infestação da fruta recebida para processamento, hoje, é muito baixa e não chega a 1%. Porém, nem sempre foi assim. Em 2008/2009 foi registrada uma perda de, pelo menos, 30% da produção na região devido à infestação pela mosca.

As recomendações são baseadas no monitoramento da praga, realizado por equipe técnica que conta com representantes de diferentes instituições e associações vinculadas à persicultura.

Em reuniões técnicas entre representantes dos diferentes segmentos da cadeia produtiva, que em virtude da pandemia acontece virtualmente todas as terças-feiras pela manhã, é elaborado um boletim técnico em que são destacados, além da presença ou não da mosca na região, outros assuntos relativos ao momento da cultura e por último, a dica da semana para que seja implementada pelo produtor.

Esse boletim chega aos produtores por meio das mídias eletrônicas, como WhatsApp e Facebook, e-mail, sendo também veiculado nas edições do Jornal Tradição Regional. Além disso, de acordo com o pesquisador, é produzido um programete em áudio com o assunto mais importante da semana, onde o produtor tem acesso apenas clicando.

Mas antes, sempre às segundas-feiras, vem o trabalho do técnico em Agropecuária, Ivan Barcellos, ligado ao Sindicato dos Trabalhadores Agricultores Familiares de Pelotas, que há seis meses assumiu a responsabilidade pela revisão das armadilhas, dispostas em quatro áreas diferentes, denominadas de estações, duas no interior de Pelotas (Rincão da Cruz e Santa Áurea), uma em Morro Redondo (Colônia Colorado) e outra em Canguçu (Glória).

Cada estação tem cinco armadilhas, na cor amarela, iscadas com uma proteína hidrolisada que atrai os insetos adultos, tanto machos, quanto fêmeas. Cada um destes locais é equipado com uma estação meteorológica portátil, que possibilita a obtenção de dados como temperatura, umidade relativa do ar, entre outras.

“As informações do técnico chegam para nós na noite de segunda para que sejam analisadas na reunião de terça pela manhã”, diz o pesquisador. Além disso, o monitoramento é realizado ainda na Embrapa Sede por um técnico da instituição.

Armadilhas são dispostas em quatro áreas diferentes (Foto: Luciara Schneid/JTR)

Na contagem, são considerados os insetos adultos de mosca-das-frutas. O pesquisador destaca, no entanto, que este é um trabalho macro que fornece informações gerais, não pontuais. “O ideal é que cada produtor fizesse o monitoramento de sua propriedade, porque muitas vezes a presença da mosca no meu pomar não significa que ela está presente no pomar do vizinho e vice-versa”, explica. Para isso, é recomendado que o produtor mantenha um mini-sistema de alerta na propriedade para determinar o momento de entrada da mosca no pomar.

A infestação é determinada pelo índice MAD (mosca/armadilha/dias), que não pode ser superior a 0,5% ou três moscas por armadilha. Nesse caso, é recomendada a aplicação do inseticida por cobertura em toda a área. Abaixo disso, é mais adequada a aplicação da isca tóxica, que consiste em solução com água, o atrativo alimentar que é a proteína hidrolisada mais a dose do inseticida e aplicação mais localizada, como bordas do pomar, troncos e próximo do mato.

Segundo o presidente do Sindicato dos Trabalhadores Agricultores Familiares de Pelotas, Nilson Ireno Loeck, a infestação da mosca é uma das piores coisas a ocorrer nos pomares. Por isso, o trabalho de monitoramento é importante para o controle.

Monitoramento traz mais segurança para o produtor
A segurança no pomar é um dos principais benefícios destacados pelo produtor Silvano Scaglione, que possui 50 hectares de pessegueiros, na colônia Santa Áurea, onde está localizada uma das estações de monitoramento. Até o momento, não foi detectada a presença do inseto nas armadilhas instaladas no local e a colheita se inicia com a variedade precoce Bonão. Outras variedades se somam a esta como Granada, Maciel, Esmeralda, Jade e Jubileu, na ordem de colheita. A expectativa é de colher 280 mil quilos da fruta, quantidade abaixo dos 360 mil quilos da safra passada.

O motivo da queda na produção, de acordo com o produtor, foi a geada tardia, ocorrida no mês de setembro, que atingiu os pomares principalmente da variedade Granada, de duplo propósito. A produção é destinada à industrialização para a fábrica Geraldo Bertoldi, em Morro Redondo.

Pêssego infestado pela larva da mosca-das-frutas (Foto: Paulo Lanzetta)

Importância da cultura
A cultura do pessegueiro é uma das principais cadeias produtivas de Pelotas, Canguçu, Morro Redondo, Piratini e Cerrito. A fruta é cultivada em cerca de duas mil propriedades, de até 10 hectares e envolve cerca de seis mil pessoas. Em termos de processamento, são 10 indústrias que, juntas, produzem quase a totalidade do pêssego em calda do Brasil – cerca de 50 milhões de latas. Ao todo, as indústrias geram pelo menos sete mil empregos diretos e outros três mil indiretos na região.

O monitoramento foi iniciado em setembro e pode se estender até o final de dezembro, quando deve estar concluída em torno de 95% a colheita. Estão envolvidos no trabalho, representantes da Embrapa Clima Temperado Pelotas, Embrapa Uva e Vinho Bento Gonçalves, Emater/RS-Ascar, Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Sindicato das Indústrias de Doces e Conservas Alimentícias de Pelotas (Sindocopel), Associação dos Produtores de Pêssegos da Região de Pelotas (APPRP), Sindicato dos Trabalhadores Agricultores Familiares de Pelotas e Secretarias de Agricultura dos municípios de Canguçu, Morro Redondo e Pelotas. Na região da Serra, o projeto tem o apoio do Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS) – Campus de Bento Gonçalves, Emater/RS-Ascar e das Secretarias Municipais de Agricultura dos municípios participantes.

Enviar comentário

Envie um comentário!
Digite o seu nome