Pelotas: Dia de Campo da Agroecologia leva quase duas mil pessoas à Embrapa

Movimento foi intenso na Feira Agroecológica do 18º Dia de Campo da Agroecologia e Produção Orgânica na manhã desta quinta-feira (7) na Estação Experimental Embrapa Clima Temperado, na Cascata, zona rural de Pelotas (Foto: Roberto Ribeiro/JTR)

Pelo menos duas mil pessoas, segundo os organizadores, estiveram nesta quinta-feira (7) na Estação Experimental da Embrapa Clima Temperado, na Cascata, zona rural de Pelotas. Produtores, técnicos e estudantes de todos os níveis de ensino participaram da intensa programação preparada para o 18º Dia de Campo da Agroecologia e Produção Orgânica, que ocorre todos os anos na unidade. Paralelamente, outros quatro eventos foram realizados no local, como a 2ª Feira da Agroecologia (maior que a do ano passado), a 1ª Oficina Pedagógica, uma Mostra Cultural de Arte e Dança, além da Reunião Regional de Organizações de Controle Social.

O chefe interino da Embrapa, Valdir Stumpf Júnior, fala na abertura do 18º Dia de Campo da Agroecologia e Produção Orgânica, evento que contou com a participação de pelo menos duas mil pessoas entre produtores, técnicos, pesquisadores e estudantes. (Foto: Roberto Ribeiro/JTR)

A programação teve início com o lançamento na abertura, que contou com representantes da Embrapa, Emater e de entidades ligadas à agroecologia, agricultura familiar e pequenos agricultores, do “Guia para identificação de mudas de espécies arbustivas e arbóreas de espécies indicadas para restauração florestal no Rio Grande do Sul”, coordenado pelo engenheiro florestal e pesquisador do grupo de Manejo e Restauração da Vegetação Nativa da Embrapa Clima Temperado, Ernestino Guarino.

O engenheiro florestal e pesquisador do grupo de Manejo e Restauração da Vegetação Nativa da Embrapa Clima Temperado, Ernestino Guarino, que coordenou a edição do “Guia para identificação de mudas de espécies arbustivas e arbóreas de espécies indicadas para restauração florestal no Rio Grande do Sul”. (Foto:
Roberto Ribeiro/JTR)

“Tem objetivo de ajudar técnicos e principalmente agricultores a identificar mudas e sementes de espécies indicadas para restauração em sistemas agroflorestais, esse é o grande mote desse trabalho”, disse o pesquisador. De acordo com ele, o sistema alia produção ao restauro de solos e vegetação nativa.

Para Guarino, a iniciativa não é urgente apenas para o ecossistema da região, mas do planeta. Ele lembra que a Organização das Nações Unidas (ONU) declarou o período de 2021 a 2030 como a “década da restauração” de ecossistemas, o que envolve redução da emissão de gases de efeito estufa e aumento do estoque de carbono no solo e na vegetação para ser possível lidar com intempéries climáticas, como seca e chuvas em excesso, e assim ter um clima mais propício para a vida na Terra.

No Guia foram selecionadas 67 espécies, com fotos, mapas de ocorrências delas no Rio Grande do Sul e informações básicas sobre como identificá-las “na linguagem do agricultor” sem, no entanto, abrir mão de conceitos técnicos. O documento está disponível no site da Embrapa (https://www.embrapa.br/). Espera-se que para o mês que vem seja lançado em versão impressa, com 500 cópias e 162 páginas por exemplar, a serem doados a agricultores, instituições de pesquisa, de assistência técnica e extensão rural e a secretarias de Meio Ambiente em todo o Rio Grande do Sul.

Guarino refuta a ideia difundida entre o senso comum de que a produção agroflorestal não dá o retorno que o agricultor necessita. “A gente tem comprovação aqui na Feira [Agroecológica] de agricultores cujos produtos vêm inteiramente de suas agroflorestas, e eles não mudam de sistema de produção, a gente dispõe de informações sobre viabilidade financeira e ambiental, o que se precisa é difundir cada vez mais essa informação”, defende.

Um desses agricultores é Juliana Pino, do sítio Jardim das Acácias (https://www.instagram.com/safjardimdasacacias/). A propriedade de um hectare fica nas imediações da Barra do Chuí, em Santa Vitória do Palmar, extremo Sul do estado, a três quilômetros da praia e próxima ao parque eólico. Na Feira Agroecológica do Dia de Campo ela ofereceu produtos processados da sua agroindústria caseira, como o molho chimichurri e cachaça de butiá. Mas seu portfólio, cujos produtos são à base de sistema agroflorestal, é bem mais amplo.

Agricultora e professora de História da rede estadual de ensino, Juliana Pino, levou para a Feira Agroecológica produtos processados em sua agroindústria caseira, como molho chimichurry e cachaça de butiá. (Foto: Roberto Ribeiro/JTR)

“É um tipo de sistema que nos permite cultivar árvores frutíferas, exóticas e nativas, consorciado com cultivo de hortaliças, ervas medicinais, plantas alimentícias espontâneas e não convencionais”, explica. Não pretende alterar seu sistema de produção. Juliana diz que mesmo em um hectare ela e seu companheiro, Diego Sábato, produzem durante todo o ano uma diversidade de produtos fornecidos a um grupo de cem consumidores que recebem via delivery no Chuí e na Barra do Chuí. Outro cliente é o Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae), que a cada semestre faz a aquisição dos alimentos diretamente de produtores familiares. Mas as vantagens que a produção agroflorestal proporciona não param aí.

Segundo ela, que também é professora de História da rede estadual de ensino, além de manter a produção ao longo do ano, o sistema oferece microclimas que protegem a propriedade de alagamentos por chuva em excesso. “As árvores amortizam esse impacto, não sofremos nem com chuva nem com estiagem, ano passado muitos produtores não tiveram o que entregar pro Pnae por causa da seca, não foi o nosso caso, que conseguirmos produzir alimentos frescos sem agrotóxico para as crianças em idade escolar”, celebra. Outro ganho que Juliana garante que o sistema agroflorestal oferece é em relação ao vento incessante característico do extremo Sul, com uso de quebra-ventos, além de madeira para construção de móveis e, principalmente, a produção de alimentos sem veneno.

Saúde humana e ambiental

Coordenador do Dia de Campo e da Produção Orgânica, o agrônomo e pesquisador da Embrapa Clima Temperado, Luiz Fernando Wolff, não tem dúvidas de que o sistema de produção agroecológico e orgânico, aliado à biodiversidade, é resposta eficiente diante de uma realidade de oscilações climáticas extremas como o que o planeta vem experimentando. Neste contexto, ele aponta ao menos dois motivos para a importância desse tipo de produção: um deles é ambiental. O outro, a saúde humana.

“O sistema de produção agroecológico e orgânico tem como prioridade a proteção do solo por meio de cobertura morta, de adubação orgânica, de curvas de nível, por meio de consórcios de lavouras, e esses intervalos entre uma cultura e outra em uma determinada declividade do solo faz com que a água corra menos e desça mais, penetra por meio das raízes e com isso nos dá vários benefícios em relação às oscilações climáticas, o que é extremamente importante na atualidade”, assegura ele.

O coordenador do dia de campo, agrônomo e pesquisador da Embrapa Clima Temperado, Luiz Fernando Wolff. (Foto: Roberto Ribeiro/JTR)

Quanto a questão da saúde, para Wolff não há mais dúvida de que medicamentos ou produtos químicos têm como finalidade combater a doença: “Isso não é fonte de saúde, isso é para atacar a bactéria, o fungo, não promove saúde.” Assim como o médico pernambucano Josué de Castro (1908-1973), para o coordenador do Dia de Campo da Agroecologia, “saúde se entra pela boca”. “Quero crer que a sociedade contemporânea está convencida de que a boa alimentação é mais importante ainda neste contexto. Uma alimentação rica em agrotóxico prejudica o equilíbrio e a saúde da pessoa. Pelo menos por essas duas razões – saúde e quebra de sustentabilidade ambiental – nós temos como grande solução a agroecologia e a produção orgânica de alimentos. Neste contexto, o Dia de Campo tem o papel de provocar e favorecer a mudança.”

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