Granja Bender, localizada no interior de Pelotas, é responsável pelo abastecimento de grandes redes de supermercados

O produtor João Carlos Bender, à esquerda, e o filho Maurício, à direita, atuam na plantação, colheita, entrega e administração das mais de 20 variedades de hortifrutigranjeiros, ao lado de outros familiares. (Foto: Adilson Cruz/JTR)

Se Pelotas não é mais reconhecida por um título que a marcava até a década de 70 do século passado, a Colônia Santa Eulália, na zona rural do município, abriga uma propriedade que é digna daquele tempo em que a cidade do doce era também a cidade dos alimentos.

A Granja Bender, espaço de 100 hectares que tem como limite a Norte o rio Cadeia e ao Sul a BR 392, mantém a tradição que Pelotas já teve de produzir hortifrutigranjeiros em quantidade, variedade e, sobretudo, qualidade. São frequentes os prêmios de melhor pêssego, morango e tomate nas festas em que a propriedade é convidada para participar na região da Colônia. No escritório da Granja, localizado em um amplo galpão que conta com três câmaras frias, já quase falta prateleira para abrigar tantos troféus. O último foi na Festa Municipal do Pêssego, dia 5 de dezembro, na Colônia Vila Nova.

Ali a Granja Bender emplacou mais três premiações de melhor fruta para a já extensa coleção nas variedades Fascínio, de coloração branca, Rubimel, amarelo e Chimarrita, também branco – em critérios que envolveram maduração, tamanho, doçura e sabor. “Todos os produtores mereciam, a qualidade era geral, mas para nós é uma alegria, uma lembrança muito importante do trabalho que a gente realiza, sinal de que estamos no caminho da qualidade”, celebra João Carlos Bender, de 63 anos, o patriarca da família que ocupa a linha de frente do negócio juntamente com o filho Maurício, de 43.

O caminho da qualidade começou a ser trilhado há algumas décadas. Já nos anos 1990 os pêssegos da variedade Granada (“era um frutão, até agricultor comprava”, orgulha-se) que produzia e vendia na banca que mantém há 27 anos na Travessa Ismael Soares, em frente à Praça Coronel Pedro Osório pela quadra da prefeitura, também chamaram atenção do então gerente em Pelotas da rede Nacional (na época Grupo Sonae), que o convidou para uma reunião com executivos do grupo. Reagiu ao convite com surpresa: “Eu, um pobre agricultor”, perguntava-se. “Nem a Cosulati [Cooperativa Sul-rio-grandense de Latícinios, já extinta] conseguia entrar na Walmart [atual Carrefour]”, lembra.

Ainda assim, participou da tal reunião. Dali ficou acertado de os executivos conhecerem sua lavoura. Foram. Viram, gostaram e cadastraram o agricultor como fornecedor da rede. E ali a história dos Bender começaria a mudar. A princípio para melhor. Mas repleta de metas e desafios. A começar pelas normas sanitárias e de segurança alimentar exigidas em contrato. “Só de olhar, deu vontade de desistir”, conta ele sobre a primeira impressão ao ler o contrato. Mas não foi o caso. O caso era fazer acontecer. E ele fez: “Eu teria que plantar mais, e pra plantar mais tinha que ter terra, mercado, veículo para entregar, para ter veículo é preciso câmara fria, embalagem, as contas foram aumentando e eu não tinha nada, só nome limpo para pedir emprestado no banco”, conta.

A assinatura do contrato dava início à ampliação do portfólio da granja – cujo histórico remetia a uma pequena propriedade familiar voltada à criação de poucas cabeças de gado Holandês para produção de leite.

Hoje, na propriedade da numerosa família que trabalha unida praticamente todos os dias da semana na plantação, colheita, entrega e administração, são cultivadas mais de 20 variedades de hortifrutigranjeiros. Uma realidade bem diferente da que cresceu, mas vislumbrou em um sonho ainda na adolescência no único ano em que viveu na zona urbana de Pelotas. Tinha sido enviado pela família para tentar um rumo pela via dos estudos. À época, 1972, então com 13 anos, morava no Hotel Ness, nas proximidades da curva da morte, avenida Fernando Osório, Zona Norte da cidade. Para aliviar os custos de hospedagem, trabalhava como ajudante de limpeza e de cozinha.

Morango está em terceiro lugar na produção na Granja, com 40 toneladas. É cultivado em estufa, que produz praticamente o ano todo, além do aéreo e o de safra, plantado no solo. (Foto: Adilson Cruz/JTR)

Não estava muito satisfeito com aquela realidade, distante da família e da vida na área rural, quando, uma noite, sonhou que tinha que plantar frutas vermelhas. Despertou decidido a retornar à casa dos pais e transformar o sonho em realidade.

Foi o que começou a ocorrer já a partir do ano seguinte, plantando 50 pés de morango e de pêssego, cuja produção vendia nas margens da BR 392. A pequena propriedade na colônia Santa Eulália começava a ir além do milho, do pasto e da batata doce em pequenas quantidades para turbinar a produção do leite entregue à Colati – mais tarde Cosulati. “Se produzia leite para comprar comida e ferramenta pra lavoura, se plantava pouco e se trabalhava bastante”, recorda.

Mais tarde, com o filho Maurício e um sobrinho, começou, à base da tentativa e erro, a irrigar canteiros de morango. Não tinha experiência, tecnologia, nem quem os ensinasse. Só vontade. E, na vontade, além de vender na 392, resolveu ampliar a oferta no varejo. A decisão levou os Bender a bordo de uma F-4000 ano 1979 a Bagé para fechar negócio com os supermercados Nicolini e Peruzzo – dos quais é fornecedor até hoje. “Não tinha mercadoria nem condição de atender os dois. E assim foi indo”.

Ato contínuo, surgiu a oportunidade de estabelecer a banca na Travessa Ismael Soares. Parou de vender na BR. Com apoio da Embrapa, qualificou a produção e a propriedade começou a se notabilizar pelos prêmios nas festas de hortifrutigranjeiros realizadas na região, como a do pêssego e a do morango. Do tomate, ano passado, na Colônia Cristal, também faturou os principais prêmios.

João Carlos atribui esse sucesso ao apoio familiar. Não só apoio. Nesse negócio, só apoio não basta. Tem que pegar junto. Além do filho, das filhas, nora, esposa, irmãos e sobrinhos, até a neta, de 16 anos, já está na labuta. Não é fácil. Nunca foi. “É um sofrimento muito grande, mas com gosto: é pra quem gosta”, adverte. “O agricultor é teimoso; ele recebe e aceita o sol quente, agradece quando vem a chuva e o nosso consumidor não entende a realidade da lavoura; o sol é mais quente, a camada de ozônio está aberta, entra direto, queima, a fruta sofre, o consumidor não tem o que quer, reclama e culpa o produtor – mas a gente continua”, desabafa.

Pêssego, carro-chefe

Pêssegos foram premiados na Festa Municipal, em Pelotas, realizada no dia 5 de dezembro, adicionando troféus a já extensa coleção. A safra atual deve chegar a 120 mil quilos da fruta. (Foto: Adilson Cruz/JTR)

Com uma produção média de 300 toneladas, em 2022 a Granja Bender deve colocar ao todo 120 mil quilos da fruta no mercado. A quebra na safra que atingiu parte dos produtores foi significativa nos pomares da propriedade, com perdas de mais de 50%. A maior parte da produção é dos chamados pêssegos de mesa, in natura, algo para a qual a Granja se voltou desde a decadência das grandes indústrias de conservas. A família cultiva pêssego também em uma propriedade arrendada no Morro Redondo, onde planta 10 mil pés a 200 metros de altitude para blindar a fruta de geadas tardias.

O tomate é a segunda maior produção. São 200 toneladas por safra. “Este ano a produção foi boa”, avalia Maurício. A colheita está prevista até o final de maio, dentre as variedades longa vida, gaúcho, cereja e grape, de tonalidade amarelada que se destaca pelo sabor adocicado, muito apreciada pelo público infantil. O morango, embora tradicional na propriedade e na região, ocupa o terceiro posto de maior produção na Granja, com 40 toneladas. É cultivado em estufa, que produz praticamente o ano todo, além do aéreo e o de safra, plantado no solo. Mas não apenas.

Granja também é responsável pela produção de outros produtos presentes nas gôndolas dos supermercados da região, como o pimentão. (Foto: Adilson Cruz/JTR)

A grande maioria dos consumidores não sabe, mas é da Granja Bender que vão parar nas gôndolas dos supermercados pepinos, melões, abóboras, pimentões verdes, amarelos e vermelhos, entre tantas variedades. As entregas são feitas três vezes por semana em supermercados, mercadinhos e fruteiras que vão de Dom Pedrito, na região da Campanha, a Porto Alegre. E tem também as bancas e feiras livres. “Adoro fazer venda em feira”, revela o patriarca. Em Pelotas são dois os pontos: além da banca na área central, os Bender aos fins de semana e feriados estão na avenida Adolfo Fetter, em frente ao condomínio Las Acácias. Também marcam presença em feiras livres em São Sepé e em Caçapava do Sul.

Haja estrutura. Estrutura e trabalho. Nos dias de entrega, as segundas, quartas e sextas, os caminhões começam a ser carregados entre 3h e 4h. E uma produção dessa magnitude é impensável sem o gerador de 65 killowatts, cisternas e um açude, além do galpão com as câmaras frias.

O reconhecimento não vem apenas da fidelização de consumidores e dos clientes do varejo. Auditorias a cargo das empresas WQS e Par e Passo conferem à Granja Bender, respectivamente, a 3ª e 2ª melhor pontuação de produtos hortifrutigranjeiros do Brasil e do Rio Grande do Sul em normas de segurança alimentar.

E se falta mão de obra para ampliar a produção, a solução será mais uma vez recorrer à família. Em 2023 está prevista a inauguração da agroindústria Granja Bender. A unidade vai produzir geleias e sucos de morango e pêssego a partir de produtos cultivados na propriedade. A ideia, que conta com apoio da Emater, se encontra em estado avançado de tramitação. A gestão ficará a cargo da ala feminina da família, sobretudo de Helena Bender, esposa de João Carlos, e da nora Graciele. A aposta é colecionar mais um êxito. “São produtos muito procurados, antes mesmo de industrializarmos”, informa Maurício.

Nem tudo são flores

Exemplo de sucesso na produção de hortifrutigranjeiros, João Carlos, no entanto, não está satisfeito. Assim como pequenos, médios e grandes produtores, ele reforça o coro em relação à alta do custo de produção. Segundo o agricultor, desde 2020 os preços dos fertilizantes triplicaram, assim como o do plástico, usado na cobertura de estufas, e o do encanamento – para irrigação. “Transporte, então, nem se fala, o preço dos combustíveis é um absurdo”, queixa-se.

Conforme ele, hoje, o transporte de uma mercadoria a Bagé, a 194 quilômetros de Pelotas, não sai por menos de R$ 700. “Nossos governos não têm pena do agricultor, nem do consumidor, tudo isso estoura nele”, lamenta.

A qualidade das estradas na zona rural de Pelotas também merece críticas. “Da BR pra dentro não temos estrada. É patrolada talvez uma vez por ano, faz aniversário sem manutenção, não é nem patrolada nem roçada. E o pior que as estradas diminuíram. Faz 30 anos que se reduziu em 30% a área do Município [em referência às emancipações de Morro Redondo, Arroio do Padre e Turuçu] e me diz se chega uma máquina nova?! Se falar em ponte, então, Deus me perdoe”, desabafa.

O que diz a prefeitura

Em nota, a Secretaria de Desenvolvimento Rural (SDR) diz que as equipes realizam serviço de manutenção e roçado em diversas localidades da Colônia de Pelotas. Levando em consideração os 1.280 quilômetros de estradas na região, a pasta tem executado os serviços conforme cronograma de atividades previamente estabelecido, a fim de garantir maior cobertura das manutenções necessárias.

Segundo o secretário e vice-prefeito Idemar Barz (PSDB), após o trabalho realizado na estrada de acesso à Chácara dos Pinus, as equipes em dezembro atuam na requalificação da Estrada do Sinnott. Serviços de manutenção na Colônia Santa Eulália também já estão assegurados a partir do cronograma de atividades da Secretaria.

Enviar comentário

Envie um comentário!
Digite o seu nome